Por las calles de Toledo
Por: Sérgio Feldman *

Estava em Madri sozinho e era uma manhã de inverno. O vento gelado perpassava minhas entranhas. A friagem matinal se mesclava com a solidão. Eu voltava de um curso na Open University (Universita Petuchá) de Tel Aviv. Era janeiro do ano de 1981. Minha esposa, Iara, estava no Brasil, e esperava nosso segundo filho, Ariel, que nasceria em maio daquele mesmo ano.
Nem a umidade, nem o frio e tampouco a solidão impediram-me de prosseguir nos meus planos. Pretendia conhecer de passagem algumas localidades da Espanha e ir até Portugal pesquisar alguns documentos para o meu mestrado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa) e lá comprar livros. O que estava atrapalhando meus planos era uma greve dos ferroviários da RENFE, que paravam os trens duas vezes por dia, por duas horas exatas: uma era das 8 às 10 horas da manhã, e a outra das 16 às 18 horas. Se houvesse trens trafegando no trajeto eles ficavam parados no meio do caminho. Naquela semana eu planejara visitar três cidades nas redondezas de Madri. A primeira era a “sonhada” Toledo, a “cidade das Três Religiões” e da convivência. O jeito de contornar a greve era sair bem cedo e voltar após as 19 horas. Optei por não deixar de viajar, e assim não fazer meu velho sonho sefaradi, se desvanecer na greve cujos motivos me eram alheios. Acordei muito cedo e mal comi o desjejum.
Fui até a estação ferroviária de Atocha. O trem saía próximo das seis horas. Eu contornava a greve e também aproveitava melhor o dia de inverno tão curto e que se delineava úmido e frio. O sol ainda estava dormindo e as pessoas silenciosas e agasalhadas revelavam uma distância nada acolhedora. Sentia me perdido naquela estação de trem bastante vazia. Por um mecanismo de “autodefesa” contra o frio e a solidão, permiti-me divagar e transcender ao tempo e ao espaço em que vivia. Comecei a imaginar qual seria a emoção de um judeu sefaradi se pudesse voltar a Toledo algumas décadas após a expulsão de 1492? Lembrei-me de leituras feitas e palestras assistidas. Nesse momento o trem apareceu como se fosse uma das ilusões quixotescas de Cervantes, tal como um dragão exalando vapor pelas narinas: entrou na estação ruidosamente e me despertou do sonho e da divagação.
Subi no vagão da segunda classe e encontrei várias cabinas vazias. O frio diminuíra com a calefação e um bem-estar se alojou em mim. Senti-me entorpecido por um sono profundo e mergulhei nos sonhos. Devo ter sonhado com histórias e estórias de Sefarad ou talvez até sobre romances de cavalaria do tipo El Cid. Não me lembrei de nada ao acordar na entrada da estação de Toledo. A viagem fora restauradora do sono perdido e me dera forças para prosseguir no sonho realizado de pisar as pedras das ruas de Toledo e andar na Juderia (bairro judeu).
A estação ficava na margem leste do rio Tajo (com jota aspirado) que é o mesmo rio Tejo que deságua em Lisboa e que foi cantado nas poesias da expansão portuguesa por Camões e Fernando Pessoa. Apesar da poluição do rio ser visível e perceptível ao olfato, o leito escavado na rocha me oferecia uma dimensão real da posição privilegiada da cidade. Protegida por uma muralha natural a leste e ao sul, criada pela erosão do leito do rio que escava um pequeno cânion e que faz subitamente uma curva à direita e direciona suas águas na direção de Lisboa e do Atlântico. A emoção de conhecer o rio era apenas uma prévia de emoções mais profundas. Cruzei a Ponte de Alcântara. Entrei na cidade pela porta nordeste e sai numa agitada praça comercial. A cidade já acordara e uma população de estudantes, comerciantes e outros trabalhadores se misturava no burburinho da praça. Eu fiquei meio surpreso com a súbita aparição de pessoas, após um prelúdio de solidão e silêncio relativos desde a estação de Atocha.
