Estaríamos perdendo a capacidade de distinguir entre o que sabemos, a partir de nossa própria experiência, que é verdadeiro ou verossímil, e aquilo que outros tentam fazer com que o mundo pense a nosso respeito?
Em um suplemento do Jerusalem Post publicado há duas semanas para celebrar o encerramento da Páscoa judaica, Esther Wachsman, cujo filho Nachshon foi seqüestrado pelo Hamas em 1994 e assassinado numa aldeia palestina situada perto de Jerusalém, quando o exército tentava resgatá-lo, descreve comoventemente como o seu nome foi escolhido.
Terceira criança de sua família, ele nasceu na Páscoa de 1975 e seus pais escolheram seu nome em homenagem a Nachshon, o filho de Aminadav, o homem que teve a coragem de confiar em D-us e entrar nas águas, o homem que pulou no Mar Vermelho acreditando que seu povo seria capaz de atravessá-lo, o homem que mostrou aos filhos de Israel o caminho para cumprir seu destino.
Israel clama por alguém assim nos dias de hoje… ou por uma atitude semelhante; alguém capaz de inspirar confiança e traçar um caminho para a nação, de unificá-la na busca da meta e orientá-la nessa direção, para seu próprio bem e para o bem de nações semelhantes, deixando nossos inimigos para trás, imersos em frustração.
Israel enfrentou e venceu desafios hostis ainda mais assustadores em sua breve história moderna do que os que estão sendo erguidos pela tóxica mistura de demonização e violência liderada pelo Irã e por seus emissários, como Hamas e Hezbolá. Sobreviver aos primeiros momentos após a criação do Estado, em 1948, quando umas poucas centenas de israelenses pioneiros prevaleceram contra exércitos representando populações vizinhas de centenas de milhões, foi apenas a primeira de muitas outras vitórias improváveis.
A série de vitórias se estendeu por décadas, como a da Guerra dos Seis Dias e a da Guerra do Iom Kipur, incluindo a segunda intifada, quando os palestinos despacharam homens-bomba suicidas para cometer massacres calculadamente planejados no âmbito de uma estratégia em que a única alternativa lógica para as vítimas parecia ser a fuga. Mesmo assim, apesar de que ônibus, cafés e shopping centers explodiam semana após semana, e enquanto boa parte dos observadores externos argumentava que estávamos arquitetando nossa própria perdição porque havíamos rejeitado os termos suicidas que os palestinos impunham para proclamar sua independência, o povo da Israel moderna não fugiu; permanecemos, repensamos e aprendemos a proteger-nos mais eficazmente.
Mas nos anos seguintes aqueles que haviam buscado nossa derrota também repensaram sua estratégia. Empreendemos a construção de herméticas barreiras físicas para impedir os massacres causados pelos homens-bomba suicidas. Desde o sul do Líbano e desde Gaza, o Hezbolá e depois o Hamas simplesmente ultrapassaram esses obstáculos atirando mísseis sobre eles, e todos os esforços estão sendo feitos para repetir a mesma estratégia na margem ocidental do Jordão.
A proteção de Israel não pode ser assegurada agora mediante muros, barreiras e outras medidas defensivas; os foguetes tem que ser destruídos na origem — e essa origem, conforme planejado brutalmente pelos palestinos que os produzem e lançam, situa-se no coração da população civil. Cinicamente, aqueles que querem matar nossos cidadãos se asseguram de que seu próprio povo será atingido quando tentarmos impedir seus ataques — de maneira que somos forçados a lutar não apenas protegendo-nos, mas também protegendo nosso bom nome e nossa legitimidade.
Essa situação cria uma realidade um tanto ou quanto complexa — na qual as imagens da guerra e a taxa de mortalidade não retratam fielmente a situação do conflito, embora a distorcida narrativa oficial seja aparentemente apoiada, em grande medida, por uma mistura de imagens e estatísticas enganosas. Apesar disso, não é tão difícil constatar que o verdadeiro quadro é outro — o da nação israelense buscando defender-se contra uma liderança terrorista cínica e desonesta, cujo ódio de inspiração religiosa supera em muito qualquer preocupação com o bem-estar de seu próprio povo. Pelo menos não é tão difícil perceber o quadro verdadeiro quando se está sinceramente disposto a examinar a situação mais cuidadosamente.
