Visão Judaica - Edição N° 16
:. A obsessão antiamericana .:

Por: José Nivaldo Cordeiro*

Tanta e tão boas foram as resenhas que ilustres comentadores fizeram sobre o livro de Jean-François Revel, A Obsessão Antiamericana (Rio de Janeiro, Ed. UniverCidade, 2003), que eu havia desistido de fazer o meu próprio comentário, por redundante. Mas ao ler o artigo ("Iraque, Israel, Brasil") de Mario Sergio Conti, na revista eletrônica No Mínimo (www.nominimo.ibest.com.br), resolvi voltar ao livro para rebater os absurdos que o ilustre jornalista escreveu. Ele segue à risca o lema "blame América first", que todos os engajados do mundo colocam em prática.
Para quem não sabe, Conti é um consagrado jornalista, que passou por Veja e Jornal do Brasil. É autor de um dos mais deliciosos livros que já li, Notícias do Planalto: A Imprensa e Fernando Collor (São Paulo, Cia das Letras, 1999), que, à época, tornou-se um best-seller. Pela informação do site, ele mora atualmente em Paris.
Comecemos pelo livro de Revel. Ele diz o óbvio: há um ódio irracional e disseminado contra os EUA no mundo, a despeito da realidade. É bom lembrar que, desde a polarização política do mundo de antes da Guerra Fria, a propaganda de esquerda sempre foi direcionada para denegrir a imagem dos EUA, por isso o autor afirmou (página 56):
"As descrições falsificadas das relações sociais e do nível de vida nos Estados Unidos têm, por função última, atendendo à paixão antiamericana, denegrir a economia liberal. Do mesmo modo, o desconhecimento ou a caricatura das instituições americanas transmite a idéia de que os Estados Unidos não são verdadeiramente uma democracia e, extrapolando, que as democracias liberais só são democráticas na aparência".
Eis o ponto. A verdade é que os EUA são a mais antiga e estável democracia do mundo, o gigante que salvou a humanidade do nazismo e do comunismo (e do imperialismo japonês) e, ao fazê-lo, permitiu que a democracia como valor universal prevalecesse, pelo menos no Hemisfério Ocidental. Aquele país nunca viveu uma experiência totalitária. Nos tempos modernos democracia e liberalismo formam uma unidade indissolúvel, o que se chama de sociedade aberta, que se opõe ao obscurantismo das alternativas coletivistas. Não sem alguma ironia, Revel comenta, utilizando os recentes fatos políticos da França como exemplo (página 269):
"Coisa estranha, é sempre na Europa que surgem as ditaduras e os regimes totalitários, mas é sempre a América que é fascista! Entretanto, se alguém somar os votos obtidos por Le Pen na eleição, aos votos dos três candidatos, o trotskista, o partido comunista e o dos verdes (que, na França, são mais esquerdistas e maoístas, que ecologistas), constata que um terço dos eleitores seguiu os candidatos que, tanto na extrema direita como na extrema esquerda, rejeitam o que eles chamam de 'globalização unilateral', ou seja, a liberdade econômica, mãe da liberdade política, e estão desejosos de retornar ao superado dirigismo protecionista, de conotação indiscutivelmente totalitária".
Antes, Revel tinha lembrado, à página 248, que "A Europa, a América Latina e a África, têm, pois, tanto interesse, senão mais que os Estados Unidos, na liberdade de comércio. É isto o que explica os protestos que surgem de todos os continentes assim que os americanos tomam a menor medida protecionista. E é isso que torna absurdas as invectivas reacionárias contra a liberalização do comércio, mesmo do ponto de vista dos antiglobalistas, que fingem defender os interesses dos países pobres".
Antes de comentar o artigo de Conti, convém lembrar que Revel destrói impiedosamente os argumentos daqueles que acusaram os americanos de imperialistas, por fazerem a guerra contra o que ele chamou de hiperterrorismo islâmico, lembrando (à página 298) a tese ridícula de Celso Furtado, a de que os atentados de 11 de setembro teriam sido praticados pela direita dos EUA e as declarações de Leonardo Boff (cito-os por interessar diretamente aos brasileiros) ao jornal O Globo, de que "estava desolado por um avião apenas ter sido lançado sobre o Pentágono: ele teria desejado ver vinte e cinco. Caridade cristã..."
