Por: Jamil Salloum
Jr.
O filme "A Paixão de Cristo" tem gerado polêmica
e isso nos obriga a abordar o tema sob uma perspectiva mais ampla.
Antes, lembremos que a sabedoria está no caminho do meio,
como Buddha e Pitágoras recomendavam. O "caminho
do meio termo reto justo e bom" servirá, pois, de
baliza para esta outra análise.
Deixar-se levar, na morte de Jesus, pelas paixões e preconceitos
pessoais é prova de atitude irracional e anticientífica.
Antes de tudo, saibamos separar o filme enquanto obra cinematográfica
do filme enquanto mensagem ideológica.
O filme como obra cinematográfica é excelente,
magistralmente dirigido, com uma reconstituição
cênico-histórica apurada e interpretações
dignas de premiação, sabendo arrancar emoções
do público em momentos certos, quando imagens chocantes
são complementadas com uma bela trilha sonora. Mas há excesso
de violência...
Agora vejamos o filme enquanto mensagem ideológica. É aqui
que Mel Gibson derrapa feio, colocando em toda a obra subtextos
os quais só enxerga quem estudou cinema ou comunicação
sob o enfoque semiótico. Antes de considerarmos isso,
vejamos quem dirigiu a obra. Gibson é conhecido nos EUA
por pertencer a um movimento católico ultra-radical que é contrário às
reformas implementadas pelo Concílio Vaticano II. Esse
Concílio absolveu os judeus de qualquer culpa quanto à morte
de Jesus. E é bom lembrar que João Paulo II descreveu
este Concílio como "uma dádiva do Espírito à Igreja".
No entanto, Gibson e seu pai Hutton (mais fanático do
que o filho e assumidamente antijudeu), já se referiram
ao atual Papa como "canalha" e "traidor".
Aliás, nossa informação de que o Papa teria
aprovado o filme é incorreta. Essa informação
foi divulgada por ninguém menos que Mel Gibson (!), mas
desmentida esta semana pelo Vaticano.
Vejamos alguns signos semióticos no filme: os romanos
são retratados como nada responsáveis pela crucificação;
são mostrados vários soldados se arrependendo e
chorando. Os judeus, pelo contrário, são filmados
como uma turba irracional e violenta. Gibson absolve os romanos
e chega ao cúmulo de considerar Pilatos — um carniceiro — como
um nobre ponderado e justo. Gibson enfoca a humilhação
de Jesus quase que só por judeus — praticamente
toda Jerusalém! —enquanto, como dissemos, mostra
inúmeros romanos arrependidos e aceitando Cristo. Parece
que Mel se esqueceu que Jesus chegou a ser chamado de "Rei
dos Judeus" e que tocou milhares deles, que viram nele uma
nova esperança.
Já Barrabás, que era um preso político, é retratado
como um psicopata nojento e repulsivo, preferido por TODOS os
judeus ao invés de Jesus. E Satanás (o Diabo) é sempre
mostrado andando EM MEIO AOS JUDEUS. A mensagem é clara:
de acordo com a lente fanática de Gibson, a satanizacão
do povo judeu em contraste com a absolvição dos
romanos. Que mais signos delatores temos? Jesus é mostrado
ainda, no início da fita, sob um halo azul enquanto que
os sacerdotes judeus são filmados numa atmosfera avermelhada,
infernal, dentro do Sinédrio (e isso se repete ao longo
do filme).
Assim, Mel Gibson produz uma obra parcial, de interpretação
pessoal, ainda que excelentemente produzida. E o que é mais
grave: Gibson quis se concentrar no COMO Jesus morreu e não
no PORQUÊ de sua morte, o que seria infinitamente mais
importante. Esse foi outro grande pecado. De torturas o mundo
está cheio. Por fim, condenar todos os judeus pelos erros
do Sinédrio (mancomunado com Roma) é o mesmo que
condenar todos os árabes pelos atos da Al Qaeda, todos
os espanhóis pelas ações do ETA e todos
os alemães pelas loucuras de Hitler. Não faz sentido.
O filme é, sim, antijudeu. E aí mora o perigo.
Jesus pregou o amor incondicional a todos os seres. Um filme
que instiga o ódio a uma raça específica
pode ser tudo, menos cristão...
* Jamil Salloum Jr. é jornalista e especialista em Comunicação
e Cultura, escreve para o jornal Diário dos Campos, de
Ponta Grossa, às sextas e sábados, onde publicou
este artigo, e é Coordenador Adjunto da Pós-Graduação
em Comunicação e Cultura do UnicenP.