Visão Judaica - Edição N° 23
:. Visões distorcidas sobre terrorismo .:


Por: Luiz Nazario*

No dia 13/3/2004, no Programa de Entrevistas do jornalista William Waack no canal a cabo GloboNews, o cientista político Hélio Jaguaribe fez uma distinção sutil entre os atentados cometidos em Nova York e Madri, produzidos por “grupos de fanáticos islâmicos” e outros atentados cometidos hoje no mundo, e que constituiriam uma “reação à intolerância difusa” e à “humilhação de comunidades”. Leia-se: a explosão de civis americanos e europeus constituiria terrorismo e os grupos que os praticam deveriam ser combatidos e eliminados (embora esse combate, levado a cabo por Bush seja, segundo Jaguaribe e toda a opinião corrente, “um fracasso”); já a explosão de civis israelenses não constituiria terrorismo, configurando-se como “outra coisa”, provavelmente um ato legítimo de “resistência ao terror de Estado”, fruto da “humilhação e desespero de comunidades vítimas de intolerância”, um terrorismo-não-terrorista-e-antiterrorismo que deveria ser, portanto, sustentado (considerando, por exemplo, o muro de proteção erguido por Sharon um novo “muro de Berlim”, “muro da Vergonha”, “muro do Gueto de Varsóvia” e assim por diante).
Segundo outros especialistas em política internacional, entrevistados no mesmo programa, Bush teria “destampado” o terror com sua guerra ao Iraque. Os cientistas afirmaram – e Jaguaribe de modo enfático – que a ditadura de Saddam Hussein era positiva: “ocidentalizado e modernizador”, seu regime funcionaria como panela de pressão, cozinhando em fogo lento os grupos fanáticos que, agora, destampados por Bush, desencadeiam atentados terroristas. Sem destacar o fato de que os terroristas suicidas que hoje agem no Iraque defendem o retorno da ditadura de Saddam Hussein, vitimando tanto os americanos quanto os xiitas, fanáticos que estavam reprimidos, mas que não parecem integrar as fileiras do terror que atua hoje no Iraque, esses cientistas políticos não percebem que, se o terrorismo islâmico hoje domina o mundo, é justamente por ter sido, até 11/9, desprezado pelo Ocidente. Como antes de 11/9 o terror não foi efetivamente combatido pelas potências ocidentais, pode ele, depois de exercitar-se durante anos em Israel com a indiferença do mundo (indiferença que é reafirmada a cada dia), atingir uma sofisticação que lhe permitiu, em 2001, tomar Manhattan de assalto. O que se vê não é a “multiplicação do terror” por efeito de sua atual repressão, mas a continuação de suas operações depois que uma vasta estrutura foi montada na clandestinidade, favorecida pela tolerância do Ocidente – inclusive no que diz respeito à imigração de islamitas para os EUA, a Europa e a América Latina.
Na visão dos intelectuais que se imaginam de esquerda e que vêem coisas “positivas” na ditadura sangrenta de Saddam Hussein, porque no fundo não acreditam na existência de uma vasta rede de terror operando em todo o mundo, a Espanha estaria agora “pagando o preço” de seu apoio à “guerra ilegal e unilateral” dos EUA no Iraque. Para eles, as intervenções americanas no Afeganistão e no Iraque teriam multiplicado por mil os grupos islâmicos fanáticos e seus atentados terroristas, quando, na verdade, foi o 11/9 a maior de todas as operações terroristas empreendidas até então, constituindo-se num inegável ato de guerra em território americano que justificou plenamente sua reação militar contra os países que abrigam e sustentam o terror. A idéia de que também as vítimas do terror na Espanha o foram por sua própria culpa foi expressa por Arnaldo Jabor num de seus comentários à Rádio CBN: para esse ex-cineasta, Bush e seus aliados não podem nem devem combater o terrorismo, pois os fanáticos islâmicos não são inimigos políticos, mas “insanos”, cujas ações homicidas devem ser encaradas como “catástrofes naturais inevitáveis”. Seria o mesmo que dizer, para justificar a inação diante do nazismo, que Hitler e seus seguidores eram “insanos” e que suas agressões aos países vizinhos e o extermínio dos judeus da Europa não poderiam nem deveriam ser impedidos na condição de “catástrofes naturais inevitáveis”. Assim os intelectuais que se imaginam de esquerda continuam a apaziguar suas consciências, evitando engajar-se intelectualmente na luta contra os terroristas islâmicos que pretendem – a partir de Israel – destruir o estilo de vida ocidental, pelo ódio sagrado que votam à liberdade. Pois não é o desespero, a miséria, a humilhação ou a violência de Estado que produz e move um terrorista: é pura e simplesmente um ideário.
E é no campo das idéias que o Ocidente está perdendo a guerra contra o terror: a massa dos intelectuais continua a sustentar o terrorismo pela defesa de um ideário que só o favorece: pela percepção distorcida de que Israel é culpado, de que o Ocidente é culpado, de que as vítimas são culpadas. Enquanto essa percepção distorcida for mantida pelos intelectuais que se imaginam de esquerda o terror permanecerá ganhando pontos em sua guerra contra a liberdade.

* Luiz Nazario é escritor e professor de cinema da Universidade Federal de Minas Gerais.

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