Visão Judaica - Edição N° 23
:. Anti-semitismo no Séc XXI .:

 

Por: Max Golgher *

No século passado, os totalitários Adolf Hitler e Joseph Stalin suprimiram pelo uso político da repressão e da propaganda a faculdade critica da mente de milhões e milhões de seres humanos, simplificando o pensamento, impedindo-os de pensar por conta própria. Reduziu-os a uma massa de robôs não-pensantes, cujo ideal tornou-se o da obediência absoluta ao chefe. Simplificação ou redução do pensamento foi o fenômeno do totalitarismo que levou a ascensão do nazismo e comunismo com o descrédito das democracias liberais. Causou a maior catástrofe da história humana, a 2ª Guerra Mundial, somando mais de 50 milhões de pessoas mortas e feridas. No que tange à comunidade judaica da Europa, dos nove milhões de pessoas existentes antes do conflito, seis milhões foi chacinadas pelo simples motivo de terem nascidas judias. A simplificação do pensamento não é apenas uma cegueira sectária que impede o reconhecimento da realidade real, mas também é responsável por terríveis catástrofes humanas.
Os simplificadores não desapareceram no século 21. Como no passado, eles se movimentam com a tendência de verem tudo como um conjunto monolítico, inventando falsos universais, gerando generalizações espúrias, o que lhes permite toda sorte de fraudes históricas, toda a sorte de uniões absurdamente contraditórias, para a melhor condução de seus robôs humanos
Assim, no passado, comunistas e nazistas, então, supostamente radicalmente antagônicos, esquerda e direita, uniram-se para aplaudir a aliança de Stalin com Hitler, realizada sob o pálio do Pacto Ribbentrop-Molotov, escancarando as portas para a conquista da Polônia pelas hordas nazistas, fazendo estourar a 2ª Guerra Mundial. No nosso século, o reducionismo reúne a esquerda ao que há de mais direitista, reacionário, obscurantista do planeta, o Islã radical.
Um dos aspectos mais escandalosos deste reducionismo reside na atitude de grande parte da esquerda com relação a Israel. Uma crítica em si legítima ao governo de Ariel Sharon se degenerou em virulento anti-semitismo, aproximando-a assim ao fundamentalismo muçulmano.
Como se constatou no Fórum Social Brasileiro de Belo Horizonte, quando o PSTU, organização que se diz de orientação materialista-leninista-trotskista, levantou a bandeira do extremismo islamítico, o “Fim de Israel”, barbárie anti-semita, foi erigido entre as propostas de solução de graves problemas sociais do Brasil e do mundo. Aliás, por conta do mesmo ódio contra Israel, a raiz dos atentados terroristas, jornalistas ditos de esquerda de jornal de grande circulação de Minas dedicaram uma página inteira à louvação de seus novos “heróis”, os “homens-bomba” dos grupos terroristas Hamas e Jihad.
A esquerda simplificadora “se esqueceu” do óbvio, Israel não é uma totalidade abstrata, mas um complexo democrático, composto de governo e uma sociedade altamente diferenciada, duas esferas que se opõem com freqüência, não podendo ser julgado como um todo. Mas para tais reducionistas só existe um bloco monolítico representado por Sharon. Se fosse minimamente racional, a esquerda do mundo apoiaria coerentemente a esquerda israelense de oposição a Sharon, não os fanáticos religiosos muçulmanos.
Na Conferência do Islã na Malásia, realizada em outubro de 2003, o premiê malaio, Mahatair Mohamed, exortou a união muçulmana contra os judeus, acusando-os de se constituírem em um povo que “pensa” (sic!), exatamente o revés do que se espera de um islamita, cuja fé exige a submissão total e absoluta ao Corão e aos ensinamentos do Profeta. Segundo o premiê, para o fiel do Islã, a democracia e os direitos humanos são invenções judaicas (sic!) para conquistarem o mundo. Ironicamente, grande parte da sociedade israelense e do mundo judeu, precisamente por reconhecer os valores da democracia e dos direitos humanos, é favorável à criação do Estado palestino em coexistência pacifica com Israel...
Também por omissão, a esquerda está sendo cúmplice da onda anti-semita promovida pelos fundamentalistas islamíticos. Sinagogas na França, Turquia, e em outros países são alvos de graves atentados terroristas, ameaçando todos os 16 milhões de judeus do planeta, sob o mais absoluto silêncio da esquerda do mundo.
Chegou o momento de se resgatar o “pensar complexo”, no dizer o filosofo Edgar Morin, “que tem entre suas características a de evitar a formação dos falsos universais, das generalizações espúrias”, que ostentam as práticas contra Israel e o povo judeu. Afinal, no século 21, quantas mais catástrofes humanas pretendem desencadear os terríveis simplificadores “da esquerda e da direita?”.

* Max Golgher é médico e líder comunitário em Belo Horizonte. Este seu artigo foi publicado no jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, MG, em 17/1/2004.


 

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