Autoridades palestinas dissolveram uma orquestra juvenil da Cisjordânia que havia tocado para um grupo de sobreviventes do Holocausto em Israel. São crianças e jovens que formam um grupo de músicos dos 12 aos 17 anos palestinos do Campo de Jenin, no passado um notório foco de militância e violência, e que tinham viajado para Israel a fim de tocar para sobreviventes do Holocausto no centro Amcha de Holon, num encontro que foi considerado extraordinário.
Os jovens tocaram e os sobreviventes do Holocausto tentavam acompanhar com palmas o ritmo sempre mutável dos tambores darbouka. "Fomos lá para tocar", disse Wafa Younis, 51 anos, a diretora da orquestra jovem, israelense de ascendência árabe. "Não acredito em política; apenas em músicos e nessas crianças".
Qualquer estranheza terminou diluída pela barreira do idioma. Excetuado Younis, os palestinos só falam árabe; os sobreviventes do Holocausto só falam hebraico e seus idiomas europeus de origem. Zehava Zelevski, 73 anos, nasceu na Polônia e chegou a Israel depois de passar por campos de refugiados na Alemanha, em 1948. Seus três irmãos foram mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Zelevski disse que sabia sobre o campo de Jenin pela televisão e jornais, acrescentando que "o terrorismo todo vinha de lá".
O evento foi organizado como parte do Dia das Boas Ações, em Israel, uma iniciativa de Shari Arison, conhecida empresária israelense, hoje cidadã dos Estados Unidos.
Arison declarou em entrevista antes da apresentação que concebeu a idéia para o dia das boas ações enquanto caminhava, alguns anos atrás. Qualquer pessoa, rica ou pobre, pode ajudar um cego a atravessar a rua, animar alguém com um sorriso ou ajudar a carregar as compras, ela disse.
Dissolução
Adnan al-Hinda, diretor do Comitê Popular de Serviços do campo de Jenin ligado à Autoridade Palestina, chamou a apresentação aos sobreviventes do Holocausto de uma "questão política" e acusou a maestra Wafa Younis de ter inconscientemente “arrastado as crianças para uma disputa política”, por isso a orquestra juvenil foi dissolvida.
Ele acrescentou que Younis também foi impedida de entrar em seu apartamento no campo, onde ela ensinava os jovens músicos.
O evento atraiu uma forte condenação dos dirigentes do campo de refugiados de Jenin e ativistas políticos, que acusaram os organizadores de explorar as crianças para "fins políticos".
Hinda disse que a participação das crianças no concerto era uma "questão perigosa", porque foi dirigida contra a identidade cultural e nacional dos palestinos. Ele acusou "elementos suspeitos" de estarem por trás do evento de Holon, dizendo que eles estavam procurando "impacto” e que isso “estava afetando a cultura nacional da geração jovem e colocando dúvidas sobre o heroísmo e a resistência dos moradores do campo durante a invasão israelense, em abril de 2002".
Ele ainda alegou que os organizadores "enganaram" as crianças com uma viagem gratuita a Israel e ensinar-lhes música.
Ramzi Fayad, um porta-voz de várias facções políticas no campo de Jenin, também condenou a participação dos adolescentes no evento do Holocausto, dizendo que todos os grupos se opõem fortemente a qualquer forma de normalização com Israel.
"Não pode haver paz enquanto Israel continua a perpetrar massacres contra nosso povo", disse ele.
Folhetos distribuídos na área Jenin igualmente atacaram o evento e os organizadores acusando-os de explorar as crianças. Os folhetos também advertiram os palestinos contra participações em eventos semelhantes no futuro.
Fontes do campo disseram que a facções políticas em Jenin, também decidiu proibir a que a mulher (Wafa Younis) árabe israelense, que ajudou a organizar o evento entre na cidade.
Ativistas do Fatah apresentaram uma denúncia à Polícia palestina contra Younis sob o pretexto de que tinha enganado as crianças, levando-os para o evento do Holocausto, além de bloquear sua entrada no apartamento que havia sido alugado por ela.
Durante o evento cerca de 30 idosos sobreviventes estiveram no centro ouvindo os meninos e as meninas tocarem. O encontro começou com uma música árabe, "Nós cantamos para a paz", e foi seguido por duas peças musicais com violinos e tambores árabes, bem como uma música improvisada em hebraico pelos dois grupos. Younis também dedicou uma canção da orquestra ao soldado seqüestrado Gilad Schalit.