Visão Judaica - Edição N° 23
Jaime Lerner: o Doutor das cidades


Ele é um dos três brasileiros que por seus próprios méritos são os mais conhecidos no Exterior [os outros dois são Pelé e Fernando Henrique Cardoso]. A experiência acumulada com suas intervenções nos aglomerados urbanos dos quatro cantos do planeta fez dele uma figura popular onde quer que vá. E prova disso foi sua eleição — emocionante, para ele, e para os paranaenses — à Presidência da União Internacional dos Arquitetos, com sede em Paris. Está numa das melhores fases de seu bom humor, aliás, característica inerente da família. A experiência como doutor em cidades ele a transcreveu para o papel e acaba de lançar, tanto em Curitiba como em São Paulo, o livro “Acupuntura Urbana”, cuja “orelha” é assinada por ninguém menos que Oscar Niemeyer. De Jaime Lerner, diz o grande mestre da arquitetura, que sem o talento e a intuição que possui não seriam possíveis as modificações urbanas que realizou. As noites de autógrafos foram prestigiadíssimas.
No seu livro, que já é sucesso — está sendo agora traduzido para o espanhol e o italiano —, Lerner mostra também a veia artística de todo arquiteto e que nele se sobressai com uma boa dose de genialidade. Num capítulo denominado “Acupuntura pela música”, ele analisa a relação intrínseca dos sons com uma cidade, desde “o barulho da caixa de fósforos no boteco da esquina carioca, a percussão nas calçadas da Bahia, ou ao hip-hop dos aparelhos gigantes carregados pelos african-americans nas ruas dos Estados Unidos”. Ele fala também das músicas que identificam muitas cidades no mundo, como o tango em Buenos Aires, ou o samba no Rio de Janeiro, ou ainda canções que acabaram se tornando verdadeiros hinos de cidades.
Jaime Lerner foi duas vezes governador do Paraná e três vezes prefeito de Curitiba, cidade em que nasceu, que transformou e é uma de suas paixões. Há outras, como a música, especialmente se a música for klezmer, uma instrumentação sonora muito harmoniosa e singular, típica das velhas comunidades judaicas da Europa Oriental, onde grupos tocavam em casamentos e festas alegres.
Seus pais, já falecidos, Bine Ethel e Felix Lerner nasceram em Warecz, província de Sokol, então na Polônia e hoje integrada ao território da Ucrânia. Em 1933, a falta de perspectiva, as injustiças, as dificuldades e o anti-semitismo fizeram com que viessem para o Brasil. Residiam em Curitiba naquela época seu tio Júlio Karniol, e o tio de sua mãe, Sanson Ende, e foram eles que receberam a família. Seu pai começou vendendo gravatas na rua e logo abriu uma porta na Rua Marechal Floriano. Depois, a loja passou para a Rua Barão do Rio Branco, numa casa em que a moradia ficava nos fundos. Foi ali que Jaime Lerner e seus irmãos Júlio, Henrique, Clarita e Lea nasceram.
Casado com Fani, tem duas filhas: Andréa e Ilana, ambas casadas, respectivamente com Cláudio e Sebastian, e que lhe deram os netos Ben e Liana; Tobias e a mais nova, Sophie.
Em seu escritório, no Instituto Jaime Lerner, ele recebeu Visão Judaica, num final de manhã para falar de seu trabalho e de seu judaísmo.

Visão Judaica — Seus pais mantinham as tradições judaicas e a alimentação casher?
Jaime Lerner — Sim, meus pais mantinham as tradições judaicas sem serem ortodoxos. E sempre nossa comida em casa era casher. Na época era muito difícil. Carne só havia em São Paulo e meu pai quando viajava para lá para fazer compras, aproveitava e trazia
de lá.

VJ — Onde estudou?
JL — O primário foi na Escola Israelita Salomão Guelmann. O ginásio e o científico foi no Colégio Estadual do Paraná e na Universidade Federal do Paraná fiz os cursos de Engenharia e Arquitetura.

VJ — Naquele tempo freqüentava o ambiente da comunidade?
JL — Além da escola, freqüentava a sinagoga todos os sábados, o movimento juvenil Dror e o Centro Israelita do Paraná (CIP), que tinha uma biblioteca muito boa. Fiz parte da redação da revista “O Macabeu” e até cheguei a ser o diretor dela. No Dror, eu, o Salomão Blinder, o Juca (José) Zokner e o Zig (Segismundo Morgenstern) fizemos uma revista praticamente “à mão” — no mimeógrafo.

VJ — Como e aonde conheceu a Fani?
JL — Eu conheci a Fani no CIP, quando eu era diretor de “O Macabeu” e estava fazendo a reportagem das debutantes. Nem preciso dizer que a Fani foi capa da revista...

