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Por: Nahum
Sirotsky *
De Israel - Quando falam de Roberto Marinho lembro o homem generoso,
o companheiro confiável e o jornalista de excepcional intuição
empresarial. Um pai. Um homem para todas as ocasiões. Mas
a vida é uma doença invencível. É inexorável.
Venceu a Roberto.
Eu acredito que seja dos últimos sobreviventes dos anos heróicos
de O Globo, o jornal herdado de Irineu Marinho, o primeiro jornalista
na família, o pai. Trabalhava-se num velho casarão,
no Largo da Carioca, com escadarias que rangiam assustadoramente.
Havia um restaurante interno com alimentos vendidos a preço
simbólico. A comida cheirava gráfica da qual fazia
parte e ambiente de camaradagem que não existe mais. Eram
os tempos em que as ordens eram gritadas, de poucos aparelhos telefônicos,
do linotipo, da impressora que sacudia tudo com barulho infernal
do jornal quentinho, com o cheiro da tinta, e dos meninos jornaleiros
que saiam gritando: "Olha O Globo. Matou cinco". O chão
da redação era de pontas de cigarro. Havia um horário.
Mas para todos era difícil sair. O jornal era a casa, o divertimento,
o trabalho, o passa-tempo, os amigos e os inimigos, aventuras sem
fim. Os repórteres estavam sempre prontos para irem lá.nos
locais agradáveis e perigosos. Alves Pinheiro, o maior dos
chefes de reportagem, não admitia fracasso. "Não
venha sem o 'boneco'. Não vá perder para os outros".
Havia mais de 20 diários no Rio.
Pinheiro chegava às três da manhã. Tinha gente
dele esperando na boca da maquina dos matutinos. Ele não
hesitava em acordar as maiores figuras da Republica para pedir informação
ou mais detalhes do que saíra. Era a suíte, a continuação.
Logo chegava Roberto que sentava em sua mesa e começava a
corrigir textos ou escrever outros.Tinha o instinto da notícia
que interessaria. Os textos sobre temas mais sensíveis passavam
por ele. Não demoravam chegavam Ricardo e Rogério.
Os irmãos trabalhavam mais horas que qualquer um de nós.
Não havia dinheiro. Éramos pagos semanalmente. Saíamos
para reportagens de ônibus ou de bonde elétrico. Tínhamos
de prestar contas na volta. Quando saía a edição
todos corríamos para ler comparando com os principais concorrentes.
Eram os momentos de alegria por vitórias e tristezas. Cada
edição era dar a luz. Todos tínhamos diversos
outros meios de ganhar. Os salários eram pequenos. Faltava
um foca. Me pegaram na hora e pouco depois estava na rua fazendo
o que nunca fizera: uma reportagem. Deu certo: o entrevistado escreveu
tudo.
Acho que Roberto notou que havia me apaixonado pela profissão.
1945 ainda se estava em guerra. Ele me mandou para os Estados Unidos,
como correspondente e aprender. Um garoto. Foram dois anos que mudaram
a minha vida. Na volta me deu novas funções como a
de começar uma redação especializada em notícias
de rádio na Globo. Fui para outros cargos. Nunca perdi contato.
Ele tinha orgulho de seus meninos.
Era mesmo um colega. A carteirinha de O Globo era para ser respeitada.por
todos, de presidente a bandido. Trabalhar com ele era sentir confiança.
Ele nunca abandonava um companheiro em situação alguma.
Fazia tudo com discrição. A redação
era abrigo de comunistas e integralistas.Tudo o que exigia era saber
a verdade. Em O Globo, nos piores anos de Felinto Müller, trabalhavam
como redatores lideres do PC. Eram intocáveis. Eram de O
Globo. Ele ensinava jornalismo com modéstia. Era um bom caráter.
Nunca deixou de ser. Roberto Marinho recebia os velhos companheiros
com a simplicidade de sempre. Ia visitá-lo na rua Irineu
Marinho só para matar saudades. Ele me educou, formou como
profissional, muito do meu comportamento.
O Grupo se espalhou pelo mundo. As novelas ensinam português.
Novela da Globo já fez suspender sessões do Parlamento.
Os documentários são a maior propaganda do Pais.
Eu sempre me orgulhei de dizer ''sou cria do Globo". Só
quem trabalhou com Roberto e seus irmãos sabe que exemplo
eram.
Espero que ele não seja esquecido.Nome de rua é coisa
passiva. Ele merece uma cadeira na escola com seu nome para que
viva para sempre.
* Nahum Sirotsky é
jornalista, correspondente da RBS em Israel e colunista do Último
Segundo/IG. A publicação de sua coluna do IG tem autorização
do autor.
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