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Ele é um dos três brasileiros que por seus próprios
méritos são os mais conhecidos no Exterior [os
outros dois são Pelé e Fernando Henrique Cardoso].
A experiência acumulada com suas intervenções
nos aglomerados urbanos dos quatro cantos do planeta fez dele
uma figura popular onde quer que vá. E prova disso foi
sua eleição — emocionante, para ele, e
para os paranaenses — à Presidência da União
Internacional dos Arquitetos, com sede em Paris. Está numa
das melhores fases de seu bom humor, aliás, característica
inerente da família. A experiência como doutor
em cidades ele a transcreveu para o papel e acaba de lançar,
tanto em Curitiba como em São Paulo, o livro “Acupuntura
Urbana”, cuja “orelha” é assinada
por ninguém menos que Oscar Niemeyer. De Jaime Lerner,
diz o grande mestre da arquitetura, que sem o talento e a intuição
que possui não seriam possíveis as modificações
urbanas que realizou. As noites de autógrafos foram
prestigiadíssimas.
No seu livro, que já é sucesso — está sendo
agora traduzido para o espanhol e o italiano —, Lerner
mostra também a veia artística de todo arquiteto
e que nele se sobressai com uma boa dose de genialidade. Num
capítulo denominado “Acupuntura pela música”,
ele analisa a relação intrínseca dos sons
com uma cidade, desde “o barulho da caixa de fósforos
no boteco da esquina carioca, a percussão nas calçadas
da Bahia, ou ao hip-hop dos aparelhos gigantes carregados pelos
african-americans nas ruas dos Estados Unidos”. Ele fala
também das músicas que identificam muitas cidades
no mundo, como o tango em Buenos Aires, ou o samba no Rio de
Janeiro, ou ainda canções que acabaram se tornando
verdadeiros hinos de cidades.
Jaime Lerner foi duas vezes governador do Paraná e três
vezes prefeito de Curitiba, cidade em que nasceu, que transformou
e é uma de suas paixões. Há outras, como
a música, especialmente se a música for klezmer,
uma instrumentação sonora muito harmoniosa e
singular, típica das velhas comunidades judaicas da
Europa Oriental, onde grupos tocavam em casamentos e festas
alegres.
Seus pais, já falecidos, Bine Ethel e Felix Lerner nasceram
em Warecz, província de Sokol, então na Polônia
e hoje integrada ao território da Ucrânia. Em
1933, a falta de perspectiva, as injustiças, as dificuldades
e o anti-semitismo fizeram com que viessem para o Brasil. Residiam
em Curitiba naquela época seu tio Júlio Karniol,
e o tio de sua mãe, Sanson Ende, e foram eles que receberam
a família. Seu pai começou vendendo gravatas
na rua e logo abriu uma porta na Rua Marechal Floriano. Depois,
a loja passou para a Rua Barão do Rio Branco, numa casa
em que a moradia ficava nos fundos. Foi ali que Jaime Lerner
e seus irmãos Júlio, Henrique, Clarita e Lea
nasceram.
Casado com Fani, tem duas filhas: Andréa e Ilana, ambas
casadas, respectivamente com Cláudio e Sebastian, e
que lhe deram os netos Ben e Liana; Tobias e a mais nova, Sophie.
Em seu escritório, no Instituto Jaime Lerner, ele recebeu
Visão Judaica, num final de manhã para falar
de seu trabalho e de seu judaísmo.
Visão Judaica — Seus pais mantinham as tradições
judaicas e a alimentação casher?
Jaime Lerner — Sim, meus pais mantinham as tradições
judaicas sem serem ortodoxos. E sempre nossa comida em casa
era casher. Na época era muito difícil. Carne
só havia em São Paulo e meu pai quando viajava
para lá para fazer compras, aproveitava e trazia
de lá.
VJ — Onde
estudou?
JL — O primário foi na Escola Israelita Salomão
Guelmann. O ginásio e o científico foi no Colégio
Estadual do Paraná e na Universidade Federal do Paraná fiz
os cursos de Engenharia e Arquitetura.
VJ — Naquele tempo freqüentava
o ambiente da comunidade?
JL — Além da escola, freqüentava a sinagoga
todos os sábados, o movimento juvenil Dror e o Centro
Israelita do Paraná (CIP), que tinha uma biblioteca
muito boa. Fiz parte da redação da revista “O
Macabeu” e até cheguei a ser o diretor dela. No
Dror, eu, o Salomão Blinder, o Juca (José) Zokner
e o Zig (Segismundo Morgenstern) fizemos uma revista praticamente “à mão” — no
mimeógrafo.
VJ — Como
e aonde conheceu a Fani?
JL — Eu conheci a Fani no CIP, quando eu era diretor
de “O Macabeu” e estava fazendo a reportagem das
debutantes. Nem preciso dizer que a Fani foi capa da revista...
VJ — Suas filhas também tiveram educação
judaica?