Entretanto, a Operação Chumbo Derretido, o esforço israelense que na virada do ano visou deter os foguetes atirados desde Gaza, parece ter marcado algo como que um ponto de inflexão com relação à disposição de examinar a questão mais cuidadosamente e ir além das imagens diárias da guerra e das baixas.
De fato, o furor em torno de supostos testemunhos prestados por um pequeno grupo de soldados que voltou da guerra — soldados cujos relatos foram compilados por um membro do Programa Pré-Militar I. Rabin, chamado Danny Zamir — sugere que uma crescente proporção de pessoas, mesmo de próprio nosso povo, o povo de Israel, estaria perdendo a capacidade de distinguir entre o que sabemos, a partir de nossa própria experiência, que é verdadeiro ou verossímil, e aquilo que outros tentam fazer com que o mundo pense a nosso respeito.
O Exército de Defesa de Israel é um exército popular, que toca emocionalmente quase que a todos nós, de maneira direta. Todos nós servimos o exército e/ou temos parentes e amigos e colegas que serviram.
Quase todos nós conhecemos soldados que tiveram a experiência direta da Segunda Guerra do Líbano, e que voltaram para casa com tristes relatos acerca de treinamento, equipamento e logística inadequados. Quase todos nós conhecemos soldados que serviram na Operação Chumbo Derretido. E aquilo que não ouvimos diretamente foi complementado por aquilo que vimos, ouvimos e lemos na nossa mídia.
Sabemos que as FDI foram obrigadas a lutar num cenário civil por um inimigo que instalou foguetes dentro de mesquitas, montou armadilhas com explosivos em escolas e espalhou atiradores de elite em edifícios. Sabemos, também, porque comandantes do Exército de Defesa de Israel foram autorizados a declará-lo publicamente, que o exército mudou de tática em função de acontecimentos tais como a emboscada no campo de refugiados de Jenin em 2002, em que 13 soldados perderam suas vidas, e que se planejou responder com mais presteza ao fogo inimigo nas áreas sob operação militar.
Sabemos, por exemplo, que o Exército de Defesa de Israel panfletou áreas em que se propunha a enfrentar o Hamas, e instou os civis palestinos tanto por rádio como por inúmeros chamados telefônicos a deixar esses locais. Quando o exército era atacado a partir de moradias particulares nessas áreas, ouvimos relatos dos comandantes que, em vez de enviar seus soldados para que arriscassem suas vidas, pediram apoio aéreo e, se necessário, demoliram o edifício.
Sabemos que aconteceram erros — como poderiam não acontecer em uma área tão densamente povoada numa situação de guerra? Em meio à auto-flagelação dos soldados de Zamir, parece que esquecemos que o Exército de Defesa de Israel matou alguns de seus próprios soldados no sangrento caos do conflito. Inevitavelmente, também civis palestinos, muitos civis palestinos, foram mortos por erro em um conflito no qual se sabe que adolescentes e idosos são homens-bomba em potencial e no qual militantes do Hamas lutaram sem uniforme e algumas vezes atiraram em meio a grupos de civis. Trata-se de situações em que qualquer noção acerca de combatentes palestinos seguindo as regras da guerra perde qualquer sentido.
Fontes confiáveis, além disso, sugerem que, após a guerra, houve um considerável debate dentro do Exército de Defesa de Israel sobre as dificuldades de reconciliar a tradicional ética militar do Exército de Defesa de Israel com os problemas colocados pela natureza do cenário civil de guerra que o Hezbolá e o Hamas estabeleceram: qual deve ser o procedimento correto, levando em conta a necessidade de preservar os soldados e simultaneamente minimizar os danos causados a civis? Teria sido o procedimento correto efetivamente seguido?
Este jornal, quando apareceram as notícias sobre os “testemunhos” dados pelos graduados pela Academia Rabin, procurou medir sua credibilidade mediante os padrões jornalísticos tradicionais. Quão confiável era a fonte? A identidade dos soldados que testemunharam foi revelada? Poder-se-ia contatá-los para verificar seus relatos?
Por definição, tais estimativas deveriam ser feitas rapidamente, decisões deveriam ser tomadas contra a pressão dos prazos que expiram, e todos os jornais inevitavelmente cometeram alguns erros. Mas desde que os soldados em questão não foram identificados e desde que não havia como ter acesso a eles, e desde que as dúvidas sobre a exatidão de seus relatos surgiram quase imediatamente, foi rapidamente decidido que essas narrativas fossem publicadas nas páginas internas do jornal.
