Por: Ari Zugman *
Na edição passada do excelente Visão Judaica,
em seu artigo “Revisitando o Shtetl”, meu amigo Sérgio
Feldman, com grande sensibilidade, destaca alguns belos trechos
do conto Kasrilevke, de Sholem Aleichem: “Ganhar para o sábado – eis
o ideal desta gente. A semana inteira eles trabalham, mourejam
a duras penas, se arrebentam de labutar, comem o pão que
o diabo amassou, bebem água dos infernos, contanto que garantam
o sábado.”
Eu também. Eu e milhões de outros judeus em Curitiba,
São Paulo, no Rio, em Belém do Pará, Nova
Iorque, em Jerusalém, em Hong Kong e no mundo todo.
Trabalhamos a semana inteira, mourejamos a duras penas, arrebentamo-nos
de labutar, comemos o pão que o diabo amassou, bebemos água
dos infernos, tudo para garantir o shabat.
Não é necessário ser miserável para
sofrer com a dureza da labuta diária, viver as angústias
da competição profissional. Para garantir a parnusse
(sustento), todos nós, professores, profissionais liberais,
empresários pequenos ou grandes comemos um pão nem
sempre amassado pelos anjos. Além disto somos bombardeados
por uma mídia impiedosa e onipresente. Televisão,
internet, celular, pagers. Não há descanso. A palavra
da moda é estresse. Mas vale a pena. Tudo para garantir
o sábado. Aqui, hoje, tal qual os judeus de Kasrilevke no
século XIX.
Quando entra a rainha shabat, estamos em casa, banho tomado, melhores
roupas. Da cozinha vem o aroma delicioso. Velas acesas, filhos
em casa. Talvez a visita de algum parente ou amigo. Televisão,
celular, computador, tudo desligado.Incrível, desconectamo-nos
por vinte e cinco horas e o mundo não acaba.
Fazemos kidush, Tomamos vinho. Com um pouco de bênção
podemos chegar a sentir a shechiná (espírito divino).
Conversamos. É shabat, Valeu a pena a correria.
Quando acordamos sábado pela manhã, não temos
pressa, sentimos preguiça. Não temos que fazer nada.
Não temos que ver o noticiário na televisão,
não temos que ler os jornais, não temos que verificar
se chegou algum e-mail, não temos que terminar algo inacabado
da sexta-feira. Não temos compromisso, não temos...
Se podemos, vamos à sinagoga ouvir a leitura da Torá.
Comemos uma refeição festiva preparada na véspera.
Lentamente. Tomamos vinho, cantamos, descansamos. Dormimos, descansamos.
Lemos algo que nos preenche o espírito, algum salmo, um
trecho da Torá, palavras de um sábio. Conversamos.
Quando o shabat acaba, sábado a noite, cheiramos os bessamim
(especiarias). Tentamos nos consolar.
Enfim, não creio que seja muito diferente do que faziam
os judeus de Kasrilevke. Talvez até sintamos coisas bastante
semelhantes.
Caro Sérgio, não é necessária tanta
nostalgia, tanta saudade. Kasrilevke não acabou. Está aqui,
ao teu alcance. Dentro de você e de cada judeu.
P.S.: Se nos juntarmos tal qual arenques num barril, fica mais
fácil de nos encontrarmos.
* Ari Zugman é engenheiro civil e empresário
em Curitiba.