Por: David Blair e Ambrose Evans-Pritchard *
Yasser Arafat desviou 560 milhões de libras esterlinas do orçamento
da Autoridade Palestina para uma conta especial sob seu controle pessoal, de
acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A descoberta enfureceu
seus críticos palestinos e provocou a Comissão Européia,
uma generosa agência financiadora, a exigir explicações
do FMI a respeito de que fundos teriam sido desviados.
A administração caótica das finanças palestinas
por Arafat já tinha sido amplamente condenada no passado pelo FMI, como
resultado de acuradas investigações. O representante do FMI nas áreas
sob administração palestina, Karim Nashashibi, disse aos jornalistas
em Dubai que a auditoria descobrira "o desvio de algumas rendas do orçamento
para uma conta bancária especial controlada pelo Presidente Arafat".
Nashashibi disse que a soma envolvia £560 milhões, num período
de cinco anos, entre 1995 e 2000. A maior parte foi investida em 69 empresas
comerciais ligadas à Autoridade Palestina. Perguntado se poderia ter
havido mau uso desses fundos, Nashashibi disse: "Em qualquer sistema sempre
existe a possibilidade de algum mau uso. O que estamos tentando fazer é levantar
o nível de desvio e de transparência, para que o ocorrido não
se repita no futuro".
Hanam Ashrawi, membro do Conselho Legislativo Palestino, disse que a descoberta
só servia para desacreditar Arafat. "Não há nenhuma
coincidência quanto ao timing" disse ela, "é uma campanha
contra o Presidente e a Autoridade [Palestina]". Mas os oponentes palestinos
de Arafat acreditam que a corrupção está disseminada em
sua administração. Abdul Jawal Saleh, também membro Conselho,
disse: "No momento em que o povo palestino está passando fome e
as universidades estão falidas, ele desvia essas quantias enormes de
dinheiro". Segundo a Autoridade Palestina, o desvio de dinheiro veio à luz
em função das reformas financeiras e da rigorosa auditoria a
que foi submetida por doadores internacionais.
Salam Fayad, o novo ministro das Finanças, muito respeitado no exterior,
disse que o dinheiro provém dos impostos coletados por Israel e repassados
para a Autoridade Palestina. A União Européia interrompeu o financiamento
a Arafat desde dezembro. Um porta-voz disse que a Comissão estava em
estreito contato com o FMI. "Até onde sabemos, este dinheiro procede
de transferências de impostos de Israel para a Autoridade Palestina,
mas estamos tentando clarificar o assunto junto ao FMI. Nosso dinheiro nunca
foi incluído no orçamento".
Incluindo desde cassinos até companhias de cimento e de telefones da
Argélia, a Autoridade Palestina fez uma mistura tão confusa que
evitou o estudo mais acurado da conta bancária. A administração
caótica de Arafat se orgulha de ter investido 30% do total do Cassino
de Jericó. O monopólio estatal do suprimento de petróleo
cru, cimento e tabaco nas áreas sob administração palestina
permitem um fluxo constante de impostos. A administração pode
ter um orçamento de apenas £750 milhões neste ano, mas
emprega 120.000 pessoas e tem dificuldade de responder pelas modestas somas à sua
disposição.
Arafat poderá levantar somente £130 milhões de seus próprios
recursos, pois seu orçamento depende de doações internacionais
e de impostos transferidos de Israel.
Ele sempre considerou o controle pessoal de fundos públicos algo crucial
para a sua manutenção do poder.
* David Blair e Ambrose Evans-Pritchard
são jornalistas correspondentes
do jornal londrino Daily Telegraph, respectivamente em Jerusalém e em
Bruxelas. Publicado no Daily Telegraph em 25 de setembro de 2003 e no site
Mídia Sem Máscara em 29 de setembro de 2003. Tradução:
Heitor De Paola