Visão Judaica - Edição N° 23
:. A hipocrisia humana diante da barbárie .:

Por: Miguel Gus *

Após a tragédia de Madrid, o site Terra listou os principais ataques terroristas ocorridos no mundo desde o fatídico 11 de setembro. Por mais incrível que possa parecer nenhum ataque dentro de Israel constou na listagem. Mesmo o massacre de Natânia, ocorrido no Pessach de 2002, foi excluído. Diante de um protesto por mim redigido à editoria de notícias do Terra o editor justificou-se: "a fonte da informação era a Reuters e para essa agência o conflito entre Israel e palestinos não havia sido incluído pois ele arrasta-se no tempo". Não intimidou-se o editor ao emitir essa desculpa, mesmo quando na lista constavam atentados na Chechênia, Colômbia, Paquistão, Índia e Caxemira, locais onde os conflitos não são aquilo que podemos classificar de pontuais. Hoje, ao acessar o site, constata-se que a listagem mudou. O título é: "os principais ataques terroristas na Europa nos últimos 30 anos”. Inclusive, agora, a Reuters passou a ser citada como fonte da informação. Este fato nos expõe, claramente, de forma cruel, à hipocrisia humana diante de mais um ato de barbárie.
Após a morte de 200 civis que se dirigiam para o seu dia-a-dia, o governo espanhol e a União Européia, apressou-se em condenar os ataques, indicar o grupo separatista ETA como o culpado dos atentados e instituir o 11/3 como dia internacional das vítimas do terror. Essas são as mesmas entidades que relutam em incluir, por exemplo, o Hamas como grupo terrorista. Mesmo que ele pregue o terror contra civis como uma forma legítima de luta para destruir um Estado; mesmo que ele glorifique os suicidas assassinos como heróis de uma causa. Porque essa diferença? Mas afinal, porque o dia das vítimas do terror não é o dia 30/4, ou dia 9/8, ou o dia 10/11 ou qualquer outro dia quando bombas e suicidas se explodiram em Israel, Chechênia, Paquistão ou Índia? Será que existem causas e causas? À algumas é permitido tudo, à outras condena-se? Quem tem o direito de julgamento? Será que para a UE os separatistas bascos têm uma causa menor?
Certamente, a explicação para essa diferenciação não está na causa e sim nas vítimas. O que existem são vítimas e vítimas. Escancara-se a hipocrisia humana. No caso de Israel, no momento em que lá são assassinados civis, não são crianças e trabalhadores que morreram. Mandou-se para o inferno os diabos sionistas, os representantes do império do ocidente, os imperialistas opressores, os donos do dinheiro mundial. Portanto, aceita-se. O terror justifica-se. As causas são nobres. Não existe barbárie. Na televisão surge um ônibus destruído e os religiosos, a distância, juntando os pedaços humanos. Mostra-se um vídeo do suicida com uma faixa na cabeça e fuzil na mão, lendo um texto preparado. Faz-se um frio levantamento estatístico dos números e encerra-se a notícia.
E quanto aos civis turcos, russos, chechenos, indianos, iraquianos ou paquistaneses? Estes fazem parte do outro lado do mundo. Um mundo distante, quase Júpiter. Condenar a morte deles seria quase como condenar a morte daqueles que nunca existiram.
Portanto, seleciona-se a condenação. Existem aqueles que criam termos para disfarçar um raciocínio sofismático. “Se existe o terror de estado justifica-se o terror contra civis para punir um Estado criminoso”. Esquecem-se que os mecanismos da democracia punem aqueles líderes que cometem erros. E contra o terror? Como punir aquele que não tem nome, uniforme, patente ou mesmo nacionalidade? Como punir aquele que se esconde atrás de uma carta assinada genericamente e entregue a uma rede de TV que finge imparcialidade? Como punir aquele que se explodiu em nome de D-us? Por acaso alguém lembra do nome de algum dos imbecis que atiraram aviões contra as torres americanas e mataram quase 3000 civis? Os que não enxergam as “sutis” diferenças entre os erros de Estado e os crimes do terror são incapazes de identificar a fronteira da ética humana.
A humanidade, para justificar a sua hipocrisia, descobriu a condenação seletiva ao terror. Sendo assim, terminar com essa barbárie será improvável. Enquanto existirem vítimas civis que não são tão vítimas e que podem ser mortas por uma causa considerada justa ele será justificado e patrocinado por alguém.

* Miguel Gus é médico cardiologista em Porto Alegre

 


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