Visão Judaica - Edição N° 23
:. O Cristo que Mel não quis mostrar .:


Por: Jamil Salloum Jr.

O filme "A Paixão de Cristo" tem gerado polêmica e isso nos obriga a abordar o tema sob uma perspectiva mais ampla.
Antes, lembremos que a sabedoria está no caminho do meio, como Buddha e Pitágoras recomendavam. O "caminho do meio termo reto justo e bom" servirá, pois, de baliza para esta outra análise.
Deixar-se levar, na morte de Jesus, pelas paixões e preconceitos pessoais é prova de atitude irracional e anticientífica. Antes de tudo, saibamos separar o filme enquanto obra cinematográfica do filme enquanto mensagem ideológica.
O filme como obra cinematográfica é excelente, magistralmente dirigido, com uma reconstituição cênico-histórica apurada e interpretações dignas de premiação, sabendo arrancar emoções do público em momentos certos, quando imagens chocantes são complementadas com uma bela trilha sonora. Mas há excesso de violência...
Agora vejamos o filme enquanto mensagem ideológica. É aqui que Mel Gibson derrapa feio, colocando em toda a obra subtextos os quais só enxerga quem estudou cinema ou comunicação sob o enfoque semiótico. Antes de considerarmos isso, vejamos quem dirigiu a obra. Gibson é conhecido nos EUA por pertencer a um movimento católico ultra-radical que é contrário às reformas implementadas pelo Concílio Vaticano II. Esse Concílio absolveu os judeus de qualquer culpa quanto à morte de Jesus. E é bom lembrar que João Paulo II descreveu este Concílio como "uma dádiva do Espírito à Igreja". No entanto, Gibson e seu pai Hutton (mais fanático do que o filho e assumidamente antijudeu), já se referiram ao atual Papa como "canalha" e "traidor". Aliás, nossa informação de que o Papa teria aprovado o filme é incorreta. Essa informação foi divulgada por ninguém menos que Mel Gibson (!), mas desmentida esta semana pelo Vaticano.
Vejamos alguns signos semióticos no filme: os romanos são retratados como nada responsáveis pela crucificação; são mostrados vários soldados se arrependendo e chorando. Os judeus, pelo contrário, são filmados como uma turba irracional e violenta. Gibson absolve os romanos e chega ao cúmulo de considerar Pilatos — um carniceiro — como um nobre ponderado e justo. Gibson enfoca a humilhação de Jesus quase que só por judeus — praticamente toda Jerusalém! —enquanto, como dissemos, mostra inúmeros romanos arrependidos e aceitando Cristo. Parece que Mel se esqueceu que Jesus chegou a ser chamado de "Rei dos Judeus" e que tocou milhares deles, que viram nele uma nova esperança.
Já Barrabás, que era um preso político, é retratado como um psicopata nojento e repulsivo, preferido por TODOS os judeus ao invés de Jesus. E Satanás (o Diabo) é sempre mostrado andando EM MEIO AOS JUDEUS. A mensagem é clara: de acordo com a lente fanática de Gibson, a satanizacão do povo judeu em contraste com a absolvição dos romanos. Que mais signos delatores temos? Jesus é mostrado ainda, no início da fita, sob um halo azul enquanto que os sacerdotes judeus são filmados numa atmosfera avermelhada, infernal, dentro do Sinédrio (e isso se repete ao longo do filme).
Assim, Mel Gibson produz uma obra parcial, de interpretação pessoal, ainda que excelentemente produzida. E o que é mais grave: Gibson quis se concentrar no COMO Jesus morreu e não no PORQUÊ de sua morte, o que seria infinitamente mais importante. Esse foi outro grande pecado. De torturas o mundo está cheio. Por fim, condenar todos os judeus pelos erros do Sinédrio (mancomunado com Roma) é o mesmo que condenar todos os árabes pelos atos da Al Qaeda, todos os espanhóis pelas ações do ETA e todos os alemães pelas loucuras de Hitler. Não faz sentido. O filme é, sim, antijudeu. E aí mora o perigo. Jesus pregou o amor incondicional a todos os seres. Um filme que instiga o ódio a uma raça específica pode ser tudo, menos cristão...

* Jamil Salloum Jr. é jornalista e especialista em Comunicação e Cultura, escreve para o jornal Diário dos Campos, de Ponta
Grossa, às sextas e sábados, onde publicou este artigo, e é Coordenador Adjunto da Pós-Graduação em Comunicação e Cultura do UnicenP.


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