Olhei no mapa e fiz a opção de ir antes à mesquita-igreja denominada “Cristo de la Luz” situada ao norte da praça. Cheguei lá e não foi uma surpresa, por não estar aberta antes das oito da manhã. Resolvi fazer “um tempo”. Fui à direção da porta norte e achei uma placa recém colocada na porta. Mandada colocar ali pelo Rei Juan Carlos e lavrada em pedra (ou seria bronze?) falava da Toledo das Três Religiões. Arrepiei-me e senti certa casualidade. A mesquita fechada era um sinal para eu ir ao portão norte e ler a nova legenda da cidade. A ascensão do rei Juan Carlos delimitava uma nova era: a democracia espanhola, mesmo sob os percalços e conflitos da nova experiência buscava uma resposta na convivência e no diálogo medieval e certa distância da intolerância da era das conversões forçadas e da Inquisição. Seria real? Ou mero slogan? A pergunta não calava dentro de mim.
Compreendi que havia uma íntima relação entre o presente e o passado. Recordei do filme de Luis Buñuel, “A Via Láctea”, uma denúncia da intolerância e das perseguições de cunho religioso. Imaginei como os personagens do filme, que eu entrara num túnel do tempo: estava no presente, mas vivia momentaneamente no passado, pelo menos na minha imaginação.
Voltei à mesquita-igreja do “Cristo da Luz”. Tinha sido aberta. Tratava-se da única mesquita que não sofrera destruição ou alteração das estruturas. Pequena e sem charme, quando pensamos na mesquita de Córdoba, monumental e ainda muito exuberante. Nesta mesquita ínfima e discreta pensei nos exilados mouros que tiveram de deixar a cidade ou os reinos ibéricos em 1492. Deixaram aqui a marca de sua fé, de sua pujança cultural e de sua capacidade profissional: o aço de Toledo se tornou um sinal de respeito, graças aos ferreiros hispano-mouros. A presença de sábios mouros e judeus na renomada e questionada “Escola de Tradutores de Toledo” foi um marco do renascimento da filosofia aristotélica na Europa Ocidental e um foco de expansão dos saberes. As obras haviam sido traduzidas do grego ao árabe alguns séculos antes, e no recinto destas muralhas foram traduzidas do árabe ao latim (assim aos idiomas neolatinos do Ocidente) por judeus e mouros sábios e refinados que viviam nas apertadas “calles” toledanas.
Cruzei a cidade, visitei a fortaleza (Alcazar) e cheguei à majestosa catedral. Originariamente fora uma igreja visigoda. Foi transformada em mesquita e novamente em catedral. Um símbolo da intolerância e da interposição do poder do conquistador nos espaços sagrados dos vencidos. Símbolo da vitória de uma religião sobre a outra e modelo da Reconquista. Bela arquitetura gótica dotada de um vão livre admirável. Sai em direção ao sul. Cheguei à casa de El Greco. Vi algumas obras a guisa de um museu e homenagem ao pintor. Então percebi que me aproximava de meu objetivo: estava perto da sinagoga de El Transito. Nessa hora a fome apertou. Estava viajando de maneira “estudantil” e não hesitei em sentar na praça, denominada “Paseo de el Transito” num modesto café e comer um lanche regado a um copo de vinho do tipo popular. O vinho me aqueceu e inspirou. O sol ensaiava uma aparição modesta, mas simbólica. Ia demarcar a minha entrada na Juderia. Respirei fundo e entrei de novo no túnel do tempo. Estava na rua dos judeus, agora denominada “Calle de los Reyes católicos” numa ironia, pois a pequena rua começava com a sinagoga de El Transito e acabava no mosteiro de São João dos Reis, fundado pelos Reis Católicos, Isabel e Fernando, que assinaram o terrível decreto de expulsão dos judeus de Castela e Aragão, em 1492.
