Visão Judaica - Edição N° 23
:. Kasrilevke é aqui.:


Por: Ari Zugman *

Na edição passada do excelente Visão Judaica, em seu artigo “Revisitando o Shtetl”, meu amigo Sérgio Feldman, com grande sensibilidade, destaca alguns belos trechos do conto Kasrilevke, de Sholem Aleichem: “Ganhar para o sábado – eis o ideal desta gente. A semana inteira eles trabalham, mourejam a duras penas, se arrebentam de labutar, comem o pão que o diabo amassou, bebem água dos infernos, contanto que garantam o sábado.”
Eu também. Eu e milhões de outros judeus em Curitiba, São Paulo, no Rio, em Belém do Pará, Nova Iorque, em Jerusalém, em Hong Kong e no mundo todo.
Trabalhamos a semana inteira, mourejamos a duras penas, arrebentamo-nos de labutar, comemos o pão que o diabo amassou, bebemos água dos infernos, tudo para garantir o shabat.
Não é necessário ser miserável para sofrer com a dureza da labuta diária, viver as angústias da competição profissional. Para garantir a parnusse (sustento), todos nós, professores, profissionais liberais, empresários pequenos ou grandes comemos um pão nem sempre amassado pelos anjos. Além disto somos bombardeados por uma mídia impiedosa e onipresente. Televisão, internet, celular, pagers. Não há descanso. A palavra da moda é estresse. Mas vale a pena. Tudo para garantir o sábado. Aqui, hoje, tal qual os judeus de Kasrilevke no século XIX.
Quando entra a rainha shabat, estamos em casa, banho tomado, melhores roupas. Da cozinha vem o aroma delicioso. Velas acesas, filhos em casa. Talvez a visita de algum parente ou amigo. Televisão, celular, computador, tudo desligado.Incrível, desconectamo-nos por vinte e cinco horas e o mundo não acaba.
Fazemos kidush, Tomamos vinho. Com um pouco de bênção podemos chegar a sentir a shechiná (espírito divino). Conversamos. É shabat, Valeu a pena a correria.
Quando acordamos sábado pela manhã, não temos pressa, sentimos preguiça. Não temos que fazer nada. Não temos que ver o noticiário na televisão, não temos que ler os jornais, não temos que verificar se chegou algum e-mail, não temos que terminar algo inacabado da sexta-feira. Não temos compromisso, não temos... Se podemos, vamos à sinagoga ouvir a leitura da Torá. Comemos uma refeição festiva preparada na véspera. Lentamente. Tomamos vinho, cantamos, descansamos. Dormimos, descansamos. Lemos algo que nos preenche o espírito, algum salmo, um trecho da Torá, palavras de um sábio. Conversamos.
Quando o shabat acaba, sábado a noite, cheiramos os bessamim (especiarias). Tentamos nos consolar.
Enfim, não creio que seja muito diferente do que faziam os judeus de Kasrilevke. Talvez até sintamos coisas bastante semelhantes.
Caro Sérgio, não é necessária tanta nostalgia, tanta saudade. Kasrilevke não acabou. Está aqui, ao teu alcance. Dentro de você e de cada judeu.
P.S.: Se nos juntarmos tal qual arenques num barril, fica mais fácil de nos encontrarmos.

* Ari Zugman é engenheiro civil e empresário em Curitiba.

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