A solução dos dois estados não deve ser encarada com uma ideologia ou um mantra, mas como uma fórmula que deve ser julgada de acordo com a sua aplicabilidade prática.
Zalman Shoval, chairman do Instituto de Política e Estratégia, Presidente da Câmara de Comércio Israel-EUA, ex-Embaixador nos EUA.
Uma semana antes da instalação da Conferência de Paz de Annapolis, onde se consolidou a idéia de dois estados, The Economist assim se referia às expectativas em torno dela: “O que muitos pensavam que seria uma carruagem dourada carregando os líderes israelenses e palestinos para um grande baile de paz, revelou ser apenas uma abóbora” (http://www.economist.com/world/mideast-africa/displaystory.cfm?story_id=10177066). E acrescentava que o fosso entre os dois países é, na verdade, muito mais largo do que se imaginava.
Em minha opinião é intransponível, pois os objetivos dos dois lados divergem radicalmente: enquanto Israel deseja um acordo de paz razoável, os líderes palestinos continuam almejando uma hudna (http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=593) que lhes permita sucessivos rearmamentos para a destruição de Israel. O Pacto do Hamas diz que “iniciativas, propostas e conferências internacionais são perda de tempo e esforços vãos”. O velho ditado de que quando um não quer dois não brigam não se aplica ao confronto entre nações, onde a regra é exatamente o oposto: quando um não quer, o outro o ataca com mais força ainda.
Não acredito que mesmo Bush, ao convocar Annapolis depois de sete anos embromando, estivesse querendo uma solução. Annapolis foi a embromação final. A situação naquela área é tão tensa, e os fatores diplomáticos tão intrincados, que o que todos queriam era passar a batata quente para a próxima administração. Nos altos escalões internacionais ninguém acredita em quimeras - utopias não passam de fórmulas para arregimentar pessoas para causas inatingíveis, buscando resultados imediatos para seus inventores.
Aos palestinos a embromação interessa, pois seus líderes se tornam cada vez mais ricos e ainda arrumam tempo para esperar um ataque do Irã. Se a situação sempre foi tensa, piorou após a posse de Ahmadinejad e a ameaça de destruição nuclear de Israel passar do nível retórico para o das possibilidades práticas imediatas.
Se Bush era embromador, Obama não o é. Apesar das juras de amor de Hillary a Israel, todas as iniciativas diplomáticas do novo governo mostram que já está em curso uma mudança radical de rumo. Obama tem a intenção de ressuscitar Annapolis e a idéia dos dois estados como um projeto sério. Suas últimas declarações têm sido neste sentido. Já Lieberman deixou claro em seu discurso de posse que Annapolis está morta – “quem pensa que concessões conseguirão alguma coisa, está errado (...) trará pressões e mais guerras”. Lieberman está corretíssimo.
Obama, no entanto, mostra uma clara intenção de aceitar o Irã como potência nuclear. Seu vice, Joe Biden, advertiu Israel a não atacar o Irã preventivamente, desafiando uma das estratégias do novo governo israelense: colocar na mesa a possibilidade de um ataque preventivo ao Irã antes que se torne potência nuclear. Netanyahu sempre disse que um Irã com armas nucleares não é tolerável. Muitos analistas, como o general Petraeus, acreditam que se Israel se sentir deveras ameaçada poderá atacar antes.
Para acentuar sua política pró-islã, abandonando até mesmo o termo terrorista, Obama anunciou uma considerável redução do orçamento militar e anunciou a iniciativa de reduzir o arsenal nuclear americano, com isto deixando o caminho aberto para ataques ao seu próprio território e ainda fez o gesto abjeto e humilhante de curvar-se perante o Rei Abdullah! Com isto abdicou de uma das mais caras tradições americanas: a rejeição de todo sistema de castas. Por que não escolheu uma monarquia milenar quando esteve em Londres e sim uma de beduínos analfabetos, inventada por uma conspiração anglo-americana (http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=109)? Pode-se deduzir que ele continua, secretamente, muçulmano, o que deixa Israel em maus lençóis. Enquanto isto, na ONU o direito de defesa de Israel é drasticamente cortado (vídeo em http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=795) e o terrorismo islâmico estimulado.
A idéia de dois estados seria um tiro no próprio pé que, felizmente, não passa de uma quimera.
* Heitor De Paola é escritor e comentarista político, membro da International Psychoanalytical Association e Clinical Consultant, Boyer House Foundation, Berkeley, Califórnia, e Membro do Board of Directors da Drug Watch International. Possui trabalhos publicados no Brasil e exterior. E é ex-militante da organização comunista clandestina, Ação Popular (AP).