Por:Daniel Gazit *
De todas as reações à morte do líder do movimento
terrorista Hamas Ahmed Yassin, a que mais me causou impacto foi a do primeiro-ministro
palestino, Ahmed Korei, chamando o xeque Yassin de "um líder
moderado".
No conflito entre palestinos e israelenses já é costume o emprego
estranho da linguagem. Parece que o mundo adotou e aceitou, muito facilmente,
essa linguagem especial.
Medidas que Israel toma visando se defender, as quais não matam pessoas
e que são de caráter provisório, são condenadas
como atos criminosos. Um ato de defesa própria por parte de Israel é condenado
como se fosse ilegítimo, ao mesmo tempo em que a existência
aberta e pública de grupos terroristas antiisraelense é considerada
legítima. Massacres de crianças israelenses em escolas, ônibus
e discotecas são denominados "atos heróicos" de libertação
nacional. Israel já sofreu inúmeros atos terroristas que, relativamente,
para a população israelense têm a mesma magnitude do
atentado de Madri. Entretanto ninguém fala do direito israelense de
chorar, vingar ou parar o processo de paz.
Por outro lado, no momento em que um terrorista palestino morre, o mundo
expressa a sua simpatia e entendimento às manifestações
de ódio e vingança palestinos.
Já estamos acostumados a enterrar os nossos mortos em silêncio.
Não procuramos mais a simpatia mundial, mas não deixaremos
de lutar por nossas vidas, pela existência de nosso Estado e por Jerusalém,
capital eterna do Estado de Israel.
Este é o momento adequado para o mundo conhecer o "moderado palestino" xeque
Yassin, fundador do grupo terrorista Hamas, que orgulhosamente assumiu a
responsabilidade por milhares de ataques e centenas de mortos civis israelenses.
Segundo sua interpretação do islã, a matança
de todos os israelenses, bebês, crianças, adultos e velhos, é justificada.
Ele jamais aceitou a existência do Estado de Israel e jurou continuar
a luta após o estabelecimento de um Estado palestino, até a
destruição total de Israel. Esse é o tipo de moderado
que rezou, em 29 de maio de 2003, pelo bem-estar e sucesso de outro "moderado",
Osama bin Laden.
Se os moderados palestinos querem "apenas" destruir o Estado de
Israel e nos matar a todos, o que desejam então os extremistas? De
todos os modos os "moderados" estão se manifestando hoje,
na Faixa de Gaza, com o mesmo slogan que gritavam os seus pais, avós
e bisavós, há mais de cem anos: "Itbach el yahood" (matem
os judeus).
O terror palestino contra Israel aumentou mil vezes após a criação
da Autoridade Palestina. Parece que essa é a forma que os palestinos
acharam mais conveniente e eficaz para obter concessões por parte
de Israel. Lamentavelmente para ambos, palestinos e israelenses, a lógica
dos líderes palestinos é totalmente errada. É o caminho
que pode levar todos à destruição, sem encontrar uma
solução.
Há que lembrar que, se não fosse o ódio dos palestinos,
eles já poderiam ter um Estado independente. Após recusarem
a idéia da partilha da Terra Santa com os judeus, em 1947, os árabes
tiveram em suas mãos todos os territórios hoje denominados "ocupados",
inclusive Jerusalém Oriental. Eles poderiam ter declarado um Estado,
mas preferiram fundar organizações terroristas, conclamando
a destruição de Israel, antes do estabelecimento de um Estado
palestino.
Nos últimos anos, os palestinos recusaram uma e outra vez ofertas
de líderes israelenses para o estabelecimento de um Estado independente
porque, segundo Arafat, essas ofertas não foram "suficientes" para
as aspirações palestinas. Arafat decidiu que a única
forma de pressionar Israel a fazer mais concessões seria não
por meio de negociações, mas pela força do terror. Parece
que ele, após mais de 40 anos de atividade terrorista, não
conhece outro caminho. Sabe apenas matar e destruir, quando os palestinos
necessitam de um líder que saiba construir.
Israel está pronto a fazer muitas concessões em prol da paz
e já provou isso nos acordos com o Egito, Jordânia e com os
próprios palestinos, em Oslo. Mas Israel não pode aceitar viver
ao lado de um Estado dedicado a destruí-lo, onde os terroristas têm
total liberdade para matar judeus, protegidos pela lei e por autoridades
locais, como acontece hoje nos territórios sob o domínio da
Autoridade Palestina.
O caminho para a paz terá início somente com o término
do terror e quando um terrorista não mais for considerado "moderado".
* Daniel Gazit, 58 anos, historiador e cientista político, é embaixador
do Estado de Israel no Brasil. Este artigo foi originalmente publicado no
jornal Folha de São Paulo, na seção Debates, no dia
24 de março de 2.004