Por: Miguel Gus
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Após a tragédia de Madrid, o site Terra listou
os principais ataques terroristas ocorridos no mundo desde o
fatídico 11 de setembro. Por mais incrível que
possa parecer nenhum ataque dentro de Israel constou na listagem.
Mesmo o massacre de Natânia, ocorrido no Pessach de 2002,
foi excluído. Diante de um protesto por mim redigido à editoria
de notícias do Terra o editor justificou-se: "a fonte
da informação era a Reuters e para essa agência
o conflito entre Israel e palestinos não havia sido incluído
pois ele arrasta-se no tempo". Não intimidou-se o
editor ao emitir essa desculpa, mesmo quando na lista constavam
atentados na Chechênia, Colômbia, Paquistão, Índia
e Caxemira, locais onde os conflitos não são aquilo
que podemos classificar de pontuais. Hoje, ao acessar o site,
constata-se que a listagem mudou. O título é: "os
principais ataques terroristas na Europa nos últimos 30
anos”. Inclusive, agora, a Reuters passou a ser citada
como fonte da informação. Este fato nos expõe,
claramente, de forma cruel, à hipocrisia humana diante
de mais um ato de barbárie.
Após a morte de 200 civis que se dirigiam para o seu dia-a-dia,
o governo espanhol e a União Européia, apressou-se
em condenar os ataques, indicar o grupo separatista ETA como
o culpado dos atentados e instituir o 11/3 como dia internacional
das vítimas do terror. Essas são as mesmas entidades
que relutam em incluir, por exemplo, o Hamas como grupo terrorista.
Mesmo que ele pregue o terror contra civis como uma forma legítima
de luta para destruir um Estado; mesmo que ele glorifique os
suicidas assassinos como heróis de uma causa. Porque essa
diferença? Mas afinal, porque o dia das vítimas
do terror não é o dia 30/4, ou dia 9/8, ou o dia
10/11 ou qualquer outro dia quando bombas e suicidas se explodiram
em Israel, Chechênia, Paquistão ou Índia?
Será que existem causas e causas? À algumas é permitido
tudo, à outras condena-se? Quem tem o direito de julgamento?
Será que para a UE os separatistas bascos têm uma
causa menor?
Certamente, a explicação para essa diferenciação
não está na causa e sim nas vítimas. O que
existem são vítimas e vítimas. Escancara-se
a hipocrisia humana. No caso de Israel, no momento em que lá são
assassinados civis, não são crianças e trabalhadores
que morreram. Mandou-se para o inferno os diabos sionistas, os
representantes do império do ocidente, os imperialistas
opressores, os donos do dinheiro mundial. Portanto, aceita-se.
O terror justifica-se. As causas são nobres. Não
existe barbárie. Na televisão surge um ônibus
destruído e os religiosos, a distância, juntando
os pedaços humanos. Mostra-se um vídeo do suicida
com uma faixa na cabeça e fuzil na mão, lendo um
texto preparado. Faz-se um frio levantamento estatístico
dos números e encerra-se a notícia.
E quanto aos civis turcos, russos, chechenos, indianos, iraquianos
ou paquistaneses? Estes fazem parte do outro lado do mundo. Um
mundo distante, quase Júpiter. Condenar a morte deles
seria quase como condenar a morte daqueles que nunca existiram.
Portanto, seleciona-se a condenação. Existem aqueles
que criam termos para disfarçar um raciocínio sofismático. “Se
existe o terror de estado justifica-se o terror contra civis
para punir um Estado criminoso”. Esquecem-se que os mecanismos
da democracia punem aqueles líderes que cometem erros.
E contra o terror? Como punir aquele que não tem nome,
uniforme, patente ou mesmo nacionalidade? Como punir aquele que
se esconde atrás de uma carta assinada genericamente e
entregue a uma rede de TV que finge imparcialidade? Como punir
aquele que se explodiu em nome de D-us? Por acaso alguém
lembra do nome de algum dos imbecis que atiraram aviões
contra as torres americanas e mataram quase 3000 civis? Os que
não enxergam as “sutis” diferenças
entre os erros de Estado e os crimes do terror são incapazes
de identificar a fronteira da ética humana.
A humanidade, para justificar a sua hipocrisia, descobriu a condenação
seletiva ao terror. Sendo assim, terminar com essa barbárie
será improvável. Enquanto existirem vítimas
civis que não são tão vítimas e que
podem ser mortas por uma causa considerada justa ele será justificado
e patrocinado por alguém.
* Miguel Gus é médico
cardiologista em Porto Alegre