Por: Helen Schary
Motro*
Durante algumas semanas de atentados em Israel,
cinco bebês
chegaram à UTI pediátrica do Hospital Wolfson, perto
de Tel-Aviv, todos eles próximos da morte. Mas nenhum deles
era uma criança das quais você leu nas manchetes.
Todas essas crianças nasceram com problemas cardíacos
tão sérios que não poderiam sobreviver sem
cirurgias. Cada uma sofreu uma complicada operação.
Todos os cinco bebês eram palestinos: três de Gaza
e dois da Cisjordânia. Alguns deles já estiveram nesse
hospital antes, e diagnosticados na clínica, que trata toda
terça-feira de crianças palestinas. Seus pais e avós
também chegaram e ficaram com eles durante meses no hospital.
Eles estão entre as 150 crianças palestinas que sofreram cirurgias
cardíacas, realizadas desde 1995 pela organização israelense "Salve
um Coração de Criança". A equipe abrange tanto judeus
quanto árabes, e os bebês ficam na unidade cardíaca entre
bebês judeus que, como eles, lutam por suas vidas.
Nem estes bebês nem aqueles chegam à notoriedade. Na manhã de
uma terça-feira, quando três deles chegaram ao hospital e levados às
pressas para serem conectados ao oxigênio, as manchetes eram sobre outras
crianças, não muito distantes, crianças que pareciam mais
afortunadas, pois tinham nascido com corações saudáveis.
Mas, num simples trajeto de ônibus para a escola, encontraram uma brutal
e prematura morte.
Como muitas outras pessoas, eu muitas vezes me sinto ultrajada por essas infindáveis
calamidades. Vinte meses atrás, escrevi sobre a primeira criança
vitimada por esta Intifada, cujo pai palestino eu conhecera. Agora, após
tanto sangue, quem pode encarar todas estas tragédias? Mas eu quero
ressaltar para vocês que em Israel hoje existem pessoas que, quando falam
em construir muros, os muros de que eles falam são muros entre as câmaras
vazadas de um coração de bebê. As facas que eles manejam
são bisturis. Seus planos de batalha são para recuperação.
Os "Médicos pelos Direitos Humanos" (Physicians for Human
Rights) é outra organização israelense engajada no cuidado
com a saúde de palestinos. Os médicos judeus e árabes
dos “Médicos pelos Direitos Humanos” mantêm vínculos
com seus colegas dos hospitais palestinos. Em todos os seus sábados
de folga, uma equipe de médicos percorre com uma clínica móvel
aldeias da Cisjordânia, levando remédios e tratamento. Dias atrás,
por exemplo, seis médicos israelenses, um médico-residente, dois
médicos de família, um cirurgião, um ortopedista e um
pediatra chegaram à aldeia de Deir Balout, perto de Nablus. Naquele
dia, cuidaram de 370 pacientes e conseguiram tratamento posterior dentro de
Israel para nove com problemas mais graves.
Os “Médicos pelos Direitos Humanos” e “Salve um Coração
de Criança” não estão sozinhos. Apesar da compreensível
quebra de cooperação em tantos campos, apenas alguns anos atrás,
outros israelenses e palestinos continuam, bravamente, a trabalhar juntos.
Para médicos talvez seja mais fácil, porque o que eles fazem é concreto.
Contatos construídos sobre palavras são mais frágeis.
Porque as pessoas não mais acreditam em palavras.
Mas ainda existem aqueles com incrível coragem, como as centenas de
pais palestinos e israelenses que participam do Fórum de Famílias
Enlutadas. Todos eles tiveram suas próprias crianças mortas.
Agora, para se encontrarem, precisam viajar para Londres, porque encontros
cara-a-cara no Oriente Médio não são possíveis
hoje.
Para o resto de suas vidas, esses pais sofrerão por ferimentos no coração
que nenhum cirurgião pode curar. Mas, ao contrário de ficar chorando
em quartos escuros, ou se juntar a hordas de ódio, eles, como os médicos,
esperam oferecer um futuro para outras crianças.
Algumas vezes, pessoas até fazem coisas que em outras circunstâncias
seriam consideradas normais. Tempos atrás, no meio dos atentados, um
grupo de 18 adolescentes palestinos e judeus, fez uma performance de circo
em Jerusalém, que haviam ensaiado por todo o ano. Após seu entusiástico
show, diante de uma audiência mista, uma jovem trapezista de 16 anos
foi perguntada se poderia sugerir alguma solução para os líderes
palestinos e israelenses. Sua simples e rápida resposta: "Talvez
eles devam se unir ao circo".
Em meu trabalho, tento expressar através de exemplos como esses que
no meio do horror e do ódio ainda têm contato e carinho.
Muito foi dito sobre coragem aqui nesta noite. Acreditem, estou longe de ser
corajosa. Escrevo tudo isso porque tenho medo, medo de todos nós. Eu
vejo a tentativa de alcançar um terreno comum como a única saída.
Não ouvimos muito sobre esperança nesses dias. Mas se ainda resta
alguma esperança, esta gente real e não cantada está na
sua vanguarda.
O poeta Jay Ladin escreveu: "Onde houver um abismo, também haverá uma
ponte" [Wherever there is a chasm there will also be a bridge].
Precisamos resistir à desesperança, na escuridão do abismo.
Devemos nos dedicar à construção daquela ponte. Se o fizermos,
não será um sonho.
*Helen Schary Motro é advogada e jornalista norte-americana, proferiu
este discurso em Bruxelas, no Parlamento Europeu, em 26/06/02 por ocasião
do recebimento do Prêmio ”Procura por um Terreno Comum para o Jornalismo
do Oriente Médio” (Search for Common Ground Awards for Middle
East Journalism)”. Helen vive e escreve em Jerusalém. Seus artigos
são publicados no Jerusalem Post, Baltimore Sun, Christian Science Monitor,
San Francisco Chronicle e em muitos dos melhores jornais e revistas. (Texto
traduzido por Moisés Storch).