Por: Luiz Nazario*
No dia 13/3/2004, no Programa de Entrevistas do
jornalista William Waack no canal a cabo GloboNews, o cientista
político Hélio
Jaguaribe fez uma distinção sutil entre os atentados
cometidos em Nova York e Madri, produzidos por “grupos de
fanáticos islâmicos” e outros atentados cometidos
hoje no mundo, e que constituiriam uma “reação à intolerância
difusa” e à “humilhação de comunidades”.
Leia-se: a explosão de civis americanos e europeus constituiria
terrorismo e os grupos que os praticam deveriam ser combatidos
e eliminados (embora esse combate, levado a cabo por Bush seja,
segundo Jaguaribe e toda a opinião corrente, “um fracasso”);
já a explosão de civis israelenses não constituiria
terrorismo, configurando-se como “outra coisa”, provavelmente
um ato legítimo de “resistência ao terror de
Estado”, fruto da “humilhação e desespero
de comunidades vítimas de intolerância”, um
terrorismo-não-terrorista-e-antiterrorismo que deveria ser,
portanto, sustentado (considerando, por exemplo, o muro de proteção
erguido por Sharon um novo “muro de Berlim”, “muro
da Vergonha”, “muro do Gueto de Varsóvia” e
assim por diante).
Segundo outros especialistas em política internacional,
entrevistados no mesmo programa, Bush teria “destampado” o
terror com sua guerra ao Iraque. Os cientistas afirmaram – e
Jaguaribe de modo enfático – que a ditadura de Saddam
Hussein era positiva: “ocidentalizado e modernizador”,
seu regime funcionaria como panela de pressão, cozinhando
em fogo lento os grupos fanáticos que, agora, destampados
por Bush, desencadeiam atentados terroristas. Sem destacar o fato
de que os terroristas suicidas que hoje agem no Iraque defendem
o retorno da ditadura de Saddam Hussein, vitimando tanto os americanos
quanto os xiitas, fanáticos que estavam reprimidos, mas
que não parecem integrar as fileiras do terror que atua
hoje no Iraque, esses cientistas políticos não percebem
que, se o terrorismo islâmico hoje domina o mundo, é justamente
por ter sido, até 11/9, desprezado pelo Ocidente. Como antes
de 11/9 o terror não foi efetivamente combatido pelas potências
ocidentais, pode ele, depois de exercitar-se durante anos em Israel
com a indiferença do mundo (indiferença que é reafirmada
a cada dia), atingir uma sofisticação que lhe permitiu,
em 2001, tomar Manhattan de assalto. O que se vê não é a “multiplicação
do terror” por efeito de sua atual repressão, mas
a continuação de suas operações depois
que uma vasta estrutura foi montada na clandestinidade, favorecida
pela tolerância do Ocidente – inclusive no que diz
respeito à imigração de islamitas para os
EUA, a Europa e a América Latina.
Na visão dos intelectuais que se imaginam de esquerda e
que vêem coisas “positivas” na ditadura sangrenta
de Saddam Hussein, porque no fundo não acreditam na existência
de uma vasta rede de terror operando em todo o mundo, a Espanha
estaria agora “pagando o preço” de seu apoio à “guerra
ilegal e unilateral” dos EUA no Iraque. Para eles, as intervenções
americanas no Afeganistão e no Iraque teriam multiplicado
por mil os grupos islâmicos fanáticos e seus atentados
terroristas, quando, na verdade, foi o 11/9 a maior de todas as
operações terroristas empreendidas até então,
constituindo-se num inegável ato de guerra em território
americano que justificou plenamente sua reação militar
contra os países que abrigam e sustentam o terror. A idéia
de que também as vítimas do terror na Espanha o foram
por sua própria culpa foi expressa por Arnaldo Jabor num
de seus comentários à Rádio CBN: para esse
ex-cineasta, Bush e seus aliados não podem nem devem combater
o terrorismo, pois os fanáticos islâmicos não
são inimigos políticos, mas “insanos”,
cujas ações homicidas devem ser encaradas como “catástrofes
naturais inevitáveis”. Seria o mesmo que dizer, para
justificar a inação diante do nazismo, que Hitler
e seus seguidores eram “insanos” e que suas agressões
aos países vizinhos e o extermínio dos judeus da
Europa não poderiam nem deveriam ser impedidos na condição
de “catástrofes naturais inevitáveis”.
Assim os intelectuais que se imaginam de esquerda continuam a apaziguar
suas consciências, evitando engajar-se intelectualmente na
luta contra os terroristas islâmicos que pretendem – a
partir de Israel – destruir o estilo de vida ocidental, pelo ódio
sagrado que votam à liberdade. Pois não é o
desespero, a miséria, a humilhação ou a violência
de Estado que produz e move um terrorista: é pura e simplesmente
um ideário.
E é no campo das idéias que o Ocidente está perdendo
a guerra contra o terror: a massa dos intelectuais continua a sustentar
o terrorismo pela defesa de um ideário que só o favorece:
pela percepção distorcida de que Israel é culpado,
de que o Ocidente é culpado, de que as vítimas são
culpadas. Enquanto essa percepção distorcida for
mantida pelos intelectuais que se imaginam de esquerda o terror
permanecerá ganhando pontos em sua guerra contra a liberdade.
* Luiz Nazario é escritor e professor de
cinema da Universidade Federal de Minas Gerais.