Pilar Rahola *
Se alguma coisa define o politicamente correto, especialmente com respeito aos grandes conflitos que existem no mundo, é a criação de certos ícones da opinião, cujo discurso soa bem aos ouvidos da esquerda oficial. Este nascimento das divindades do pensamento correto, é bem notório quando tratamos do tema do Oriente Médio, uma questão espinhosa que vai se simplificando até o nada, quanto mais oficialmente de esquerda é quem o analisa. Estes ícones, e este pensamento, têm alguns traços tão característicos, que vale à pena analisá-los. Previamente, a nobreza obriga, que coloquemos nomes a estas divindades que os jornalistas avançadinhos colocam em evidência cada vez que têm ocasião. Falo, entre outros tantos, de Maruja Torres e de Gema Martín Muñoz, esta última considerada autêntica “experta” no mundo islâmico. Sobre a primeira, pouco a dizer. Viu a luz quando foi ao Líbano e se fixou nela, e agora se deleita com algumas das crônicas mais judeófobas e anti-ocidentais que podemos encontrar na atualidade. Pessoalmente nunca fui fã de Tomás Alcoverro — outro ícone — porque, apesar de ser uma grande pessoa e um bom jornalista, tem lançado um olhar oblíquo durante anos, mas, comparado com Maruja Torres, Tomás é um exercício de neutralidade. No entanto, creio que o sectarismo de Maruja é tão evidente que parece, inclusive, mera decoração, num panorama que, ao fim e ao cabo, há muito não pratica o pensamento crítico. Uma nota de cor. O caso de Gema Martín Muñoz me parece muito mais relevante e, da minha perspectiva, muito mais preocupante, já que se trata da “especialista oficial” para falar da questão. Só para mostrar, os três quartos de hora que Monica Terribas dedicou-lhe, outro dia, na televisão pública da Catalunha, ou as dezenas de vezes que a chamam de SER para “analisar” a questão do Irã e etc., transformada no ícone máximo destes assuntos. A questão parece especialmente chocante quando recordamos que esta mulher preside a Casa Árabe, que tem, em seus órgãos diretivos, todos os embaixadores do mundo árabe, o que não lhe deve permitir gozar, precisamente, de uma visão objetiva. De fato, nem tão só de uma visão livre…
Com certeza, à diferença de qualquer um de nós que não participamos do pensamento único progressista — que estamos sob suspeita permanente de parcialidade, e temos que dar dezenas de explicações para justificar nossa dissidência —, pessoas como Gema Martín, passam por prestigiosas, neutras e, oh D-us!, críticas. Como se cria um ícone como este, apesar da evidência de sua militância ideológica? Como é possível que, para analisar jornalisticamente o conflito nuclear com o Irã, se considere interlocutor imparcial quem preside um organismo árabe? É possível porque, em tempos de inexistência de debate intelectual, substituídas as idéias pelos lemas, o prestígio progressista é ganho aplicando, com inequívoca fidelidade, os cinco princípios do catecismo laico: Estados Unidos é o mal do mundo; o segundo — o primeiro, corre pelas ruas — mal é Israel; o mundo islâmico é inocente e vítima; o terrorismo islamita é culpa do Ocidente, e as ditaduras fascistas islâmicas não são o problema.
Desta perspectiva, simplista, mas eficaz, tudo se enquadra na análise, e a partir de daí, a tirania iraniana passa por vítima, e as democracias ocidentais mais importantes do planeta, passam a ser as culpadas de suas maldades, ataques terroristas incluídos. Ontem, senti que o programa de Francino comentando uma pesquisa do Times sobre o ódio que o mundo muçulmano tem contra o Ocidente, e perpetrando seu previsível discurso anti-Bush, obviava coisas tão básicas como a fatwa de Bin Laden contra os “cruzados” ser da época Clinton, que todo o corpo ideológico jihadista é dos anos trinta — quando ainda nem existia Israel —, que a imensa riqueza árabe não serviu para construir nem uma só democracia, e que são os líderes árabes os que educam a sua sociedade no fanatismo totalitário. Ou seja, tudo era óbvio e reduzia a questão à conhecida maldade ianque. De fato, é o mesmo discurso stalinista de décadas, passado pela peneira da multiculturalidade. Lobos em pele de cordeiro, alunos avantajados do inefável Tariq Ramadan, que camufla sua voz aveludada com a dureza do punho extremista. Por fim, o que resta é a nula capacidade de gerar um discurso crítico sério, mais além da rutilância bem-pensante da propaganda de esquerda. Um desastre para o pensamento. E um êxito para as ditaduras islâmicas, que vêem, nestes progressistas de manual, os seus aliados mais eficazes.
* Pilar Rahola é conhecida jornalista, escritora e tem programa na televisão espanhola. Foi vice-prefeita de Barcelona, deputada no Parlamento Europeu e deputada no Parlamento espanhol. Publicado no jornal Diari Avui. Tradução: Szyja Lorber