O arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, voltou a criar polêmica há pouco mais de duas semanas ao afirmar à revista Press & Advertising, que os católicos e ciganos foram mais sacrificados que os judeus na II Guerra Mundial, “mas isso não aparece porque os judeus têm a propaganda do mundo”. A Federação Israelita do Rio Grande do Sul (Firs) divulgou nota repudiando as declarações.
Dias depois, o prelado concedeu entrevista ao jornal Zero Hora. Dom Dadeus foi além. "Quantos milhões de católicos foram vítimas do Holocausto, 22 milhões? Vinte e dois milhões foram ao todo. Os judeus se dizem as maiores vítimas do Holocausto. Mas as maiores vítimas foram os ciganos. Foram exterminados. Isso eles não falam", sustenta.
Resposta
Henry S. Chmelnitsky, presidente da Federação Israelita do Rio Grande do Sul, respondeu às declarações do Arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, em nota oficial, com os seguintes termos:
“Nos surpreendem as declarações do arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, publicadas pela revista Press. Não é a primeira vez que o religioso se refere ao Holocausto de forma distorcida. Nós, brasileiros de todas as origens, construímos através de décadas uma tradição de convivência pacífica e harmoniosa. Afirmações como as de dom Dadeus não contribuem em nada para este modelo que serve de inspiração a outros países. Reduzir ou relativizar o Holocausto agride a memória de milhões de mortos numa guerra iniciada pelo fanatismo e pela intolerância.
O próprio Vaticano, nos últimos anos, adotou uma postura aberta e transparente em relação ao assassinato de seis milhões de judeus. Aliás, as relações entre a Igreja Católica e a comunidade judaica nunca foram tão boas. Em maio, o Papa Bento XVI visitará Israel.
Na contramão dessa realidade, mais uma vez dom Dadeus destoa dos seus semelhantes ao usar argumentos sem qualquer valor moral ou científico. Morreram menos judeus na II Guerra porque havia e ainda há menos judeus no mundo. Proporcionalmente, a chacina minimizada pelo arcebispo significou a aniquilação da maior parte de um povo que já era pequeno.
Manifestamos a esperança de que dom Dadeus reflita sobre as suas declarações. Ele é um homem de fé e de paz. Esteve na posse da diretoria da Federação Israelita há poucos dias, o que muito honrou e sensibilizou a comunidade judaica gaúcha. Entretanto, ao reproduzir estereótipos criados pelos nazistas, dom Dadeus se posiciona do lado errado da História. Suas declarações agridem não só aos judeus, mas aos milhões de ciganos, portadores de deficiência, homossexuais e adversários do regime nazista que foram igualmente assassinados.
A única forma de impedir que a barbárie perpetrada pelos nazistas se repita - contra os judeus ou contra outras etnias ou segmentos religiosos — é respeitar sempre a memória, com seriedade, fraternidade e honestidade. É isto o que esperamos de dom Dadeus Grings e dos homens e mulheres comprometidos com a verdade e com a justiça. Porto Alegre, 26 de março de 2009. Henry S. Chmelnitsky — Presidente da Federação Israelita do Rio Grande do Sul”.
Na Zero Hora
“Não falei nada contra eles", afirmou dom Dadeus sobre polêmica com os judeus que o arcebispo abriu na revista Press & Advertising, ao conceder entrevista ao Zero Hora.
Zero Hora – Sua entrevista causou muito desconforto. O senhor não imaginava que isso ocorreria?
Dom Dadeus Grings – Eu não falei contra o Holocausto, pelo contrário, acho que os judeus fazem muito bem em lembrar as suas vítimas. É justo. Sofreram uma dor terrível. O que não acho justo é que se esqueçam todos os demais. Os ciganos foram dizimados, os homossexuais, e não se fala nada. A União Soviética, em 70 anos de domínio, matou 110 milhões de pessoas, isso não se pode esquecer. Em defesa de um grupo, esquecer os demais, não me parece muito justo. Não estou diminuindo a lembrança que os judeus fazem com muita garra. Mas temos de lembrar também dos demais. Ninguém fala quase da tragédia do marxismo. No nazismo, foram 26 milhões de vítimas.
ZH – Para ressaltar as outras vítimas é necessário fazer comparações com o Holocausto, já que é um assunto...
Dom Dadeus – Não, não, os judeus, com muita razão, prezam e homenageiam os seus mortos. Mas nós não podemos omitir os nossos.
ZH – Mas os judeus foram mortos por serem judeus...
Dom Dadeus – E os cristãos, por serem cristãos. Na Iugoslávia, se alguém fizesse um batizado, era morto. Então, também temos de denunciar com muita clareza que os regimes totalitários que fazem prevalecer ideias sobre a vida são sempre muito prejudiciais à humanidade.
