Visão Judaica - Edição N° 23
:. A volta do Quarteto para discutir Bush .:



Por: Nahum Sirotsky *

De Israel – É muito provável uma reunião do Quarteto – Estados Unidos, Rússia, União Européia e Nações Unidas, em Berlim, Alemanha, antes do fim do mês. Pretende-se que seja do mais alto nível possível. Talvez Bush, Putin, o presidente da UE, hoje, o chefe do governo irlandês, e Kofi Annan, da ONU. Objetiva-se um esclarecimento das posições de Bush supostamente de aprovação dos planos de Sharon de Israel e para a retomada do processo de paz, do “roadmap”.
Evito, sempre que possível, inspirar-me em notícias de fontes não identificadas a não ser quando delas escuto o que têm a dizer. Aí, sabendo quem é posso melhor interpretar o que escuto. A fonte anônima tem interesses que procuram servir à informação. Prefiro esperar por comprovações. Aqueles que me acompanham lembrarão a opção por tal cautela como fiz no caso da visita do Primeiro Ministro de Israel a Bush. As versões que circularam não me pareceram confiáveis. Bush, segundo elas, apoiará a política de Sharon com todas as conseqüências de desagradar ao mundo árabe e islâmico onde são imensuráveis os interesses americanos. E por escrito, a leitura atenta da carta que o presidente americano entregou ao primeiro ministro israelense, no texto divulgado, não confirma as manchetes. O homem na Casa Branca quer a retomada do processo da paz, ”o roadmap”, como meio de se chegar a uma solução do conflito israelense-palestino em todos os seus complexos aspectos. A desinformação conseguida pode complicar ainda mais as relações do Ocidente com o Islã. Não se deseja mais justificativas para as iniciativas do Al Qaeda e aliados. Já existe a expectativa de que Bin Laden demonstre, em alguma ação espetacular, que sua proposta de armistício à Europa nada tinha de ridículo. Ele é um poder a ser respeitado e temido, vai querer provar para o bem de sua causa e suas táticas, no momento, a derrota americana no Iraque e de Israel e os judeus em qualquer lugar.
Na carta, o presidente americano não escreve, como divulgado, que reconhece que não pode haver o retorno dos refugiados palestinos. ”Parece claro que um contexto realístico, justo, razoável (fair), para uma solução da questão dos refugiados palestinos, deve ser parte do acordo final. Ser encontrado pelo estabelecimento do Estado palestino, e o assentamento dos refugiados nesse estado ao invés de em Israel”. A ótima analista do “Jerusalém Post”, diário em inglês, Caroline Glick, sempre muito cuidadosa, escreveu que “Parece claro” não se traduz num compromisso de apoio a posição de Sharon de rejeição de qualquer hipótese de volta dos palestinos. “Parece claro“ não é aprovação de coisa alguma. É sugestão”.
Em tempos recentes Sharon afirmou que se tiver de aplicar o seu plano de retirada unilateral (desengajamento) de terras reclamadas pelos palestinos, a criação do Estado palestino talvez nunca se concretize. Mas a carta de Bush, daquelas da escola de “nem contra nem a favor, muito pelo contrário”, muito bem redigida para sensibilizar o eleitorado americano, reconhece que Israel deve permanecer sendo o Estado judeu. Ao mesmo tempo, porém, fala de negociações para se estabelecer o Estado palestino independente, do qual não desiste.
Bush terá calculado errado as reações à sua carta e as interpretações que a transformaram em notícia de primeira página. Óbvio que ninguém se colocaria contra uma retirada de Sharon de territórios ocupados em 1967. As objeções são contra o significado. Não admitem parceiros do Quarteto, e outros países, que seja um recuo para fronteiras que Sharon definiria unilateralmente. É o que fica claro nas reações contrárias. O que se intenciona fique bem esclarecido na reunião de cúpula do Quarteto. Nada será aceito como solução que não resulte de negociação entre as partes. Se Bush tiver de ir pessoalmente à reunião, é o que terá de dizer.
O secretário de Estado Colin Powell já declarou que não houve mudança alguma nas posições americanas. Javier Solana, responsável pelas Relações Exteriores da União Européia, reagiu, declarando que o roadmap está mantido. Sergei Lavrov, ministro do Exterior da Rússia, foi mais explícito: ”O presidente Bush confirmou seu apoio ao roadmap. E não vejo porque falar de diferença entre nós antes da próxima reunião do Quarteto”. O ministro do Exterior da Irlanda, no momento o país que preside a União Européia, mais sutil, comentou que a discussão do plano de desengajamento ”resultou em movimento no inerte processo de paz“, e que, ”no final das contas, Israel tem de fazer a paz com os seus inimigos, não com os seus amigos“. O roadmap prevê a formação de um Estado palestino independente em 2005.
Paradoxalmente, o plano de Sharon, de sair de Gaza e outras parcelas da terra reclamada pelos palestinos, correspondentes à verdadeira Canaã bíblica, encontra as mais fortes resistências dentro de seu partido, Likud, que precisa se manifestar sobre ele em plebiscito marcado para dois de maio. Três mil indivíduos desta ala do Likud estão saindo em campo para uma campanha porta a porta, visitando todos os mais de duzentos mil membros registrados do partido. Vai convencê-los a votarem contra. Teme-se que elementos mais extremistas recorram à violência. Na chamada esquerda a insatisfação é grande contra Sharon por se retirar sem negociar com os palestinos. E imaginar que será o fim do sonho palestino de um Estado próprio por muito tempo, ou para sempre.
O chefe de polícia de Israel declarou estado de alerta para a sua força. Existem informações da intenção de grupos palestinos cometerem atentados. Nos últimos dias foram abortados vários, inclusive um em que se pretendia sujar o explosivo com sangue de aidéticos para provocar a doença em todos os que estivessem na proximidade da explosão.
E a história fica aqui mesmo, sem final, pois não existe.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS em Israel e colunista do Último Segundo/IG. A publicação desta coluna tem a autorização do autor.

 


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