JL — Sim, minhas filhas também tiveram educação
judaica. A mesma que recebi de meus pais. E elas freqüentaram
a escola israelita. Eu tive a sorte de ter estudado na escola
israelita quando era diretor o professor Bariach. Ele nos impunha
a leitura semanal de três livros. Dois em português
e um em iídiche. E ele fazia a verificação,
tomando-nos os temas lidos. Isso despertava o interesse pela
leitura e expandia nossa cultura. Sou grato a ele por isso.
Minhas filhas foram a Israel passaram um ano num kibutz.
VJ — Fale
um pouco do Jaime arquiteto.
JL — Todo o sonho de minha vida era ser arquiteto. Quando
estudava Engenharia pegava as revistas de arquitetura e fui
muito influenciado pelo Oscar Niemeyer. Ao final do curso,
com 22 anos de idade fiz dois projetos considerados grandes
para um recém-formado: a Casa do Estudante Secundário
do Paraná (que não foi levado adiante) e o Estádio
de Maringá. Depois disso ganhei uma bolsa da Aliança
Francesa, em 1962 e fui para Paris. Lá, trabalhei num
escritório famoso, o do arquiteto grego Candilis, que
ganhara um projeto para a cidade de Toulon. Quando voltei ao
Brasil, em 1963, me ofereceram a função de professor
do novo curso de Arquitetura da UFPR. Deixei de ser professor
para ser estudante. Preferi assim e foi a melhor decisão
que tomei na minha vida. Mais tarde, depois que me formei em
arquitetura me tornei professor. Mas jamais imaginei que um
dia chegaria a ser eleito presidente da União Internacional
dos Arquitetos, que representa 1,5 milhão de arquitetos
em mais de 100 países. Fui eleito por um conselho de
600 membros em três turnos. Cada turno eliminava o último
colocado e passei por todos eles. O Instituto de Arquitetos
do Brasil apresentou meu nome e a Espanha apoiou. Tive votos
de representações que me surpreenderam. Dirijo
a entidade eletronicamente, mas de tempos em tempos tenho que
ir para as reuniões lá. A União é uma
organização ligada à Unesco, muito respeitada
no que diz respeito às cidades e ao meio ambiente. Mas
estou sacrificando profissionalmente meu escritório
que tem trabalhos assinados além das capitais brasileiras,
em Caracas, San Juan, Xangai, Havana, Nova Iorque e São
Francisco entre outras cidades.
VJ — E
um pouco do Jaime judeu.
JL — Cultivamos as grandes festas, Rosh Hashaná,
Iom Kipur e em Pessach reúne-se toda a família.
E aí a gente sente a presença dos meus pais.
Lembro-me de quando assumi a Prefeitura de Curitiba, uma das
primeiras coisas que recebi foi uma homenagem da comunidade.
E no discurso que fiz na ocasião disse que o pinheiro
do Paraná, o símbolo da nossa terra, tem a forma
de uma menorá, o candelabro que é um dos símbolos
judaicos. Ao trilhar por esse caminho, jamais me esqueceria
da menorá. E toda vez que eu estivesse em frente de
uma menorá não me esqueceria de minha cidade,
Curitiba, e de minha terra, o Paraná. Nunca deixei minha
tradição, gosto dela e tive a felicidade de herdá-la.
Por isso fico cada vez mais próximo dela como fico próximo
do meu país que é o Brasil. Eu sempre cito Tolstoi: “Quer
ser universal, cante tua aldeia”. E quando você tem
várias culturas, você leva na carne toda a humanidade.
VJ — Todo mundo tem um hobby. O seu é a música
klezmer?
JL — É verdade. Sou colecionador de música
klezmer. Nas palestras não remuneradas, sempre peço
como “pagamento” discos de música klezmer.
Comecei a me interessar por ela, em Nova Iorque, onde há grupos
formados por músicos de orquestras filarmônicas
e clássicas. Uma vez, vi um desses grupos tocando na
rua e fiquei fascinado. Em seguida, liguei para o meu pai para
agradecer-lhe por ter me dado uma educação que
me permitiu ter esse sentimento.
VJ — Qual é sua relação
com a comunidade?
JL — Eu sempre estive presente. E nos cargos públicos
que ocupei a comunidade sempre teve uma postura generosa de
me preservar e saber quais eram minhas responsabilidades. Nunca
recebi pedidos especiais da comunidade. As lideranças
sempre entenderam minhas funções de homem público.
Participo da B’nai B’rith e estou à disposição
da comunidade.
VJ — Como é o seu sentimento em relação
a Israel?
JL — Israel representa o sonho e a eternidade do povo
judeu. É importante como uma parede de pedras marcou
a identidade de um povo por mais de 20 séculos. Isso é muito
forte, a razão da existência e a referência
cultural e humanitária do povo judeu. Fui convidado
para fazer palestras em Israel, mas a acupuntura que gostaria
de fazer seria a da Paz.
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