Por: Paul Marshall*
O "mapa de estrada" (roadmap) do Oriente Médio
está sendo rasgado para a angústia de
Washington e do mundo. Mas as conversações de paz
de Machakos, para que se acabe com a guerra civil no Sudão
também estão confusas, e elas tratam de uma guerra
civil que ceifou 2 milhões de vidas nos últimos 15
anos. A resposta para isto em Washington e do resto do mundo é o
silêncio. Esta é a continuidade de um padrão
no qual o conflito palestino-israelense, que apesar do seu total
de mortos e feridos não estar no topo 10 dos conflitos atuais
do mundo, recebe mais atenção internacional do que
todos os outros juntos.
Um alto funcionário da delegação da Autoridade
Palestina em Washington, neste verão, recomendou a intervenção
norte-americana na Libéria, mas acrescentou que o assunto
era secundário comparado à causa palestina. [Mas]
mais liberianos do que palestinos foram mortos na última
década, enquanto vários milhões morreram no
Congo. O Grupo Islâmico Armado na Argélia assassinou
mais de 100 mil muçulmanos na década passada. Na
Chechênia, outras 100.000 pessoas, um décimo da população,
foram assassinadas. No Afeganistão, o Talibã e os
aliados da Al Qaeda mataram milhares de shias.
Na Mauritânia, dezenas de milhares de muçulmanos são
escravos. Outras dezenas de milhares mais morreram no conflito
da Cachemira e na Libéria, Costa de Marfim, e Serra Leoa.
Milhares mais morreram na Nigéria e Indonésia. A
junta birmanesa colocou para fora mais de um quarto de milhão
de seus muçulmanos de Rohingya e na Índia, ano passado,
cerca de 2.000 muçulmanos foram mortos em Gujarat. Ainda
assim, estes acontecimentos são omitidos em silêncio.
Enquanto isso, os perpetradores de muitas destas atrocidades sentam-se à ONU,
condenando o que acontece na Margem Ocidental.
Também é fácil de discernir a manipulação
cínica da questão [palestino-israelense] pelos estados
autoritários [que o utilizam para] desviar a atenção
de suas próprias políticas repressivas. Mas por que
este conflito atrai multidões de ativistas que fazem dele
a questão categórica do Oriente Médio e até mesmo
da política mundial? Por que a pletora de conferências,
comitês, demonstrações, boicotes e campanhas
num nível que minimiza qualquer ação de protesto
contra o sofrimento em escala maior? Talvez parte da resposta seja
o anti-semitismo, talvez anti-americanismo. Mas, qualquer que seja
a razão, não pode ser uma preocupação
primária para os direitos humanos.
A colocação da questão Israel-Palestina acima
de todas as outras tem vários efeitos danosos. Uma é de
que aumenta a vituperação contra Israel. Também
eleva as expectativas entre os palestinos e que são improváveis
de acontecer. Finalmente, contribui para silenciar e a evasão
sobre a opressão de outros muçulmanos, como também
de outros povos no mundo. O efeito líquido é que
tanto Israel como o mundo muçulmano sofrem mais.
* Paul Marshall é membro sênior da Casa da Liberdade
do Centro para a Liberdade Religiosa. Este artigo foi publicado
no jornal "The Boston Globe" em 13 de outubro de 2003.