Sentado na minha sala de trabalho eu vejo uma moldura modulada em mosaico e dentro dela estão duas fotos muito significativas: uma tirada em Jerusalém e outra em Toledo. Não é por acaso que se trata de duas das cidades que mais amo e que têm significado místico para mim. Casualidade ou não, eu moro em Vitória (ES) e meu prédio é o Edifício Toledo. Já escrevi um artigo nesta coluna em 2006 que se denominava “Toledo e Córdoba” e que exaltava as glórias e a especificidade de Sefarad (Espanha e de maneira específica Espanha medieval). Em março de 2008 descrevi num artigo uma caminhada que fiz pelas “calles de Toledo” em 1981.
Minha pesquisa acadêmica atual versa sobre Sefarad. Como devem saber parte dos leitores eu sou ashkenazi, descendente de judeus da Europa Oriental (Rússia e Tchecoslováquia). Um puro exemplar de “poilish” (judeu polonês), mesmo sem ter nenhum ancestral direto nascido na Polônia, mas sendo completamente de cultura judaica “idish” da região do antigo reino polonês. Nasci ouvindo idish e um pouco de hebraico. Comi comidas judaicas de estilo Europa Oriental e ouvi rezas em que se falava “Boruch Oto” (maneira de pronunciar o hebraico das orações à moda do idish). Não tenho nada de Sefarad.
Adoro Sefarad. No meu estudo tenho descoberto muita coisa que relembra este amor dos judeus por Sefarad e muitas tristes lembranças. Uma delas é o que fazer em tempos de crise? Hoje, nos vivemos em tempo de crise, seja ela uma crise econômica e que ameaça nossa estabilidade. O que podemos apreender e aprender da história de Sefarad? Qual teria sido a crise ou quais teriam sido as crises que os judeus sefaradim passaram nos séculos XI a XV?
Inicialmente os judeus viviam sob o domínio dos muçulmanos: eram bem tratados e respeitados dentro de certos limites. Foi a época do Califado de Córdoba que se acabou em 1031. Eram tolerados e mantinham suas comunidades sob um governo autônomo. Estávamos no século XI quando Toledo foi tomada pelo rei cristão de Castela: isto foi em 1085. Estávamos na época das Cruzadas e a vida dos judeus não era confortável no resto da Europa Ocidental. Ocorriam massacres de judeus na França e na Alemanha em 1096 e nos anos seguintes. O mesmo se daria um pouco depois na Inglaterra. Muito rancor e ódio contra os judeus grassavam na Europa cristã. Os judeus recearam, quando Toledo foi tomada, mas não houve problemas com eles. Os reis cristãos precisavam deles. Foram aproveitados na administração e na cobrança de impostos. Mas do lado oposto da fronteira as coisas mudaram. Os muçulmanos começaram a não ser mais tolerantes e a situação se alterou no sul da Península Ibérica. Reinos cristãos protegiam os judeus e os reinos muçulmanos deixavam de tratar bem e passaram a discriminar. Tudo que era sólido estava se desmanchando no ar. Uma era se findava e os judeus ficaram desorientados.
A primeira crise veio quando os exércitos dos reinos cristãos avançaram sobre os reinos que sucederam o Califado, aquilo que se denomina Andaluzia, e que hoje seria a parte sul da Espanha. Os conquistadores cristãos fizeram com que os muçulmanos que dominavam essa região da Andaluzia, se tornassem radicais. Os governantes muçulmanos resolveram converter a força os seus súditos judeus e cristãos. Duas dinastias de origem marroquina surgem: os almorávidas e os almoades. Os não muçulmanos são intimidados e devem optar entre a conversão ou a morte. Os que podem optam por uma terceira escolha: migram para o norte cristão ou para outros locais sob o islã que fossem mais tolerantes. A solução encontrada foi imigrar, ou se tornar criptojudeus, o que significa seguir judeus às escondidas. Ambas eram saídas apontadas pelo mais conhecido dos refugiados deste período. O rabi Moisés (ou Moshé) ibn ou ben (filho) Maimon: o renomado Maimônides. Ele admitiu que houvesse a opção de fingir se converter e tentar fugir depois para um lugar seguro. A crise exigiu uma reflexão nova e a busca de uma saída. Muitos fugiram e se abrigaram nos reinos cristãos.
