Visão Judaica - Edição N° 23
:. “Haatzmaut” do espírito .:

Por:Vittorio Corinaldi *

Todo ano, as festividades do “Iom Haatzmaut” se encerram com a cerimônia de entrega do “Prêmio Israel” a personalidades que tenham a seu crédito contribuições importantes em terrenos da vida pública do país: ciência, arte, contexto social, cultura em sentido amplo, formação de uma conciência nacional, etc.
A designação dos contemplados é feita anualmente por uma comissão em que, ao lado de expoentes reconhecidos dos setores citados, tomam parte altos representantes do governo como o Ministro da Educação e Cultura ou funcionários ministeriais, bem como deputados do Knesset ou individuos que possam dar expressão às diferentes camadas da sociedade israelense.
E a entrega dos prêmios é geralmente feita pelo Presidente da República, traduzindo assim o alto prestígio e a importância atribuída ao ato e ao atestado de reconhecimento que ele vem sancionar.
Anos atrás, dentre as categorias premiadas foi incluído o cinema. E o prêmio foi outorgado a David Perlow, de cujo falecimento comentamos recentemente em Visão Judaica, não só por se tratar do mestre iniciador do cinema israelense, como também pelo interêsse particular que ele desperta no leitor brasileiro por sua origem paulista.
Apesar da seriedade nos critérios de avaliação, não faltaram na história dos prêmios Israel casos de discordância, provocados por diferentes visões entre a atuação do candidato e as opiniões de parte dos membros do juri – geralmente sob o fundo de posições políticas antagônicas: lembramos o caso do falecido Prof. Ieshaiahu Leibovitz, representante insigne do moderno pensamento judaico, portador de idéias e conceitos de elevado humanismo, e dono de uma retórica direta e ferina que muito incomodava aos setores da direita mais reacionária ou do establishment religioso clerical.
Estes contestaram a escolha do candidato, alegando argumentos pouco honrosos para o caráter de sua missão de julgamento: o que, em fim do desenrolar do processo, culminou com a desistência do Prof. Leibovitz à distinção que lhe era proposta.
Este fato permanece como uma mancha de cafajestice na trajetória cultural do país. Mas infelizmente não é o único: ainda agora, poucos dias antes da data do evento, deu-se uma repetição do caso – felizmente sem chegar ao lamentável desfecho do episódio de Leibovitz.
O escultor Ygal Tomarkin é sem dúvida um artista da mais alta qualidade. Seus trabalhos em chapa de aço, com frequente uso criativo de elementos de sucata, texturas brutas ou cores primárias, são sempre uma expressão forte e autêntica de momentos muito relevantes da experiência israelense ou judaica. Nem se limita ele apenas à escultura, fazendo igualmente uso de outras técnicas onde se identifica seu traço pessoal e sua formação “instintivamente erudita” frente a questões de vida e de cultura.
Seu monumento às vítimas do Holocausto, situado na Praça Rabin em Tel Aviv, está certamente entre o que se fez de melhor como memorial da Shoá. Sem figurativismos piegas ou retóricas bombásticas, ele usou de um simbolismo cru, simples e explícito, e jogou com o efeito espacial de grandes corpos geométricos elementares, através dos quais o expectador pode se movimentar e assimilar o impacto gráfico que as sombras projetadas e a luz filtrada através de vidros coloridos associam à imagem da estrela amarela de David, trágico distintivo das vítimas do nazismo. O mal sucedido paisagismo com que a prefeitura de Tel Aviv achou dever completar a instalação do monumento, não chega a anular o forte impacto emocional que ele provoca.
No entanto Tomarkin, que é declaradamente homem da esquerda sionista equilibrada, usa de uma linguagem extemamente áspera e sarcástica ao se referir à ortodoxia religiosa obscurantista ou às manifestações nacionalistas pseudo-messiânicas que têm no Partido Nacional Religioso seu porta-voz, nos assentamentos de Gaza, Judéia e Samária sua ponta de lança militante, e na linha direitista do Likud sua legitimização por vezes contraditória e incoerente.
Tomarkin também não se deixa levar pelas “vacas sagradas” da alegada discriminação das comunidades de origem oriental – alegação que teve sua base real nos difíceis primeiros anos do Estado, mas que continua sendo desproporcionalmente utilizada como arma de promoção política.
Isto serviu de motivo para tais elementos se oporem violentamente à concessão do prêmio, levando sua oposição até uma ação judicial junto ao Tribunal Supremo.
Numa confusa mistura de argumentação de fundo religioso-nacional-ufanista e de ignorância e indiferença quanto à natureza do fenômeno da Arte, eles tentaram fazer anular a decisão da comissão julgadora, envolvendo no assunto a pretensa falta de respeito do artista para aqueles controvertidos setores do público israelense.
O Tribunal negou-se a se prestar a esta evidente manobra, e rejeitou a ação considerando-a extranha à natureza do prêmio, e separando o julgamento artístico e intelectual de qualquer maior ou menor empatia pessoal ligada com o artista. Com isto se abriu o caminho para a inclusão deste entre os premiados.
Há neste episódio mais um sintoma da perigosa e irresponsável tentativa de setores interesseiros, de interferir tanto no endereço de uma cultura livre e aberta, quanto na orientação independente e objetiva da Justiça israelense. E embora possa esta parecer uma questão de importância secundária diante dos fatos políticos intricados e graves que atualmente ocupam o noticiário internacional e o medio-oriental em particular, não se pode e não se deve fechar olhos e ouvidos para manifestações no campo do espírito em que se espera de Israel aquela característica que sempre a distinguiu como país e como povo: de clareza moral, corajem intelectual, vanguarda humanística.
Não menos do que pela supremacia no campo da defesa, é na manutenção de sua identidade ética (de que também a Arte é uma expressão) que Israel poderá sobreviver e se afirmar como centro inspirador para todos os judeus e como “Or lagoím” – luz para os povos – fundamento de sua vocação.

* Vittorio Corinaldi é arquiteto e vive em Tel Aviv, Israel.



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