Visão Judaica - Edição N° 23
:. Palestina e suas falsas verdades.:


Por: Pilar Rahola *

Com um dia de diferença pude ler em El Pais dois textos antagônicos sobre o conflito árabe-israelense, um artigo de Joan B. Culla e uma carta de Faisal Khabd Abdel-Hadi. Sem entrar na polêmica que alimentou o dito encontro — encontrão, eu diria —, parece–me pertinente formular algumas questões que nunca existem no debate, especialmente se formuladas desde posições acríticas pró-palestinas.
Como assinalava Joan B. Culla, parte do problema do Oriente Médio tem a ver com a distorção da informação, e também com um maniqueísmo que está nos levando, entre outros desastres, à corrente do anti-semitismo mais importante na Europa desde a escuridão do nazismo. Para dar um dado nada alentador, nestes quase três anos de Intifada têm havido mais agressões contra sinagogas na Europa que em toda a Noite dos Cristais (Kristallnacht). No mesmo dia dos atentados contra Neve Shalom e Beth Israel, duas sinagogas de Istambul, onde morreram dezenas de pessoas, ardia una escola judaica num bairro de Paris. O jornal Financial Times lançou uma acusação contra a União Européia porque esta se negou a publicar o informe de 112 páginas que o European Monitoring Centre of Racism and Xenophobia (EUMC) elaborou em 2001, onde ficava patente a responsabilidade de grupos islâmicos nesta tempestade anti-semita. O senador norte-americano Robert Wexler enviou uma carta a Javier Solana, em julho, pedindo a publicação do informe. O informe não foi publicado. Apresento estes dados não só porque são pertinentes, mas por dois fatos relevantes:
Um, a responsabilidade da Europa, tanto passiva como ativa, no novo anti-semitismo que a percorre; outro, porque enfoca uma questão de fundo: a negação da autocrítica por parte dos coletivos islâmicos pró-palestinos e sua demonização permanente de tudo o que tem a ver com o mundo judeu. Mais além da crítica a Sharon, o que pulsa nas ONGs muçulmanas, nos editoriais dos diários do Cairo ou Damasco, nas arengas das mesquitas de Teerã e nos livros de texto do Ministério da Educação palestina é um renovado, facistóide e agressivo anti-semitismo.
Não é uma casualidade que um ex-líder da Ku Klux Klan (como se explicou em um congresso na Unesco) tenha percorrido o Qatar e os Emirados explicando a bondade dos Protocolos dos Sábios de Sião, o livro base que fundamentou o Mein Kampf de Hitler. Até o jornalista Robert Fisk denunciou a questão em algum artigo.
A primeira coisa que denuncio, pois, é que muitos dos textos críticos a Israel não partem de um planejamento democrático, mas de um furibundo preconceito anti-semita. O dia que quiserem, ilustro-os com belos exemplos, mas cabe recordar o último de Saramago — "o povo judeu não merece compaixão pelos sofrimentos que passou” — ou a frase de Theodorakis — “este pequeno povo, o judeu, é o berço da maldade". E pensar que nos enamoramos do Memorial do convento e de Zorba o grego...! Se lhes trago a comparação crítica da literatura anti-semita que hoje percorre o corpo educativo de praticamente a totalidade do mundo islâmico, ficarão impressionados.
Este é, pois, o primeiro: o anti-semitismo não é uma piada, ressurgiu com um ímpeto voraz, e a Europa é responsável pela despreocupação — e pela distorção da verdade — e o mundo islâmico não tem cumprido seus deveres com a democracia, porque seu discurso não é de uma base tolerante. O que não significa que não haja intelectuais, como Sami Nair, que expressem sua preocupação com a questão.
O segundo, a absoluta negação da autocrítica dos palestinos, encantados em demonizar Sharon e Israel, bode expiatório de todos seus problemas, mas incapazes de reconhecer as muitas responsabilidades que existem no lado árabe. Por exemplo, a fome dos palestinos, dado real. Se antes desta Intifada os cidadãos palestinos tinham o padrão econômico mais alto do mundo árabe, hoje estão equiparados com o do Yemen. Vocês conhecem as cifras? O Banco Mundial tem dado o dobro por habitante à Autoridade Nacional Palestina do que recebeu a Europa com o Plano Marshall; a União Européia deu 330 milhões de euros para o sistema educativo palestino (que ensina a odiar os judeus); os informes de corrupção falam de uma fortuna de Arafat que ultrapassa o bilhão de dólares, com importantes investimentos inclusive na fábrica de Coca-Cola em Ramallah; Onde estão os 50 milhões de dólares que Saddam deu a Arafat pelo apoio na Guerra do Golfo? Onde está a herança econômica da Organização para a Libertação da Palestina, com suas nutridas doações da KGB e dos sauditas? E podemos perguntar, além de alimentar os grupos terroristas, qual é a contribuição dos petrodólares ao bem-estar dos palestinos? E ainda assim, se passa fome ... Ou procura-se a fome para usá-la?
Também podemos falar da paz e Arafat. Rabin, em 1993 com os acordos de Oslo — que assinou porque lhe haviam prometido a paz —; Netaniahu, com os acordos de Hebron; Barak, em Camp David em 2000, aonde se ofereceu inclusive a divisão de Jerusalém. E, no en tanto, Arafat respondeu com uma segunda Intifada que carrega milhares de mortos. Sempre disse não à paz, mas nunca tem culpa...
Falemos do muro? Só três dados. Um suicida leva menos tempo para ir a pé de Kalkiliya a Kfar Saba do que vocês levam para ler o jornal. Entraram 127 terroristas em Israel a partir da Margem Ocidental matando mais de 500 pessoas. A barreira que existe em Gaza desde 2001 conseguiu que não passasse nem um terrorista e permite que os milhares de trabalhadores palestinos da zona industrial de Erez tivessem maior segurança. Isto também faz parte da informação. Mas isso é lido com que freqüência?
Não se trata de não criticar Sharon ou a política de Israel. Se trata de cumprir dois princípios morais da verdade. Um, que a verdade é um espelho quebrado e Israel também tem muitos fragmentos. Outro, que a verdade não serve para o maniqueísmo, a demonização ou a intolerancia. Por mais que se tente, não serve à causa palestina com a mentira.

* Pilar Rahola é jornalista espanhola, estudou Filología Hispânica e Catalã, dirigiu a editorial Pòrtic e trabalhou colaborando com diversos meios de comunicação como TV3 e Rádio Catalunya. Em 1993 obteve um assento no Congresso dos Deputados por um partido de esquerda, e em 1995 foi eleita conselheira (vereadora) de Barcelona e vice-prefeita para as áreas de comércio, consumo e turismo. Foi também membro do Parlamento Europeu. Tem várias novelas publicadas e diversas traduções, entre seus livros, "Mulher liberada, homem furioso", "Carta a meu filho adotado" e "História de fadas".

 


Voltar