Por: Nahum Sirotsky *
De Israel – É muito provável uma reunião
do Quarteto – Estados Unidos, Rússia, União
Européia e Nações Unidas, em Berlim, Alemanha,
antes do fim do mês. Pretende-se que seja do mais alto
nível possível. Talvez Bush, Putin, o presidente
da UE, hoje, o chefe do governo irlandês, e Kofi Annan,
da ONU. Objetiva-se um esclarecimento das posições
de Bush supostamente de aprovação dos planos de
Sharon de Israel e para a retomada do processo de paz, do “roadmap”.
Evito, sempre que possível, inspirar-me em notícias
de fontes não identificadas a não ser quando delas
escuto o que têm a dizer. Aí, sabendo quem é posso
melhor interpretar o que escuto. A fonte anônima tem interesses
que procuram servir à informação. Prefiro
esperar por comprovações. Aqueles que me acompanham
lembrarão a opção por tal cautela como fiz
no caso da visita do Primeiro Ministro de Israel a Bush. As versões
que circularam não me pareceram confiáveis. Bush,
segundo elas, apoiará a política de Sharon com
todas as conseqüências de desagradar ao mundo árabe
e islâmico onde são imensuráveis os interesses
americanos. E por escrito, a leitura atenta da carta que o presidente
americano entregou ao primeiro ministro israelense, no texto
divulgado, não confirma as manchetes. O homem na Casa
Branca quer a retomada do processo da paz, ”o roadmap”,
como meio de se chegar a uma solução do conflito
israelense-palestino em todos os seus complexos aspectos. A desinformação
conseguida pode complicar ainda mais as relações
do Ocidente com o Islã. Não se deseja mais justificativas
para as iniciativas do Al Qaeda e aliados. Já existe a
expectativa de que Bin Laden demonstre, em alguma ação
espetacular, que sua proposta de armistício à Europa
nada tinha de ridículo. Ele é um poder a ser respeitado
e temido, vai querer provar para o bem de sua causa e suas táticas,
no momento, a derrota americana no Iraque e de Israel e os judeus
em qualquer lugar.
Na carta, o presidente americano não escreve, como divulgado,
que reconhece que não pode haver o retorno dos refugiados
palestinos. ”Parece claro que um contexto realístico,
justo, razoável (fair), para uma solução
da questão dos refugiados palestinos, deve ser parte do
acordo final. Ser encontrado pelo estabelecimento do Estado palestino,
e o assentamento dos refugiados nesse estado ao invés
de em Israel”. A ótima analista do “Jerusalém
Post”, diário em inglês, Caroline Glick, sempre
muito cuidadosa, escreveu que “Parece claro” não
se traduz num compromisso de apoio a posição de
Sharon de rejeição de qualquer hipótese
de volta dos palestinos. “Parece claro“ não é aprovação
de coisa alguma. É sugestão”.
Em tempos recentes Sharon afirmou que se tiver de aplicar o seu
plano de retirada unilateral (desengajamento) de terras reclamadas
pelos palestinos, a criação do Estado palestino
talvez nunca se concretize. Mas a carta de Bush, daquelas da
escola de “nem contra nem a favor, muito pelo contrário”,
muito bem redigida para sensibilizar o eleitorado americano,
reconhece que Israel deve permanecer sendo o Estado judeu. Ao
mesmo tempo, porém, fala de negociações
para se estabelecer o Estado palestino independente, do qual
não desiste.
Bush terá calculado errado as reações à sua
carta e as interpretações que a transformaram em
notícia de primeira página. Óbvio que ninguém
se colocaria contra uma retirada de Sharon de territórios
ocupados em 1967. As objeções são contra
o significado. Não admitem parceiros do Quarteto, e outros
países, que seja um recuo para fronteiras que Sharon definiria
unilateralmente. É o que fica claro nas reações
contrárias. O que se intenciona fique bem esclarecido
na reunião de cúpula do Quarteto. Nada será aceito
como solução que não resulte de negociação
entre as partes. Se Bush tiver de ir pessoalmente à reunião, é o
que terá de dizer.
O secretário de Estado Colin Powell já declarou
que não houve mudança alguma nas posições
americanas. Javier Solana, responsável pelas Relações
Exteriores da União Européia, reagiu, declarando
que o roadmap está mantido. Sergei Lavrov, ministro do
Exterior da Rússia, foi mais explícito: ”O
presidente Bush confirmou seu apoio ao roadmap. E não
vejo porque falar de diferença entre nós antes
da próxima reunião do Quarteto”. O ministro
do Exterior da Irlanda, no momento o país que preside
a União Européia, mais sutil, comentou que a discussão
do plano de desengajamento ”resultou em movimento no inerte
processo de paz“, e que, ”no final das contas, Israel
tem de fazer a paz com os seus inimigos, não com os seus
amigos“. O roadmap prevê a formação
de um Estado palestino independente em 2005.
Paradoxalmente, o plano de Sharon, de sair de Gaza e outras parcelas
da terra reclamada pelos palestinos, correspondentes à verdadeira
Canaã bíblica, encontra as mais fortes resistências
dentro de seu partido, Likud, que precisa se manifestar sobre
ele em plebiscito marcado para dois de maio. Três mil indivíduos
desta ala do Likud estão saindo em campo para uma campanha
porta a porta, visitando todos os mais de duzentos mil membros
registrados do partido. Vai convencê-los a votarem contra.
Teme-se que elementos mais extremistas recorram à violência.
Na chamada esquerda a insatisfação é grande
contra Sharon por se retirar sem negociar com os palestinos.
E imaginar que será o fim do sonho palestino de um Estado
próprio por muito tempo, ou para sempre.
O chefe de polícia de Israel declarou estado de alerta
para a sua força. Existem informações da
intenção de grupos palestinos cometerem atentados.
Nos últimos dias foram abortados vários, inclusive
um em que se pretendia sujar o explosivo com sangue de aidéticos
para provocar a doença em todos os que estivessem na proximidade
da explosão.
E a história fica aqui mesmo, sem final, pois não
existe.
* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS
em Israel e colunista do Último Segundo/IG. A publicação
desta coluna tem a autorização do autor.