Sergio Feldman*
Admito que fiquei chocado. Ao ler o e-mail de um amigo e ao ver a notícia estampada num jornal on-line fiquei estupefato. Não combinava com o rabino que eu conheço. Nem com tudo que sei e tudo que pude compartilhar como membro de sua congregação no final dos anos setenta e início dos oitenta. Senti-me mal e fiquei envergonhado por ele, por mim, por nós judeus brasileiros. Não combinava com sua vida, com seu nome, com as ações de um brilhante líder e um defensor do Judaísmo, da justiça social e dos direitos humanos.
Assim que me refiz, percebi que estava sendo emotivo e não agia com a razão. A sociedade civil já havia absolvido o rabino. Alguns setores da comunidade saíram em sua defesa. É certo que diante da gravidade do fato, não se podia dizer que não fora nada importante. Mas façamos nossa análise pensemos de acordo com a nossa tradição.
Com certeza D-us o terá perdoado. O mesmo D-us que através do próprio Henry e de muitos rabinos com os quais trabalhei e convivi, têm-me perdoado todos os anos nas Grandes Festas (Ano Novo Judaico). D-us sabe de seu serviço aos bons princípios, à justiça, ao diálogo interétnico e interconfessional e aos direitos humanos. Não se faz necessário esperar pelos meses de Elul e Tishrei e entoar as “Selichot” e pedir o perdão divino. Sua vida e seus gestos já propiciaram o perdão pelo seu erro. Mesmo se o rabino foi movido por algum desequilíbrio emocional, sob o efeito de algum tipo de tratamento, não nego seu erro: roubar não é aceitável e nem correto.
Rabino: você errou. Você falhou. Você é humano. Isso é profundamente judaico.
Isto eu aprendi ao lado do próprio Sobel em momentos inesquecíveis de convívio agradável. Somos humanos e temos defeitos, falhas e cometemos erros. Entre 1978 e 1982 tive a honra e o privilégio de trabalhar na CIP com dois rabinos cultos, refinados e de um valor humano sem igual: rabino Marcelo Rittner e rabino Henry Sobel. Aprendi muito deles e com eles. Mas nada se comparava a convivência nos “Campos de Estudo da CIP”, ora com um deles, ora com o outro. Passávamos o dia inteiro juntos. Rezávamos, estudávamos, passeávamos e jogávamos. Apesar de eu ser um educador, mostrava meu lado humano no futebol: eu sempre adorei jogar, mas perdia por vezes a cabeça e me exaltava. Discutia e reclamava, sem perder o bom nível, mas expunha meu lado inadequado. Um dia comentei com o Sobel sobre esta atitude. Sobel me falou alguma coisa tal como se segue: “O futebol é importante para os brasileiros, e nós fazemos disso uma questão muito séria. Isso pode levar até um bom educador a se exaltar. Isso é sem dúvida uma fraqueza ou defeito. Todos têm seus pontos fracos e não somos perfeitos. Podemos ter qualidades, mas temos defeitos, já que somos humanos”. O rabino me ajudou a lidar com minhas falhas e defeitos: colocou-me a necessidade de fazer a autocrítica, mas sem nunca esquecer que eu era humano e podia falhar. Sábias palavras.
Inúmeras vezes pude ver o rabino lidar com conflitos entre alunos e ele sempre usava do conceito do perdão, do respeito às diferenças e do fato que ninguém é perfeito. Aberto a diversidade, negociador, afetivo e tolerante. Eu que sempre tendi a certo radicalismo aprendi com Sobel a ser tolerante e, a saber, perdoar e aceitar as diferenças de idéias e visões de mundo. Isso me acompanhou através de um quarto de século.
Sobel me ensinou que, se o erro existe, ele pode ser o ponto de partida para uma autocrítica, para uma reflexão e para um avanço. Assim fundamentado em suas palavras, hoje eu uso sua “receita”, para “justificar” seu erro e perdoá-lo. Sobel é humano e pode errar. E merece ser perdoado e seguir fazendo tudo que ele tem feito por judeus e não-judeus, neste país.
No nível estritamente pessoal, tive em Sobel uma presença constante em bons e em maus momentos: na morte de minha mãe ele me consolou no cemitério; no luto de meu pai, na sinagoga; na morte de meu sogro, novamente na sinagoga. Apoiou-me e orientou-me. Dedicou energias espirituais e afetivas à minha família. Minha gratidão deve ser semelhante à de milhares de elementos de muitas kehilot brasileiras.
Voltando ao ocorrido, um fato me marcou nos dias recentes: a pronta reação da imprensa não-judaica. Uma quase unanimidade pode ser percebida: grande parte dos jornalistas manifestou sua surpresa e seu desagrado com o ocorrido, mas quase todos colocaram o homem e sua obra acima de um evento e de um provável acidente medicamentoso. A quantidade de jornalistas não-judeus que saiu em defesa do rabino Sobel deixa patente sua popularidade e seu prestígio na mídia. O homem Henry Sobel e seu currículo diluíam o evento. Não encontrei manifestações de preconceito ou racismo, salvo em sites racistas da internet ou na imprensa marrom.
A presença de Sobel no cotidiano não-judaico ajudou a alterar, em parte, a imagem negativa do judeu na mídia. Sabemos quantos críticos de Israel, escrevem agressivos textos condenatórios. A existência de uma mídia revisionista que nega o Holocausto ou minimiza sua gravidade é constante. Subitamente jornalistas saem em defesa de um rabino que cometeu um sério e grave deslize. Isso não é algo comum, numa mídia anti-sionista e antijudaica. Devemos esta mudança a ele.
Sobel está acima de seu grave erro. Sua história faz dele uma referência e um marco na participação dos judeus na vida pública brasileira. A grande parte dos líderes de minorias e de entidades defensoras de direitos humanos saiu em sua defesa. Sobel incorpora de um lado, modernidade, diálogo entre etnias e religiões, tolerância e justiça em relação aos “outros”; de outro faz seu papel de defensor dos judeus, do Judaísmo e de Israel.
Quem achar que por ser rabino não poderia fazer o que fez, eu diria: isto tem fundamento na História e na Bíblia? Sabemos perdoar?
Grandes figuras na nossa história cometeram erros deste quilate. Jacó participou da encenação montada por Rebeca e obteve de seu pai cego a benção da primogenitura; não fez menos com seu opressor sogro Lavan, que lhe enganava e por ele foi enganado.
Moisés (Moshé Rabeinu) quebrou as sagradas tábuas da Lei ao ver o erro do povo que adorava o bezerro de ouro; e teve dúvidas no episódio da pedra em que D-us mandou falar e ele golpeou a rocha. E o grande David, base da casa real, e raiz do Messias desrespeitou três mandamentos no caso Bat Sheva (Samuel II, c. 11 e 12). E há inúmeros casos de desobediência e desrespeito às leis básicas entre grandes figuras. Nossos líderes e modelos sempre foram acima de tudo humanos e podiam falhar desde que cumprissem sua missão.
Sobel tem cumprido com competência sua missão e seu papel de líder religioso e comunitário. Alterou a perspectiva e a imagem do judeu na sociedade brasileira.
Rabino Sobel: admito que tenha errado, mas rendo minha homenagem ao seu papel em nossas vidas, como judeus brasileiros e presto minha solidariedade, declarando meu respeito por sua magnífica pessoa. Sua obra e sua vida superam imensamente este sério erro. Acredito na sua pessoa e estou seguro que não perderemos sua liderança.
* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.