A inesperada declaração de Danny Zamir a este jornal, expressando seu horror — para dizer o mínimo — diante da controvérsia mundial desencadeada pelo testemunho de seus soldados, é difícil de conciliar com sua postura e suas manifestações anteriores. Agora, Zamir diz que o Exército de Defesa de Israel “...procurou proteger os civis do lugar mais densamente povoado do mundo. Não foram expedidas quaisquer ordens para matar civis ou realizar execuções sumárias ou qualquer coisa do gênero. Houve problemas, mas problemas com os quais o exército pode lidar”.
O foco excessivamente restrito que o editorial escrito por Zamir (reimpresso terça-feira no Jerusalem Post) recebeu por parte do The New York Times em particular e pela mídia internacional em geral é tudo menos casual; esse foco selecionou parte do que a mídia israelense, principalmente o Haaretz e o Ma’ariv, imediatamente divulgou acerca das acusações demonizadoras reunidas por Zamir sobre regras permissivas de combate responsáveis por incidentes específicos nos quais civis haviam sido mortos deliberadamente. Foi um repórter do Haaretz que declarou fria e cruamente que “...os soldados não estão mentindo, pela simples razão de que eles não teriam qualquer motivo para mentir... As declarações desses soldados expressam o que a partir de seu ponto de vista eles testemunharam em Gaza”.
A exceção de que, como se revelou posteriormente, eles não testemunharam tais fatos. O seu “testemunho” se baseou em rumores e não é verdadeiro.
A partir das primeiras páginas dos jornais de Israel para o tristemente previsível mundo cão do que passa por ser jornalismo internacional na atualidade, a compilação de Zamir tornou-se a mais importante matéria na face da terra durante alguns dias — ocasionando manchetes nos principais jornais, recebendo destaque nos noticiários internacionais, prejudicando ainda mais a legitimidade de Israel e transformando numa piada internacional sem graça a insistência do Comandante em Chefe Gabi Askenazi em afirmar que o Exército de Defesa de Israel é um “exército ético".
Com jornais sendo fechados, com a evaporação dos anúncios e o aumento constante da carga de trabalho de repórteres crescentemente pressionados, deve-se entender que não há um processo rigoroso de avaliação que possa determinar se uma história como essa deve ou não dominar a agenda global. O que acontece, em vez disso, é que uma história hostil a Israel veiculada pela imprensa israelense é considerada confiável simplesmente em virtude de que foi publicada pela imprensa israelense: os israelenses estão dizendo coisas lamentáveis sobre eles mesmos. Cadeias televisivas como a Al-Jazira têm patente interesse ideológico em inflar essas histórias. As redes de notícias rivais não querem ficar para trás. Uma vez que a história está sendo veiculada na TV, as agências de notícias impressas se sentem obrigadas a cobri-la, porque senão seus clientes se queixarão de que a notícia está na TV mas não nos telegramas. Então, rápido. Destaque mundial.
A natureza altamente ambígua destes e certamente de outros ingredientes que produziram manchetes mundiais sobre o conflito de Gaza, como vim a saber, despertaram considerável preocupação nas salas de edição de várias agências internacionais de notícias, com alguns jornalistas protestando veementemente contra a aparente suspensão de padrões jornalísticos mais rigorosos — sem qualquer resultado e, suspeito, sem qualquer efeito duradouro.
E não surpreende de forma alguma que uma atenção infinitamente menor da mídia internacional tenha sido dedicada às declarações feitas por Zamir ao Jerusalem Post nesta semana, segundo as quais “... a mídia internacional transformou os soldados do Exército de Defesa de Israel em criminosos de guerra”, “que ele não tinha como saber se os fatos sobre os alegados incidentes relacionados, disparos gratuitos haviam ocorrido efetivamente” e que “a operação Chumbo Derretido foi justificada; que o Exército de Defesa de Israel agiu de maneira cirúrgica. Infelizmente, nesse tipo de operação, ocorrerão baixas entre civis”.