VJ — Suas filhas também tiveram educação judaica?
JL — Sim, minhas filhas também tiveram educação judaica. A mesma que recebi de meus pais. E elas freqüentaram a escola israelita. Eu tive a sorte de ter estudado na escola israelita quando era diretor o professor Bariach. Ele nos impunha a leitura semanal de três livros. Dois em português e um em iídiche. E ele fazia a verificação, tomando-nos os temas lidos. Isso despertava o interesse pela leitura e expandia nossa cultura. Sou grato a ele por isso. Minhas filhas foram a Israel passaram um ano num kibutz.

VJ — Fale um pouco do Jaime arquiteto.
JL — Todo o sonho de minha vida era ser arquiteto. Quando estudava Engenharia pegava as revistas de arquitetura e fui muito influenciado pelo Oscar Niemeyer. Ao final do curso, com 22 anos de idade fiz dois projetos considerados grandes para um recém-formado: a Casa do Estudante Secundário do Paraná (que não foi levado adiante) e o Estádio de Maringá. Depois disso ganhei uma bolsa da Aliança Francesa, em 1962 e fui para Paris. Lá, trabalhei num escritório famoso, o do arquiteto grego Candilis, que ganhara um projeto para a cidade de Toulon. Quando voltei ao Brasil, em 1963, me ofereceram a função de professor do novo curso de Arquitetura da UFPR. Deixei de ser professor para ser estudante. Preferi assim e foi a melhor decisão que tomei na minha vida. Mais tarde, depois que me formei em arquitetura me tornei professor. Mas jamais imaginei que um dia chegaria a ser eleito presidente da União Internacional dos Arquitetos, que representa 1,5 milhão de arquitetos em mais de 100 países. Fui eleito por um conselho de 600 membros em três turnos. Cada turno eliminava o último colocado e passei por todos eles. O Instituto de Arquitetos do Brasil apresentou meu nome e a Espanha apoiou. Tive votos de representações que me surpreenderam. Dirijo a entidade eletronicamente, mas de tempos em tempos tenho que ir para as reuniões lá. A União é uma organização ligada à Unesco, muito respeitada no que diz respeito às cidades e ao meio ambiente. Mas estou sacrificando profissionalmente meu escritório que tem trabalhos assinados além das capitais brasileiras, em Caracas, San Juan, Xangai, Havana, Nova Iorque e São Francisco entre outras cidades.

VJ — E um pouco do Jaime judeu.
JL — Cultivamos as grandes festas, Rosh Hashaná, Iom Kipur e em Pessach reúne-se toda a família. E aí a gente sente a presença dos meus pais. Lembro-me de quando assumi a Prefeitura de Curitiba, uma das primeiras coisas que recebi foi uma homenagem da comunidade. E no discurso que fiz na ocasião disse que o pinheiro do Paraná, o símbolo da nossa terra, tem a forma de uma menorá, o candelabro que é um dos símbolos judaicos. Ao trilhar por esse caminho, jamais me esqueceria da menorá. E toda vez que eu estivesse em frente de uma menorá não me esqueceria de minha cidade, Curitiba, e de minha terra, o Paraná. Nunca deixei minha tradição, gosto dela e tive a felicidade de herdá-la. Por isso fico cada vez mais próximo dela como fico próximo do meu país que é o Brasil. Eu sempre cito Tolstoi: “Quer ser universal, cante tua aldeia”. E quando você tem várias culturas, você leva na carne toda a humanidade.

VJ — Todo mundo tem um hobby. O seu é a música klezmer?
JL — É verdade. Sou colecionador de música klezmer. Nas palestras não remuneradas, sempre peço como “pagamento” discos de música klezmer. Comecei a me interessar por ela, em Nova Iorque, onde há grupos formados por músicos de orquestras filarmônicas e clássicas. Uma vez, vi um desses grupos tocando na rua e fiquei fascinado. Em seguida, liguei para o meu pai para agradecer-lhe por ter me dado uma educação que me permitiu ter esse sentimento.

VJ — Qual é sua relação com a comunidade?
JL — Eu sempre estive presente. E nos cargos públicos que ocupei a comunidade sempre teve uma postura generosa de me preservar e saber quais eram minhas responsabilidades. Nunca recebi pedidos especiais da comunidade. As lideranças sempre entenderam minhas funções de homem público. Participo da B’nai B’rith e estou à disposição da comunidade.

VJ — Como é o seu sentimento em relação a Israel?
JL — Israel representa o sonho e a eternidade do povo judeu. É importante como uma parede de pedras marcou a identidade de um povo por mais de 20 séculos. Isso é muito forte, a razão da existência e a referência cultural e humanitária do povo judeu. Fui convidado para fazer palestras em Israel, mas a acupuntura que gostaria de fazer seria a da Paz.


 

 

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