Visão Judaica - Edição N° 23
: .Utilizando a razão - Maimônides o grande nacionalista judeu da Idade Média .:

Por: Edda Bergmann *

O judaísmo não exalta o nacionalismo, mas não menospreza a capacidade de pensar do Homem.
Os heróis bíblicos não são filósofos, mas sim profetas e a tradição rabínica é mais mística do que metafísica.
Tanto a Bíblia quanto o Talmud preocupam-se com a possibilidade do homem viver com valores morais intrínsecos.
Embora este tenha permanecido como o principal foco da intelectualidade judaica, o esforço especulativo do Homem sempre ocupou lugar de destaque no judaísmo. O primeiro pedido expresso no serviço religioso cotidiano judaico, diz respeito ao conhecimento, uma tradição filosófica inexplícita que se tornou forte entre os judeus na Idade Média.
Nesta base literária o valor mais forte é elemento elevado e atribuído ao papel da razão na vida religiosa judaica.
Entre os nacionalistas judeus da Idade Média salientou-se Moisés Maimônides, conhecido pelas iniciais do seu nome hebraico com Rambam (1135-1204). Nasceu em Córdoba na Espanha, onde passou a sua juventude, estudou intensamente sob a tutela de seu pai, erudito famoso.
Quando a vida judaica se tornou extremamente perigosa, a família Maimon deixou a Espanha e após passar alguns anos no Norte da África, visitou a Terra Santa e se estabeleceu finalmente no Cairo.
Ali Maimônides tornou-se um dos proeminentes médicos do país, servindo ao sultão como profissional do harém real. Foi simultaneamente chefe espiritual da comunidade judaica do Egito e era considerado a mais importante autoridade religiosa do mundo judaico da época.
Brilhante jurista foi ele o primeiro estudioso a codificar o vasto corpo da Lei Judaica que se acumulara nos quase mil anos decorridos desde a compilação da Mishná.
Ao mesmo tempo, Maimônides achava-se completamente à vontade no mundo intelectual grego-árabe de seu tempo, um mundo de ciências e filosofias aristotélicas.
Reconheceu e percebeu que muitos judeus não estavam seguros de sua fé, em virtude do caráter aparentemente irracional de alguns ensinamentos judaicos.
A tentativa de Maimônides para reconciliar o judaísmo e a nova ciência resultou no “Moreth Nevuchim”, (Guia dos Perplexos), obra clássica da filosofia judaica medieval.
O “Moreth Nevuchim” é uma expressão ardente da fé que o autor nutria pela razão.
Maimônides reconhecia as limitações das faculdades racionais do homem e indicava existir um campo importante além da razão, afirmando igualmente ser a capacidade de pensar do homem o mais importante dos elos que o une a D-us.
Ele ousou classificar a razão como a mais elevada expressão do divino na natureza humana.
Assim, o “Guia dos Perplexos”, expressando sua fé na razão, é a formulação clássica que tem o judeu de usar o intelecto.
Embora não totalmente aceito por seus próprios contemporâneos, sofrendo mesmo evidente oposição de alguns, Maimônides tem sido estudado e discutido pelos judeus de todas as gerações que a ele se sucederam.
Este ano é considerado o ano de Maimônides, este grande sábio da Idade Média e não apenas os estudiosos irão se aprofundar em seus escritos, discuti-los e procurar entendê-los e assimilá-los.
Trata-se, sem dúvida, de um grande nome do judaísmo em cujos escritos a fé e a razão se espelham em complementar maravilhosamente para o homem moderno um caminho de vida.
Os rabinos Shlomo Amar e Ioná Metzger acabaram de salientar ao Papa no Vaticano, o empréstimo dos manuscritos de Maimônides que estão em poder do Vaticano para serem expostos em Jerusalém para o ano dedicado especialmente ao estudo e ao conhecimento deste importantíssimo pilar do pensamento judaico medieval e de todos os tempos.
Quem não está perplexo neste mundo? Todos nós estamos, e um guia todo especial talvez venha nos ajudar a compreender a nós mesmos e talvez aos outros também.
Vamos ler e estudar Maimônides e procurar entender.
Senão agora? Então quando?

* Edda Bergmann é vice-presidente internacional da B’nai Brith. O presente artigo foi
publicado na Revista Shalom nº 307.

 

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