Visão Judaica - Edição N° 16
:. Adeus ao Roberto Marinho: O generoso,jornalista e amigo.:

Por: Nahum Sirotsky *

De Israel - Quando falam de Roberto Marinho lembro o homem generoso, o companheiro confiável e o jornalista de excepcional intuição empresarial. Um pai. Um homem para todas as ocasiões. Mas a vida é uma doença invencível. É inexorável. Venceu a Roberto.
Eu acredito que seja dos últimos sobreviventes dos anos heróicos de O Globo, o jornal herdado de Irineu Marinho, o primeiro jornalista na família, o pai. Trabalhava-se num velho casarão, no Largo da Carioca, com escadarias que rangiam assustadoramente. Havia um restaurante interno com alimentos vendidos a preço simbólico. A comida cheirava gráfica da qual fazia parte e ambiente de camaradagem que não existe mais. Eram os tempos em que as ordens eram gritadas, de poucos aparelhos telefônicos, do linotipo, da impressora que sacudia tudo com barulho infernal do jornal quentinho, com o cheiro da tinta, e dos meninos jornaleiros que saiam gritando: "Olha O Globo. Matou cinco". O chão da redação era de pontas de cigarro. Havia um horário. Mas para todos era difícil sair. O jornal era a casa, o divertimento, o trabalho, o passa-tempo, os amigos e os inimigos, aventuras sem fim. Os repórteres estavam sempre prontos para irem lá.nos locais agradáveis e perigosos. Alves Pinheiro, o maior dos chefes de reportagem, não admitia fracasso. "Não venha sem o 'boneco'. Não vá perder para os outros". Havia mais de 20 diários no Rio.
Pinheiro chegava às três da manhã. Tinha gente dele esperando na boca da maquina dos matutinos. Ele não hesitava em acordar as maiores figuras da Republica para pedir informação ou mais detalhes do que saíra. Era a suíte, a continuação. Logo chegava Roberto que sentava em sua mesa e começava a corrigir textos ou escrever outros.Tinha o instinto da notícia que interessaria. Os textos sobre temas mais sensíveis passavam por ele. Não demoravam chegavam Ricardo e Rogério. Os irmãos trabalhavam mais horas que qualquer um de nós.
Não havia dinheiro. Éramos pagos semanalmente. Saíamos para reportagens de ônibus ou de bonde elétrico. Tínhamos de prestar contas na volta. Quando saía a edição todos corríamos para ler comparando com os principais concorrentes. Eram os momentos de alegria por vitórias e tristezas. Cada edição era dar a luz. Todos tínhamos diversos outros meios de ganhar. Os salários eram pequenos. Faltava um foca. Me pegaram na hora e pouco depois estava na rua fazendo o que nunca fizera: uma reportagem. Deu certo: o entrevistado escreveu tudo.
Acho que Roberto notou que havia me apaixonado pela profissão. 1945 ainda se estava em guerra. Ele me mandou para os Estados Unidos, como correspondente e aprender. Um garoto. Foram dois anos que mudaram a minha vida. Na volta me deu novas funções como a de começar uma redação especializada em notícias de rádio na Globo. Fui para outros cargos. Nunca perdi contato. Ele tinha orgulho de seus meninos.
Era mesmo um colega. A carteirinha de O Globo era para ser respeitada.por todos, de presidente a bandido. Trabalhar com ele era sentir confiança. Ele nunca abandonava um companheiro em situação alguma. Fazia tudo com discrição. A redação era abrigo de comunistas e integralistas.Tudo o que exigia era saber a verdade. Em O Globo, nos piores anos de Felinto Müller, trabalhavam como redatores lideres do PC. Eram intocáveis. Eram de O Globo. Ele ensinava jornalismo com modéstia. Era um bom caráter. Nunca deixou de ser. Roberto Marinho recebia os velhos companheiros com a simplicidade de sempre. Ia visitá-lo na rua Irineu Marinho só para matar saudades. Ele me educou, formou como profissional, muito do meu comportamento.
O Grupo se espalhou pelo mundo. As novelas ensinam português. Novela da Globo já fez suspender sessões do Parlamento. Os documentários são a maior propaganda do Pais.
Eu sempre me orgulhei de dizer ''sou cria do Globo". Só quem trabalhou com Roberto e seus irmãos sabe que exemplo eram.
Espero que ele não seja esquecido.Nome de rua é coisa passiva. Ele merece uma cadeira na escola com seu nome para que viva para sempre.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS em Israel e colunista do Último Segundo/IG. A publicação de sua coluna do IG tem autorização do autor.

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