Por: A.Edery
Ser anti-sionista é negar ao povo judeu seu direito à liberdade
e independência nacional.
O racismo anti-judaico possui uma tradição secular
na Europa, com profundas raízes na cultura, religião
e pensamento do continente e da Espanha. Suas manifestações
mais violentas já ocorreram - a Inquisição
e expulsão e o Holocausto.
Temos sorte em viver num mundo tão diversificado e rico
em tradições, culturas e religiões. A minha
tradição judaica me convida a apreciar esta diferença,
a ser-lhe grata e preservá-la.
Diante das diferenças étnicas e culturais, alguns
reagem com curiosidade e interesse, simpatia e apreço;
mas outros reagem de forma oposta: com receio, rechaço,
desapreço e inclusive ódio. Quando uma pessoa reage à diferença
de outra pessoa com rechaço e hostilidade, vemos uma atitude
racista. O racismo como atitude inclui o desapreço ao
que é diferente por suas características físicas
(mal denominadas "raciais"), e também ao que
parte de algo coletivo diferenciado por cultura, religião
ou orientação sexual. Portanto, o rechaço
aos negros, ódio aos judeus, desapreço ao muçulmano
ou o ataque ao homossexual não são fenômenos
isolados: são distintas manifestações de
uma mesma postura racista, só que dirigida contra coletividades
distintas. Alguns racistas reagem mais contra uma coletividade
e menos contra outras, enquanto todos os que possuem o racismo
muito enraizado em seu ser discriminam e odeiam a todos que são
diferentes deles mesmos.
Assim, os nazistas odiaram e perseguiram especialmente os judeus
e também os ciganos, negros e eslavos; a Ku Klux Klan
odeia principalmente os negros, mas também os brancos
católicos e judeus. O fato de que estes grupos de racistas
assumidos odeiem alternadamente várias coletividades é muito
importante de destacar, já que é uma clara evidência
de que seu ódio não "provoca" ações,
nem qualidades específicas de algum povo, senão
o rechaço que surge do seio do racismo, que não
pode tolerar quem não é como ele. Esta atitude
racista é muito antiga na humanidade e está especialmente
presente em terras européias, onde a diferença é perseguida
e combatida.
Na Espanha do século XVI, o racismo no poder unia várias
hostilidades: perseguia os mouros, estabelecia critérios
de pureza de sangue para discriminar os cristãos com origem
judaica e argumentava que os índios recém-descobertos
não tinham alma - o que lhes permitia perseguí-los
e abusar deles mais facilmente. Mas dentro da atitude racista
também há variantes, resultado das influências
históricas e culturais que atuam sobre quem rechaça
o outro. Assim como o racismo contra os negros nos Estados Unidos
tem suas próprias características e história,
o racismo contra os judeus na Europa tem uma história
própria e uma presença diferenciada das demais
formas de exclusão. Na Europa, basta uma simples observação
da história para vermos que o racismo contra os judeus
se manifestou na arte e na religião, desde o poder político
e da Igreja, nas leis anti-judaicas de Alfonso, o Sábio
e outros monarcas espanhóis, e nos massacres de judeus
do fascista Hitler e do comunista Stálin. O racismo contra
os judeus tem sido bastante profundo e extenso na Europa para
que possamos dar-lhe um nome mais específico: anti-semitismo
ou judeufobia, a variante do racismo que foca seu ódio
na coletividade judaica.
Ao se estudar a extensa história e desenvolvimento desta
forma de racismo - coisa que poucos dos que opinam sobre a Espanha
fazem sobre o anti-semitismo - , se vê que o racismo não
morre, mas sim se transforma. Nos Estados Unidos, o dia em que
os afroamericanos tiveram reconhecidos seus direitos civis, os
milhões de brancos que os rechaçavam não
se tornaram pluralistas e multiculturais por decreto, mas arranjaram
outras maneiras de expressar sua hostilidade - formas sutis como
a marginalização social e econômica, a discriminação
cultural e da mídia -, modos de hostilidade que são
possíveis
mesmo com as novas leis.
O mesmo se deu com o racismo anti-judaico na Europa: foi se transformando
para se adaptar à realidade dinâmica. Na Idade Média, quando
a religião era central na vida européia, a perseguição
ao judeu "se vestia" com roupas de religião: se acusava o "assassino
de Deus", saía-se para "matar judeus" na Páscoa,
perseguia-se o que não tinha Deus (ao menos o Deus do perseguidor).
Quando a Europa acreditava nas bruxas e temia os demônios, a judeufobia
se disfarçava com essas roupas e acusava aos judeus de bruxaria e de
ter "chifres" - esta mostra de ódio medieval encontrou seu
lugar nos livros de texto de nossas escolas espanholas até apenas alguns
decênios, durante o franquismo. Mas estas acusações perderam
legitimidade e eficácia com a entrada da era moderna. Por isto, quando
a Europa se modernizou cientificamente - os genes foram descobertos e as teorias
de Darwin foram desenvolvidas -, o anti-judaísmo se vestiu de ciência
para proclamar que o judaísmo não é uma cultura ou religião
e sim um gene, que deveria ser marginalizado para não contaminar os
demais genes superiores e que os seres inferiores (judeus) deveriam ser exterminados
para que os superiores (arianos) pudessem progredir.