ZH – O senhor acha que foi mal interpretado?
Dom Dadeus – Acho que sim, eu não falei nada contra eles.
ZH – Em 2003, o senhor já havia dito que haviam morrido 1 milhão de judeus, não 6 milhões.
Dom Dadeus – Em 2003, republicaram um artigo que era de 1990 e poucos. Reeditaram aqui.
ZH – Mas o senhor escreveu...
Dom Dadeus – Quando publicaram aqui em Porto Alegre é que repercutiu.
ZH – Isso não pode estremecer as relações inter-religiosas?
Dom Dadeus – Não, pelo contrário, até é bom para esclarecer os pontos.
Desdobramentos
O professor e jornalista Luis Milman escreveu carta a uma jornalista do Zero Hora, que se manifestara de maneira ambígua em sua coluna naquele jornal, em relação à fala do arcebispo dom Dadeus. “Senhora Jornalista: Em sua coluna em ZH de hoje, há o registro de uma declaração do arcebispo de POA a uma revista local, segundo a qual mais católicos morreram do que judeus na 2ª Guerra e que os judeus "têm a propaganda do mundo". A senhora comenta que a entrevista traz "a marca da polêmica". Pergunto: a qual polêmica a senhora (não o arcebispo, que é um antissemita e faz uma declaração neonazista) a senhora se refere? Por favor, ilustre-me a respeito para que, como judeu, autor de livros e artigos sobre o neonazismo e o negacionismo, venha a saber o ponto que lhe gera incerteza. Escrever, como a senhora o fez, que "é polêmico" afirmar que judeus detêm a propaganda do mundo" é próprio de antissemitas desavergonhados. Não é o seu caso, mas cuidado com as palavras. Quanto ao número de judeus mortos na guerra "ter sido menor" do que o de católicos, está embutida aí uma asneira trivial, também própria de militantes antissemitas. Foram alvos de genocídio os judeus, não os católicos, e o assombroso número de mortes de judeus, porque eram judeus (a senhora entendeu, não é!) dizimou quase a metade da população judaica da Europa. Esse arcebispo Dadeus é um nazista e não tem polêmica alguma sobre o que ele disse. Imagine quase a metade de católicos assassinados porque eram católicos. Seriam, na Europa, cerca de 200 milhões de pessoas, no mínimo. Meça por aí o tamanho da sanha antijudaica desse nazi-arcebispo. E ainda há jornalistas que vêm escrever sobre "polêmica". Faça-nos, a nós que temos compromisso com a verdade e respeito pelas vítimas do Holocausto, o favor de avaliar melhor o que nazistas declaram, sejam eles padres, bispos ou arcebispos. Prof. Luis Milman – UFRGS e Conselheiro do Movimento de Justiça e Direitos Humanos”.
Acordo
Na manhã de 30 de março, Henry S. Chmelnitsky, presidente da Federação Israelita gaúcha, e dom Dadeus Grings, arcebispo metropolitano de Porto Alegre, chegaram a um acordo em reunião mediada pelo Ministério Público. Ambos saíram reafirmando a importância e necessidade do diálogo interreligioso e da ampla liberdade e respeito entre todos os grupos. O atrito surgido depois da declaração do bispo à Press foi dado como superado.
A reunião foi coordenada pelo deputado federal do PDT Carlos Eduardo Vieira da Cunha e houve uma nota conjunta da FIRS e dom Dadeus:
“O arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, e o presidente da Federação Israelita do Rio Grande do Sul, Henry Chmelnitsky, se reuniram na manhã desta segunda-feira, em Porto Alegre. No encontro, discutiram caminhos para aprofundar o bom relacionamento entre a Igreja Católica e a comunidade judaica do Rio Grande do Sul. Apoiados pelo respeito mútuo e pela tradição de convivência harmoniosa e pacífica dos vários segmentos que compõem a sociedade gaúcha, o arcebispo da Capital e o presidente da Federação Israelita decidiram:
1. Aprofundar e valorizar cada vez mais o diálogo interreligioso no Rio Grande do Sul, no Brasil e no mundo, por entender que a aproximação entre culturas é saudável e fundamental para o exercício pleno da democracia e das liberdades individuais e coletivas.
2. Rejeitar qualquer tentativa de negação ou de relativização do Holocausto que matou 6 milhões de judeus na Europa.
3. Repudiar a utilização de ideias que possam incentivar o antissemismo e a discriminação étnica, religiosa ou racial contra qualquer indivíduo ou coletividade.
Porto Alegre, 30 de março de 2009”.