A segunda crise veio nos reinos cristãos nos séculos XII e XIII. Os reis cristãos estavam divididos em vários reinos: Castela, Aragão e Portugal, entre outros. Todos os reis queriam os judeus: eram excelentes administradores e financistas. Ajudavam a estabelecer novas cidades e desenvolviam o comércio e o artesanato. Seu papel na colonização de novas terras foi fundamental. Os reis os tinham como aliados e auxiliares vitais. Ainda assim, não os viam como seres dotados de direitos. A sociedade era muito influenciada pela discriminação: achavam os judeus deicidas, ou seja, assassinos de D-us, na figura de Jesus. E não admitiam que os judeus circulassem na corte dos reis e tivessem tanta influência política e administrativa. Perguntavam-se: Como podem infiéis que mataram Jesus ter tanto poder? Consideravam um escândalo e uma profanação tal presença e tal influência. A pressão se acentuou entre os monges dominicanos e franciscanos. Estes dois grupos de religiosos cristãos começaram uma campanha de conversão dos judeus que se acentuou no século XIV. Leis restringiam a vida judaica e cercavam os judeus em bairros separados num afã de convertê-los. O auge dessa crise foi uma explosão iniciada em 1391 na cidade de Sevilha. Um violento pogrom eclodiu e se espalhou por todos os reinos peninsulares: Castela, Aragão, Navarra. Só o rei português conseguiu contê-lo e impedir as conversões em massa dos judeus. Entre um e dois terços dos judeus foi convertido em poucas semanas. Uma legião de judeus se viu entre a espada e a cruz. Acharam que podiam seguir a sugestão de Maimônides. Estavam surgindo os cristãos novos. A crise se revelava desta vez cruel e sem saída: entre a conversão e a morte era preferível se tentar fazer uma conversão superficial e temporária. Erro crasso. Na Cristandade Medieval o sacramento não era passível de ser retroagido, ou seja, quem se batiza mesmo contra a vontade não pode anular este sacramento. O Papa condenou as conversões forçadas e admitiu que eram contrárias às ordens papais, mas não ousou derrogá-las. Os batizados não tinham caminho de volta. Como agir diante desta tragédia? Crise sem saída.
A solução era complexa. Uns poucos optaram por fugir e esta proposta era difícil de ser executada. A maioria se conformou e assumiu a nova religião. Uma minoria pequena escolheu a resistência às escondidas. A realidade foi ainda mais trágica do que parecia.
Os conversos que aceitaram a opção de se tornar cristãos, não tiveram vida fácil. Eram suspeitos de ter uma vida dupla: ser cristãos na Igreja e na sociedade assumindo a conversão. Alguns judeus ainda persistiam nos reinos cristãos entre 1391 (a Grande conversão) e o final da Reconquista cristã do último reino muçulmano. Os reis cristãos haviam unificado dois dos maiores reinos da península numa só Coroa Real: o Reino de Castela e o Reino de Aragão se tornavam o Reino da Espanha. Unidos numa só Coroa concluíram a tomada do restante do território ainda ocupado. A vitória cristã se deu com a tomada da última cidade sob o domínio muçulmano: Granada. Era o ano de 1492. Neste mesmo ano os judeus que ainda vivessem nos dois reinos unificados foram expulsos. Trágico final para uma marcante e criativa presença judaica de quase dois milênios. Só restaram os conversos e os seus descendentes que foram terrivelmente perseguidos nas teias da tenebrosa Inquisição. Sefarad deixava de existir na realidade para se tornar uma lembrança nostálgica e romântica de uma sociedade onde a tolerância se deixou vencer pela discriminação, e o rico encontro entre judeus, muçulmanos e cristãos foi substituído pelo ideal cruzadista e pela intolerância religiosa.
* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.