Esta é a ideologia - feita e aplicada totalmente na Europa e pelos europeus
do século XX - que conduziu a Auschwitz, o lugar onde 20.000 pessoas
chegavam a cada dia da Europa para serem - em apenas 2 horas de eficiência
germânica - despojadas, exterminadas nas câmaras de gás
e convertidas em montanhas de cinzas nos crematórios, que não
pararam de produzir fumaça por dois anos.
Em seguida a esta vergonha para a humanidade, nenhum racista anti-judeu podia
manifestar publicamente seu anti-semitismo sem ser desprestigiado e mal-visto
- como haviam feito milhões de europeus em voz alta, antes da guerra.
Na Europa pós-guerra uma manifestação judeofóbica
não é bem-vista, e o discurso anti-semita está deslegitimado.
O que os racistas europeus, da Polônia à França, que até ontem
haviam colaborado com o nazismo fazem agora? O que fazem aqueles que levam
dentro de si um rechaço e preconceito contra o judeu profundamente enraizado,
alimentado por séculos de cultura racista e colonialista de oprimir
o diferente? Abandonaram por decreto sua hostilidade aos judeus e se transformaram
em pluralistas? Quiçá alguns sim, mas a maioria faz o que os
racistas de todas as épocas vinham fazendo: adaptam seu discurso e buscam
novas formas - legais e socialmente aceitáveis - de prosseguir com seu
rechaço ao diferente.
Na Europa multicultural e pluralista de hoje não há muitas formas
aceitáveis de ser racista, e por isso tampouco se pode, como antes era
feito abertamente, rechaçar o judeu de nosso bairro, nem discriminar
o judeu que vive em nossa cidade; Mas há algo que se pode fazer: rechaçar
o judeu entre os países, marginalizar o país que é diferente,
atacar Israel, o país que é o judeu de nossa nova aldeia global.
Não estamos sugerindo que qualquer crítica a uma política
do governo israelense é uma prova de anti-semitismo; isso seria ridículo,
dado que os maiores e melhores críticos dos governos israelenses são
os próprios cidadãos de Israel, seus escritores, artistas e parlamentares.
Para esclarecermos, há três formas concretas de distinguir uma
crítica válida (e também necessária) sobre o Estado
de Israel e suas políticas de uma manifestação judeufóbica
que se faz utilizando Israel. A primeira é constatar se o critério ético
ou político utilizado para a crítica a Israel é o mesmo
empregado para se criticar um país cristão, muçulmano
ou outro. Criticar Israel de forma especial (em quantidade e qualidade) reflete
uma discriminação negativa.
Uma segunda forma de expressar o rechaço ao judeu através da
crítica a Israel é negar ao povo judeu o direito reconhecido
a todos os povos da terra: o de autodeterminação. O movimento
nacional do judeu para ser livre e independente em sua terra se chama sionismo.
Ser anti-sionista é negar ao judeu sua liberdade e independência
nacional. Se um anti-sionista reconhece o direito do povo palestino à sua
auto-determinação, vemos que sua atitude é discriminatória
e anti-judaica.
Por último, notamos racismo anti-judaico quando uma crítica às
políticas israelenses são usadas para justificar e legitimar
o ódio e a violência contra judeus que vivem em qualquer parte
do mundo e não são cidadãos israelenses. Quando Andrés
Trapiello ("Revista de La Vanguardia" 7/12/2003) escreve que as bombas
colocadas em sinagogas de Istambul não são atos anti-semitas,
mas sim somente uma expressão do anti-sionismo, está usando Israel
para legitimar a violência e o massacre de judeus civis turcos.
O racismo anti-judaico tem uma tradição de séculos na
Europa, com profundas raízes na cultura, religião, pensamento
do continente e da Espanha. As manifestações mais violentas do
anti-semitismo aí ocorreram: a Inquisição e expulsão
e o Holocausto.
Cabe a nós hoje não só revisar o passado como ter o cuidado
de estar atentos para as atuais e mais sutis formas desta doença que
ainda está presente entre nós.
* A. Edery, é licenciado em Relações Internacionais
pela Universidade Hebraica de Jerusalém, master em Letras
Hebraicas no Hebrew Union College dos EUA e rabino da comunidade
judaica progressista Atid da Catalunha, Espanha. Artigo traduzido
pela Lista Paz Agora/BR e publicado dia 24/1/2004 no site do Iton
Gadol, www.itongadol.com.ar/shop/detallenot.asp?notid=4763