Subitamente me vi na porta da sinagoga-museu de El Transito. Não sentia mais frio, mas a minha alma trepidava de emoção. O tremor começava na pele, mas se internalizava e atingia todo meu ser. Comprei o ingresso e tateei o espaço como um “cego” que usa da bengala para reconhecer um espaço novo. Ingressei no mundo medieval judaico sefaradi. As únicas inscrições e detalhes arquitetônicos eram as frases escritas em hebraico na parte superior do edifício. Construída em 1366 e transformada em igreja após 1492, o prédio tinha sido agora transformado em “monumento nacional” e num Museu Judaico sefaradi. Eu ouvia trechos de rezas e orações em hebraico em “nosach” sefarad (num hebraico puro sem influência do iídiche). Seria real ou ilusório? Uma gravação colocada no museu? Ou estava em êxtase místico? Logo eu um historiador racional e crítico. Com certeza era uma gravação colocada em volume bem baixo, num quase sussurro, tal qual um coral de crianças.
O museu era bem simples e seus objetos não eram especialmente atraentes. Em Israel eu conhecera o recém inaugurado Museu da Diáspora em Tel Aviv e tinha revisto os museus Israel, Haaretz (Tel Aviv) entre outros. O que ocorria não era uma visita cultural: era um reencontro de raízes. Sentei no pátio e fiquei olhando as lápides espalhadas pelo jardim interno. Algumas estavam ainda legíveis e fui decifrando-as aos poucos. Eram pessoas de sorte que viveram e morreram nesta terra e não foram para o exílio. Não sofreram a dupla nostalgia da alma sefaradi: exilados como judeus da “sagrada” terra de Israel e expulsos de sua amada Sefarad. Duplo e amargo exílio. A persistência do ladino, do romanceiro sefaradi e da identidade judaica – sefaradi demonstra a força deste amor a Hispânia.
A música desaparecera e eu ouvi uma guia orientando pequenos alunos de alguma escola. Percebi que ela falava sobre uma identidade ibérica da qual se tentava resgatar as raízes judaicas e muçulmanas da “Espanha das Três ]Religiões”. Parecia para mim uma doce ilusão: a profunda e enraizada religião católica que gerara a intolerância ainda era a dominante e geradora de preconceito. A pergunta do inicio do passeio ressurgiu. Haveria espaço na Espanha do século XX para um resgate de suas fontes históricas que incitavam à tolerância e à convivência medieval? Ou isso era uma fachada de modernidade do rei Juan Carlos e alguns políticos, mas não inserida na emoção e no imaginário coletivo?
Visitei a ex-sinagoga e ex-igreja de Santa Maria de la Blanca, de arquitetura mudejar que reluzia sob a luz do sol em seu exterior e estava na semi-obscuridade em seu interior, alternando os raios de sol que passavam timidamente pelas janelas e as trevas que dominavam o cenário interno, num simbólico e místico panorama das lutas religiosas e da expulsão dos “infiéis” judeus e muçulmanos pelos fiéis cristãos. A luz de fora seria agregada um dia ao interior, mas por ora penetrava em raios tímidos e parciais. Entendi o simbolismo daquele espaço e comecei minha volta à realidade.
Completei a visita em outros locais. Voltei bem tarde devido a greve. Tive tempo de sentir o palpitar da cidade murada e divagar no tempo. A charada do símbolo da tolerância é um sonho: sonho não é realidade, mas pode alimentar valores e idealismo. Toledo transcende ao tempo: a restauração das sinagogas simboliza um resgate do passado judaico. A tarefa de combater o preconceito e as perseguições às minorias e dissidentes religiosos (ou políticos) é uma tarefa de “longa duração” e de vasta amplitude. O tempo presente deve ser um tempo de inspiração no modelo e construção de uma nova realidade.
Voltei duas vezes a Toledo. Na última, em 1996, estava com toda a minha família: Iara e os três filhos. A emoção de rever Toledo novamente acompanhado dos filhos e da esposa me fez pensar na necessidade de lembrar: a memória é um legado volátil e delicado. Temos a necessidade de realimentá-la com a repetição das experiências e recordações coletivas. Sefarad é uma experiência importante para repensarmos a contemporaneidade judaica e cidadã. O dialogo e a convivência entre judeus, muçulmanos e cristãos na Hispânia medieval não pode ser idealizado e nem esquecido: serve para refletir sobre o ontem, o hoje e o amanhã.

* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.