Por:Vittorio Corinaldi *
Todo ano, as festividades do “Iom Haatzmaut” se encerram com
a cerimônia de entrega do “Prêmio Israel” a personalidades
que tenham a seu crédito contribuições importantes em
terrenos da vida pública do país: ciência, arte, contexto
social, cultura em sentido amplo, formação de uma conciência
nacional, etc.
A designação dos contemplados é feita anualmente por
uma comissão em que, ao lado de expoentes reconhecidos dos setores
citados, tomam parte altos representantes do governo como o Ministro da Educação
e Cultura ou funcionários ministeriais, bem como deputados do Knesset
ou individuos que possam dar expressão às diferentes camadas
da sociedade israelense.
E a entrega dos prêmios é geralmente feita pelo Presidente da
República, traduzindo assim o alto prestígio e a importância
atribuída ao ato e ao atestado de reconhecimento que ele vem sancionar.
Anos atrás, dentre as categorias premiadas foi incluído o cinema.
E o prêmio foi outorgado a David Perlow, de cujo falecimento comentamos
recentemente em Visão Judaica, não só por se tratar
do mestre iniciador do cinema israelense, como também pelo interêsse
particular que ele desperta no leitor brasileiro por sua origem paulista.
Apesar da seriedade nos critérios de avaliação, não
faltaram na história dos prêmios Israel casos de discordância,
provocados por diferentes visões entre a atuação do
candidato e as opiniões de parte dos membros do juri – geralmente
sob o fundo de posições políticas antagônicas:
lembramos o caso do falecido Prof. Ieshaiahu Leibovitz, representante insigne
do moderno pensamento judaico, portador de idéias e conceitos de elevado
humanismo, e dono de uma retórica direta e ferina que muito incomodava
aos setores da direita mais reacionária ou do establishment religioso
clerical.
Estes contestaram a escolha do candidato, alegando argumentos pouco honrosos
para o caráter de sua missão de julgamento: o que, em fim do
desenrolar do processo, culminou com a desistência do Prof. Leibovitz à distinção
que lhe era proposta.
Este fato permanece como uma mancha de cafajestice na trajetória cultural
do país. Mas infelizmente não é o único: ainda
agora, poucos dias antes da data do evento, deu-se uma repetição
do caso – felizmente sem chegar ao lamentável desfecho do episódio
de Leibovitz.
O escultor Ygal Tomarkin é sem dúvida um artista da mais alta
qualidade. Seus trabalhos em chapa de aço, com frequente uso criativo
de elementos de sucata, texturas brutas ou cores primárias, são
sempre uma expressão forte e autêntica de momentos muito relevantes
da experiência israelense ou judaica. Nem se limita ele apenas à escultura,
fazendo igualmente uso de outras técnicas onde se identifica seu traço
pessoal e sua formação “instintivamente erudita” frente
a questões de vida e de cultura.
Seu monumento às vítimas do Holocausto, situado na Praça
Rabin em Tel Aviv, está certamente entre o que se fez de melhor como
memorial da Shoá. Sem figurativismos piegas ou retóricas bombásticas,
ele usou de um simbolismo cru, simples e explícito, e jogou com o
efeito espacial de grandes corpos geométricos elementares, através
dos quais o expectador pode se movimentar e assimilar o impacto gráfico
que as sombras projetadas e a luz filtrada através de vidros coloridos
associam à imagem da estrela amarela de David, trágico distintivo
das vítimas do nazismo. O mal sucedido paisagismo com que a prefeitura
de Tel Aviv achou dever completar a instalação do monumento,
não chega a anular o forte impacto emocional que ele provoca.
No entanto Tomarkin, que é declaradamente homem da esquerda sionista
equilibrada, usa de uma linguagem extemamente áspera e sarcástica
ao se referir à ortodoxia religiosa obscurantista ou às manifestações
nacionalistas pseudo-messiânicas que têm no Partido Nacional
Religioso seu porta-voz, nos assentamentos de Gaza, Judéia e Samária
sua ponta de lança militante, e na linha direitista do Likud sua legitimização
por vezes contraditória e incoerente.
Tomarkin também não se deixa levar pelas “vacas sagradas” da
alegada discriminação das comunidades de origem oriental – alegação
que teve sua base real nos difíceis primeiros anos do Estado, mas
que continua sendo desproporcionalmente utilizada como arma de promoção
política.
Isto serviu de motivo para tais elementos se oporem violentamente à concessão
do prêmio, levando sua oposição até uma ação
judicial junto ao Tribunal Supremo.
Numa confusa mistura de argumentação de fundo religioso-nacional-ufanista
e de ignorância e indiferença quanto à natureza do fenômeno
da Arte, eles tentaram fazer anular a decisão da comissão julgadora,
envolvendo no assunto a pretensa falta de respeito do artista para aqueles
controvertidos setores do público israelense.
O Tribunal negou-se a se prestar a esta evidente manobra, e rejeitou a ação
considerando-a extranha à natureza do prêmio, e separando o
julgamento artístico e intelectual de qualquer maior ou menor empatia
pessoal ligada com o artista. Com isto se abriu o caminho para a inclusão
deste entre os premiados.
Há neste episódio mais um sintoma da perigosa e irresponsável
tentativa de setores interesseiros, de interferir tanto no endereço
de uma cultura livre e aberta, quanto na orientação independente
e objetiva da Justiça israelense. E embora possa esta parecer uma
questão de importância secundária diante dos fatos políticos
intricados e graves que atualmente ocupam o noticiário internacional
e o medio-oriental em particular, não se pode e não se deve
fechar olhos e ouvidos para manifestações no campo do espírito
em que se espera de Israel aquela característica que sempre a distinguiu
como país e como povo: de clareza moral, corajem intelectual, vanguarda
humanística.
Não menos do que pela supremacia no campo da defesa, é na manutenção
de sua identidade ética (de que também a Arte é uma
expressão) que Israel poderá sobreviver e se afirmar como centro
inspirador para todos os judeus e como “Or lagoím” – luz
para os povos – fundamento de sua vocação.
* Vittorio Corinaldi é arquiteto e vive em Tel Aviv,
Israel.