A partir da perspectiva israelense, um dos aspectos mais problemáticos desde lúgubre caso é exemplificado por uma carta que eu recebi, e que publiquei na edição de quarta feira, de um leitor de Tel Aviv que criticou o Jerusalem Post por acreditar que “...a investigação conduzida pelo Exército de Defesa de Israel sobre os supostos assassinatos é religiosamente verdadeira” e por ignorar ostensivamente o que ele chamou de “...a inundação de testemunhos provenientes de Gaza — quase diariamente — sobre soldados do Exército de Defesa de Israel atirando em homens, mulheres e crianças inocentes que fugiam de suas casas, matando profissionais de saúde, provocando uma taxa de mortes civis muito mais alta do que a proclamada por Israel, fatos inteiramente respaldados por sólida evidência”.
“Não, os argumentos do lado palestino sempre permanecerão falsos para vocês”, conclui o redator da carta, “e as evidências sobre graves falhas é negada por um jornal que já foi confiável mas que rapidamente está se transformando no porta-voz propagandístico do exército mais moral do mundo”.
Muito mais preocupante que a crítica a este jornal é a afirmação acerca de uma “inundação de testemunhos”, respaldada por “sólida evidência”, de que soldados do Exército de Defesa de Israel atiraram em inocentes, e a ironia deliberada presente na descrição do Exército de Defesa de Israel como “o exército mais ético do mundo”.
O ceticismo é um instrumento essencial no arsenal de qualquer jornalista, afirmação que vale para todo aquele que queira aferir a veracidade das informações. Cabe lembrar novamente que o Exército de Defesa de Israel está debatendo à exaustão os parâmetros éticos que devem guiar a atividade militar em Gaza.
O que é particularmente lamentável acerca da carta deste leitor é a mistura entre o extremo ceticismo dedicado ao que o exército tem a dizer sobre suas próprias práticas e a suspensão desse ceticismo com relação às piores alegações que estão sendo feitas contra o exército. E o que é extremamente consternador é o grau no qual essa combinação distorcida de critérios se manifesta tão claramente não somente neste episódio, mas geralmente na forma pela qual Israel é julgada no exterior e, crescentemente, eu temo, na maneira pela qual nós mesmos estamos nos julgando.
Nós, israelenses, precisamos assegurar-nos constantemente de que nossas ações são morais e justas. Nesse contexto, as alegações de Zamir devem ser — como foram — enfática e cuidadosamente investigadas e tratadas, conforme ele mesmo declarou ao Jerusalem Post nesta semana,ele espera que sejam: seus soldados “falaram sobre o que é tão difícil e penoso na guerra” e ele transmitiu esses relatos “...para o exército porque esperava que o exército lidasse com as questões levantadas”.
Mais amplamente, levando em conta os dilemas colocados por Gaza bem como os desafios relacionados à nossa capacidade para viver aqui com segurança, precisamos formular as táticas e estratégias militares e diplomáticas de maneira a assegurar que podemos manter-nos fiéis a nossos valores básicos e ao mesmo tempo sobreviver.
Habitamos uma região em que a hostilidade e o ódio não são facilmente redirecionados para a conciliação. Combatemos em um clima internacional sobretudo inóspito e precisamos defender-nos, tanto física como intelectualmente, contra aqueles que procuram destruir-nos. Fundamentalmente, não podemos tornar-nos prisioneiros do sentido distorcido que outros têm da nossa realidade, do nosso comportamento e dos nossos desafios.
Há imperativos nacionais e eles requerem uma comunhão de perspectivas que Israel ainda precisa alcançar. Internamente divididos e demasiadamente intolerantes, permanecemos tão longe como sempre de um consenso sobre quais devem ser nossos objetivos e os meios que devemos empregar para concretizá-los.
Deixamos o Egito e chegamos à terra prometida, mas ainda não realizamos nosso destino. Aguardamos o nosso Nachshon.
Olhos
“Sabemos que o Exército de Israel foi obrigado a lutar num cenário civil por um inimigo que instalou foguetes dentro de mesquitas, montou armadilhas com explosivos em escolas e espalhou atiradores de elite em edifícios”.
“Nós, israelenses, precisamos assegurar-nos constantemente de que nossas ações são morais e justas. Nesse contexto, as alegações de Zamir devem ser — como foram — enfática e cuidadosamente investigadas e tratadas”.
* David Horovitz é o editor-chefe do The Jerusalem Post e escreveu este artigo de opinião em função dos últimos acontecimentos em Israel a partir das denúncias de Danny Zamir. Tradução de Franklin Goldgrub. Este artigo pode ser também no original em http://www.jpost.com /servlet/Satellite?cid=1238562949511&pagename=JPArticle%2FShowFull