Por: Alberto Dines *
O que preocupa não é o anti-semitismo de Mel Gibson, a questão é a
resignação, sobretudo da hierarquia católica, à sua
cruzada revisionista. Discutir “A Paixão de Cristo” apenas
sob o ângulo estético ou histórico minimiza a importância
do velho-novo estandarte teológico-político desfraldado com tanto
sucesso pelo ator-cineasta. O cinema, arte das massas e ferramenta das revoluções
no século XX, exige uma leitura essencialmente política. O lançamento
do filme para coincidir com a Quaresma, não esconde a intenção
de subverter a idéia da penitência para transformá-la em
militância.
Algumas comunidades judaicas da Diáspora sobressaltaram-se com a recuperação
da idéia do deicídio proposta por Gibson. Durante quase vinte
séculos, os “pérfidos judeus” foram segregados, perseguidos
e massacrados na condição de assassinos de Ioshua, o Nazareno,
da Casa de David. Guetos, pogroms, fogueiras e, sobretudo, a Inquisição
são as herdeiras diretas desta obsessão vingativa.
Apesar da humanização do Renascimento, a religião do rancor
imperou até o Iluminismo, fins do século XVIII. Quase 100 anos
depois, em 1870, quando a sociedade liberal era uma realidade e os judeus já eram
considerados cidadãos iguais, o jornalista alemão Wilhelm Marr
re-inventou o ódio coletivo, agora como justificativa para enfrentar
a “conspiração para dominar o mundo”. Estava criado
o anti-semitismo dito moderno, secular e “científico”, que
espraiou-se pela Alemanha, Áustria, França e Rússia e
do qual Adolf Hitler foi a expressão máxima.
Mel Gibson nada tem a ver com as idéias de Marr, exatamente por isso
afirma com tanta convicção que não é anti-semita.
Seus ardentes seguidores, mesmo nas altas esferas intelectuais, recusam com
toda a razão qualquer vinculação com o nazi-fascismo.
São apenas reacionários. E, como tal, pretendem recolocar a religião
no arsenal político e reabilitar a figura dos domini canis, os cães
do Senhor, que os dominicanos auto-atribuiam-se e graças à qual
tomaram conta da máquina do Santo Ofício para exterminar as heresias.
A linha Gibson é a versão marqueteira do fundamentalismo católico,
integrismo made in Hollywood. Seus líderes não tiveram a coragem
de resistir abertamente à pregação do papa João
XXIII e à tolerância produzida pelo Concílio Vaticano II
(1962-1965) mas agora, quase quatro décadas depois, sentem-se suficientemente
fortes para sepultá-las. Não insurgem-se contra a “Fidei
Depositum”, Depósito da Fé, a constituição
apostólica proclamada em 1992 cujo artigo 597 proíbe expressamente
que os judeus sejam coletivamente responsabilizados pela morte de Jesus. Simplesmente
o ignoram.
O furor islâmico, a degradação da sociedade moderna e o
crescimento exponencial das seitas evangélicas são, para os integristas
católicos, o verdadeiro perigo. Os judeus e ódio aos judeus mais
uma vez, são simples pretexto para acionar um fervor sem o qual seria
impossível arregimentar multidões. Também na Europa medieval
as pragas e pestes eram enfrentadas pela pregação exaltada contra
os assassinos do Senhor. Bodes-expiatórios ideais, culpados preferenciais
para todos os males, Hitler retomou o antigo delírio ao satanizar os
judeus como fomentadores do bolchevismo e, ao mesmo tempo, sustentáculo
do capitalismo.
Da mesma forma com que os integristas submeteram-se à disciplina e aceitaram
as mudanças conciliares, agora o mesmo monolitismo funciona na direção
contrária ao impor uma obediência quase cega ao evangelho de Mel
Gibson. Do Vaticano à CNBB, todos curvaram-se diante da veracidade duvidosa
de uma obra ficcional, escravizados pela magia das imagens, submissos aos ancestrais
preconceitos e novíssimos efeitos especiais. O Cardeal D. Cláudio
Hummes, arcebispo metropolitano de S.Paulo, teve a sensibilidade e a grandeza
para advertir que o filme de Gibson precisa ser visto à luz da conjuntura
mundial e através dos filtros da fé produzidos a partir do Concílio
Vaticano II.
Foi exceção. A maioria prostrou-se diante do cantochão
engendrado na velha T.F.P. e agora modernizado pelos entusiasmados militantes
da Opus Dei e, fora do Brasil, da Legião de Cristo. As duas poderosas
organizações internacionais, verdadeiras ordens leigas, estão
sendo velozmente transformadas em vanguardas para a reabilitação
do catolicismo que o concilio de 1962 tornou caduco.
Enquanto não se tornam majoritárias, aí estão os
judeus para serem apedrejados e os judas para serem malhados. Como ainda esperam
o Messias devem pagar pela teimosia. Mel Gibson tem muitos amigos judeus, usou
judeus no filme e promete outro sobre a revolta dos Macabeus contra a opressão
romana. Purgado dos ódios, segundo confessa, apenas pretendeu produzir
um eletrizante ato de fé. Não reparou que contribuiu decisivamente
para lembrar os Autos da Fé.
* Alberto Dines é jornalista, sua coluna do Jornal do Brasil é reproduzida
em dezenas de diários pelo Brasil, e é editor-responsável
pelo site Observatório da Imprensa (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/index.asp).
O presente artigo foi publicado na edição do dia 10/4/2004 do
Jornal do Brasil.