Por: Max Golgher
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No século passado, os totalitários Adolf Hitler
e Joseph Stalin suprimiram pelo uso político da repressão
e da propaganda a faculdade critica da mente de milhões
e milhões de seres humanos, simplificando o pensamento,
impedindo-os de pensar por conta própria. Reduziu-os a uma
massa de robôs não-pensantes, cujo ideal tornou-se
o da obediência absoluta ao chefe. Simplificação
ou redução do pensamento foi o fenômeno do
totalitarismo que levou a ascensão do nazismo e comunismo
com o descrédito das democracias liberais. Causou a maior
catástrofe da história humana, a 2ª Guerra Mundial,
somando mais de 50 milhões de pessoas mortas e feridas.
No que tange à comunidade judaica da Europa, dos nove milhões
de pessoas existentes antes do conflito, seis milhões foi
chacinadas pelo simples motivo de terem nascidas judias. A simplificação
do pensamento não é apenas uma cegueira sectária
que impede o reconhecimento da realidade real, mas também é responsável
por terríveis catástrofes humanas.
Os simplificadores não desapareceram no século 21.
Como no passado, eles se movimentam com a tendência de verem
tudo como um conjunto monolítico, inventando falsos universais,
gerando generalizações espúrias, o que lhes
permite toda sorte de fraudes históricas, toda a sorte de
uniões absurdamente contraditórias, para a melhor
condução de seus robôs humanos
Assim, no passado, comunistas e nazistas, então, supostamente
radicalmente antagônicos, esquerda e direita, uniram-se para
aplaudir a aliança de Stalin com Hitler, realizada sob o
pálio do Pacto Ribbentrop-Molotov, escancarando as portas
para a conquista da Polônia pelas hordas nazistas, fazendo
estourar a 2ª Guerra Mundial. No nosso século, o reducionismo
reúne a esquerda ao que há de mais direitista, reacionário,
obscurantista do planeta, o Islã radical.
Um dos aspectos mais escandalosos deste reducionismo reside na
atitude de grande parte da esquerda com relação a
Israel. Uma crítica em si legítima ao governo de
Ariel Sharon se degenerou em virulento anti-semitismo, aproximando-a
assim ao fundamentalismo muçulmano.
Como se constatou no Fórum Social Brasileiro de Belo Horizonte,
quando o PSTU, organização que se diz de orientação
materialista-leninista-trotskista, levantou a bandeira do extremismo
islamítico, o “Fim de Israel”, barbárie
anti-semita, foi erigido entre as propostas de solução
de graves problemas sociais do Brasil e do mundo. Aliás,
por conta do mesmo ódio contra Israel, a raiz dos atentados
terroristas, jornalistas ditos de esquerda de jornal de grande
circulação de Minas dedicaram uma página inteira à louvação
de seus novos “heróis”, os “homens-bomba” dos
grupos terroristas Hamas e Jihad.
A esquerda simplificadora “se esqueceu” do óbvio,
Israel não é uma totalidade abstrata, mas um complexo
democrático, composto de governo e uma sociedade altamente
diferenciada, duas esferas que se opõem com freqüência,
não podendo ser julgado como um todo. Mas para tais reducionistas
só existe um bloco monolítico representado por Sharon.
Se fosse minimamente racional, a esquerda do mundo apoiaria coerentemente
a esquerda israelense de oposição a Sharon, não
os fanáticos religiosos muçulmanos.
Na Conferência do Islã na Malásia, realizada
em outubro de 2003, o premiê malaio, Mahatair Mohamed, exortou
a união muçulmana contra os judeus, acusando-os de
se constituírem em um povo que “pensa” (sic!),
exatamente o revés do que se espera de um islamita, cuja
fé exige a submissão total e absoluta ao Corão
e aos ensinamentos do Profeta. Segundo o premiê, para o fiel
do Islã, a democracia e os direitos humanos são invenções
judaicas (sic!) para conquistarem o mundo. Ironicamente, grande
parte da sociedade israelense e do mundo judeu, precisamente por
reconhecer os valores da democracia e dos direitos humanos, é favorável à criação
do Estado palestino em coexistência pacifica com Israel...
Também por omissão, a esquerda está sendo
cúmplice da onda anti-semita promovida pelos fundamentalistas
islamíticos. Sinagogas na França, Turquia, e em outros
países são alvos de graves atentados terroristas,
ameaçando todos os 16 milhões de judeus do planeta,
sob o mais absoluto silêncio da esquerda do mundo.
Chegou o momento de se resgatar o “pensar complexo”,
no dizer o filosofo Edgar Morin, “que tem entre suas características
a de evitar a formação dos falsos universais, das
generalizações espúrias”, que ostentam
as práticas contra Israel e o povo judeu. Afinal, no século
21, quantas mais catástrofes humanas pretendem desencadear
os terríveis simplificadores “da esquerda e da direita?”.
* Max Golgher é médico e líder comunitário
em Belo Horizonte. Este seu artigo foi publicado no jornal “O
Tempo”, de Belo Horizonte, MG, em 17/1/2004.