Por: Daniel Mariaschin *
O que representa para a B’nai B’rith Internacional ter assento
permanente como ONG nas Nações Unidas?
Durante anos as Nações Unidas vêm sendo criticadas, tanto
dentro quanto fora da comunidade judaica, como uma organização
inútil; inútil para levar a cabo a missão assinalada em
sua Carta Magna; inútil em promover a paz e combater com sucesso o terrorismo
oficial de Estado. As críticas se voltam fundamentalmente à imensa
e onerosa burocracia.
Em relação às preocupações do povo judeu,
a Assembléia Geral se constituiu em uma maioria automática de
países árabes, que poderia redigir uma resolução
estabelecendo que o mundo é quadrado e obteria uma votação
favorável de 94 a 4, com a abstenção da União Européia.
Ano após anos, presenciamos em Genebra na reunião da Comissão
de Direitos Humanos da ONU o ritual dos maiores abusos cometidos contra estes
mesmos diretos humanos. Em passado recente esta Comissão foi presidida
por países como a Líbia, e teve funcionários de países
como a Sudão e a Coréia do Norte. Nesta Comissão, Israel é colocado
como uma espécie de cenário teatral para a opinião pública,
julgado e executado nos meios de difusão da esquerda européia,
em conjunto com a extrema direita da Liga Árabe.
Por quê então nos preocupamos em assistir às reuniões
em Genebra?
O fazemos porque existe uma áurea mundial de prestigio em torno da ONU
e de suas comissões, mesmo que seja imerecida. Mas, é impossível
de ignorá-la. Na Europa, onde a crença no valor das estruturas
legais internacionais e nas instituições é quase sagrada,
não podemos permanecer em silêncio quando Israel é condenado
injusta e reiteradamente.
Estamos presentes porque alguém deve denunciar que a Comissão
traiu seus ideais e apoiou ditadores, mesmo que isto signifique a perversão
da agenda dos direitos humanos, com firme propósito de condenar a Israel.
Sabemos que por um acordo não escrito de longa data, a Comissão
organiza suas discussões de forma temática, debatendo certos
tipos de violações internacionais aos direitos humanos, sem mencionar
países específicos, para não ofender inclusive ao mais
brutal dos regimes muitos dos quais, são atualmente membros da Comissão.
A exceção é claro, de Israel, que é condenado nominalmente,
item após item, na agenda da Comissão.
Ressaltamos também alguns membros que compõem a Comissão
em 2004: o Sudão, nação que teve uma guerra civil genocida
e onde ainda existe a escravidão; o Zimbabwe, onde a ditadura de Mugabe
pratica uma política de apropriação de terras sem paralelo
em outras partes do mundo, além da fraude eleitoral amparada por uma
ditadura férrea; e a Arábia Saudita, onde as mulheres não
têm nem os direitos civis mais básicos. É claro que Cuba
também poderá ter assento nesta Comissão, tornando a julgar
Israel, sem se dar a menor importância ao que acontece com os dissidentes
e com os jornalistas presos sob o regime de Fidel Castro.
A injustiça que implica em ser julgado por um tribunal que inclui em
seus membros os piores violadores dos direitos humanos do mundo é tão
profunda que não podemos nos atrever a ignorá-la. Nós,
como líderes da comunidade judaica, podemos chamar a atenção
para este grotesco desequilíbrio, de atrocidades monstruosas, combinadas à covardia
diplomática e ao fanatismo anti-sionista que a Comissão da ONU
demonstra ano após ano.
Estamos em Genebra, ano após ano, porque ninguém mais além
de nós se levantará e dirá que a Comissão de Direitos
Humanos da forma como está constituída é uma vergonha
e precisa de reformas substanciais.
Falando francamente, há poucas esperanças que esta Comissão
mude sua estrutura desenhada para uma frenética agressão a Israel.
Se isto acontecer neste ano será um milagre, mesmo que o fato da Comissão
ser presidida pela Austrália represente um sopro de otimismo. Mesmo
que neste ano tenhamos novas desilusões, devemos plantar sementes de
mudança, que poderão dar frutos no futuro.
Nós estamos em Genebra todos os anos, com a esperança de podermos
testemunhar uma ONU mais justa, onde o idioma dos direitos humanos não
mascare violações impunes e jogos de poder. Enquanto manifestamos
nosso protesto por esta forma de condução dos direitos humanos
pela ONU e continuamos atuando dentro do sistema, expressamos nosso desgosto
frente ao processo atual, ao mesmo tempo em que, podemos trabalhar para a criação
de instituições internacionais mais justas e eqüitativas.
* Daniel Mariaschin é vice-presidente executivo da B´nai B´rith
Internacional