Visão Judaica - Edição N° 23
:. A B’nai B’rith e a Comissão de Direitos Humanos da ONU .:



Por: Daniel Mariaschin *

O que representa para a B’nai B’rith Internacional ter assento permanente como ONG nas Nações Unidas?
Durante anos as Nações Unidas vêm sendo criticadas, tanto dentro quanto fora da comunidade judaica, como uma organização inútil; inútil para levar a cabo a missão assinalada em sua Carta Magna; inútil em promover a paz e combater com sucesso o terrorismo oficial de Estado. As críticas se voltam fundamentalmente à imensa e onerosa burocracia.
Em relação às preocupações do povo judeu, a Assembléia Geral se constituiu em uma maioria automática de países árabes, que poderia redigir uma resolução estabelecendo que o mundo é quadrado e obteria uma votação favorável de 94 a 4, com a abstenção da União Européia.
Ano após anos, presenciamos em Genebra na reunião da Comissão de Direitos Humanos da ONU o ritual dos maiores abusos cometidos contra estes mesmos diretos humanos. Em passado recente esta Comissão foi presidida por países como a Líbia, e teve funcionários de países como a Sudão e a Coréia do Norte. Nesta Comissão, Israel é colocado como uma espécie de cenário teatral para a opinião pública, julgado e executado nos meios de difusão da esquerda européia, em conjunto com a extrema direita da Liga Árabe.
Por quê então nos preocupamos em assistir às reuniões em Genebra?
O fazemos porque existe uma áurea mundial de prestigio em torno da ONU e de suas comissões, mesmo que seja imerecida. Mas, é impossível de ignorá-la. Na Europa, onde a crença no valor das estruturas legais internacionais e nas instituições é quase sagrada, não podemos permanecer em silêncio quando Israel é condenado injusta e reiteradamente.
Estamos presentes porque alguém deve denunciar que a Comissão traiu seus ideais e apoiou ditadores, mesmo que isto signifique a perversão da agenda dos direitos humanos, com firme propósito de condenar a Israel.
Sabemos que por um acordo não escrito de longa data, a Comissão organiza suas discussões de forma temática, debatendo certos tipos de violações internacionais aos direitos humanos, sem mencionar países específicos, para não ofender inclusive ao mais brutal dos regimes muitos dos quais, são atualmente membros da Comissão. A exceção é claro, de Israel, que é condenado nominalmente, item após item, na agenda da Comissão.
Ressaltamos também alguns membros que compõem a Comissão em 2004: o Sudão, nação que teve uma guerra civil genocida e onde ainda existe a escravidão; o Zimbabwe, onde a ditadura de Mugabe pratica uma política de apropriação de terras sem paralelo em outras partes do mundo, além da fraude eleitoral amparada por uma ditadura férrea; e a Arábia Saudita, onde as mulheres não têm nem os direitos civis mais básicos. É claro que Cuba também poderá ter assento nesta Comissão, tornando a julgar Israel, sem se dar a menor importância ao que acontece com os dissidentes e com os jornalistas presos sob o regime de Fidel Castro.
A injustiça que implica em ser julgado por um tribunal que inclui em seus membros os piores violadores dos direitos humanos do mundo é tão profunda que não podemos nos atrever a ignorá-la. Nós, como líderes da comunidade judaica, podemos chamar a atenção para este grotesco desequilíbrio, de atrocidades monstruosas, combinadas à covardia diplomática e ao fanatismo anti-sionista que a Comissão da ONU demonstra ano após ano.
Estamos em Genebra, ano após ano, porque ninguém mais além de nós se levantará e dirá que a Comissão de Direitos Humanos da forma como está constituída é uma vergonha e precisa de reformas substanciais.
Falando francamente, há poucas esperanças que esta Comissão mude sua estrutura desenhada para uma frenética agressão a Israel. Se isto acontecer neste ano será um milagre, mesmo que o fato da Comissão ser presidida pela Austrália represente um sopro de otimismo. Mesmo que neste ano tenhamos novas desilusões, devemos plantar sementes de mudança, que poderão dar frutos no futuro.
Nós estamos em Genebra todos os anos, com a esperança de podermos testemunhar uma ONU mais justa, onde o idioma dos direitos humanos não mascare violações impunes e jogos de poder. Enquanto manifestamos nosso protesto por esta forma de condução dos direitos humanos pela ONU e continuamos atuando dentro do sistema, expressamos nosso desgosto frente ao processo atual, ao mesmo tempo em que, podemos trabalhar para a criação de instituições internacionais mais justas e eqüitativas.

* Daniel Mariaschin é vice-presidente executivo da B´nai B´rith Internacional

Voltar