Conti se alinha no antiamericanismo puro e gratuito, na mesma linha dos totalitários apontados por Revel. Toda a gente sensata sabe que os EUA ficaram obrigados a combater o hiperterrorismo islâmico na origem, sob pena de ver repetidos os fatídicos acontecimentos de 11 de setembro. Tornou-se necessário matar o mal no nascedouro, daí a campanha no Afeganistão e no Iraque. É ainda importante ressaltar que a única democracia do Oriente Médio, Israel, é a ponta de lança do Ocidente naquela parte do mundo e que, a despeito das obrigações morais dos ocidentais para com o povo judeu, na geopolítica mundial é preciso preservar o Estado israelense.
Conti, ignorando a cadeia dos acontecimentos históricos, escreveu candidamente: "Esquisita essa história dos Estados Unidos não mostrarem logo as armas de destruição em massa do Iraque. Pouco interessa se elas existem ou não. O mais simples seria forjar a sua existência. Levar ao Iraque umas ogivas nucleares capengas, uns galões de produtos químicos, e apresentá-los à imprensa num palco repleto de bandeiras, com soldados negros e latinos ao fundo, e, pronto, o embaraço estaria resolvido".
Ora, havia fortes suspeitas quanto à existência das armas de destruição massiva e o Iraque era talvez, sob Saddam, a mais terrível ditadura totalitária existente e berço do ativismo terrorista contra os EUA, maior até que a de Fidel Castro. O fator armas proibidas era apenas uma das razões para a guerra e, na sua ausência, os outros dois ainda permaneciam, que era a formação e o financiamento de terroristas e o totalitarismo homicida de Saddam. De quebra, era preciso demonstrar aos radicais islâmicos e aos Estados delinqüentes, como o Irã e a Coréia do Norte, que agressões não mais seriam toleradas, em quaisquer circunstâncias. Não precisa ser cientista político para saber disso.
Só alguém engajado para imaginar que governantes sérios forjariam provas de qualquer natureza. Isso é típico dos totalitários, não dos democratas. Escrever isso é uma imoralidade.
"Saiu nesta semana uma pesquisa de opinião pública mostrando que mais da metade dos americanos apoiaria uma invasão do Irã, outro integrante do "eixo do mal". A política belicista da Casa Branca tem apoio popular. Bush realmente representa os Estados Unidos. Logo, o anti-americanismo não é uma tolice". Anti-americanismo é mais que uma doença, é uma estratégia política, é uma obsessão, é um aleijão da alma, é uma deformação política, é a expressão de um desejo totalitário mal disfarçado.
Do mesmo modo que os EUA, todos sabem que o Estado judeu está sob ataque terrorista há décadas, que não poupa nem mulheres e crianças indefesas, em locais de lazer. Em vista disso, o seu governo tem que dar resposta à altura aos agressores e, em face do seu poderio militar, apenas a superioridade moral dos comandantes militares israelenses para minimizar as vítimas civis do lado palestino, em sua luta contra as lideranças do terror. Mas não para Conti e tutti quanti:
"A analogia que coloca num mesmo plano a política de Israel em relação aos palestinos com a dos nazistas para com os judeus é falsa. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A analogia correta mais próxima é o apartheid. Como no caso dos governos brancos da África do Sul das décadas de 40 a 90, Israel considera os palestinos cidadãos de segunda classe e busca segregá-los em enclaves isolados, bantustões, sem comunicação entre si".
Ora, como ignorar a onda sucessiva de homens-bomba, disfarçados de civis? Não é contra os palestinos enquanto tal que o Estado israelense toma as medidas preventivas, mas contra aqueles que querem destruir Israel a qualquer preço, por quaisquer meios. Imoral, diante de seu povo, seria cruzar os braços diante do perigo e da ameaça e não tomar as medidas cabíveis. Isso, obviamente, não tem paralelo algum com o que ocorreu na África do Sul.
Um homem ilustrado e bem informado como Mario Sergio Conti não poderia escrever essas meias-verdades e mentiras inteiras despropositadamente. Ele sabe, o que torna o seu caso um clássico da sociopatia engajada, que faz da mendacidade um modo de vida. Não é à toa que ele ocupou postos de comando em grandes veículos da imprensa brasileira: tinha o perfil adequado aos cargos.

* José Nivaldo Cordeiro é escritor, nascido no Ceará, reside e trabalha em São Paulo. Auto-intitula-se um "expectador engajado", um liberal que combate o bom combate. Escreve diariamente sobre variados assuntos no site www.nivaldocordeiro.hpg.ig.com.br

Voltar