Partido de centro, criado por Sharon, procura fechar acordos para governar
O partido Kadima, de centro, fundado por Ariel Sharon e liderado por Ehud Olmert, primeiro-ministro em exercício, venceu as eleições do dia 28/3, em Israel, por uma margem menor do que se esperava. As pesquisas iniciais davam o Kadima com 44 ou 43 cadeiras, baixando depois, nas pesquisas seguintes para 33 ou 36 cadeiras. De acordo com a pesquisa e data da realização. Compareceram às urnas 63% dos eleitores, já que em Israel o voto não é obrigatório. Alguns analistas calculam que tenham sido as eleições a mais baixa porcentagem de eleitores da história israelense.
Muitos diziam que como já era dada certa a vitória do kadima, as pessoas resolveram ficar em casa no dia da votação.
Pelo menos dois dos principais ministérios iriam para o partido Avodá (Trabalhista). Entre os postos disputados estariam os ministérios da Defesa e Educação. A proporção de ministros por partido será a razão de um por cada três deputados, com o que o Kadima tem assegurados 9 cargos ministeriais, enquanto que o grupo de Amir Peretz teria 7 pastas.
Nas sondagens preliminares sobre os prováveis acordos de coalizão, a problemática pasta da Economia se alinha como a mais disputada entre os partidos que aspiram integrar o futuro governo israelense.
Numa de suas primeiras entrevistas aos jornalistas após a vitória eleitoral, o primeiro ministro interino, Ehud Olmert, declarou ao jornal Maariv que não descarta negociações de coalizão nem memso com seu ex-partido, o Likud.
Analistas políticos estimam que as declarações de Olmert tentam reduzir as expectativas do partido Avodá que, como segundo bloco parlamentar, aspira ser o principal associado do futuro governo. O líder do Kadima foi ainda mais explícito ao afirmar: "O trabalhista Amir Peretz não tem possibilidades de formar o governo e por isso meu partido não renunciará ao Ministério das Finanças”.
Porta-vozes do primeiro-ministro eleito admitiram que pelo menos dois dos principais ministérios irão para as mãos do trabalhistas. Entre os postos disputados estariam as pastas da Defesa e Educação.
Ante o fato de que Peretz não tem alta graduação militar, os porta-vozes trabalhistas assinalaram que Israel já teve ministros de Defesa civis destacados, como é o caso de Levy Eshkol, Menachem Beguin e mais recentemente, Moshé Arens do Likud.
Mas enquanto isso, em Israel, fontes próximas a Olmert dizem que ele prefere um governo composto pelo Kadima, Avodá, os partidos ortodoxos Shas e Judaísmo Unido na Torá, além do Partido dos Aposentados. Por eles, rejeitariam o Likud e o Partido de extrema-direita Yisrael Beiteinu como possíveis parceiros de coalizão.
Diplomacia
O presidente norte-americano George W. Bush ligou para Olmert na quarta-feira, 29/3 para felicitá-lo pela vitória e convidá-lo a ir a Washington assim que tiver formado um governo. Bush também disse que considera particularmente impressionante a vitória do Kadima, uma vez que é um partido novo. Olmert disse que planeja formar logo uma ampla coalizão, e que ele quer continuar nos passos de Sharon e fazer progresso na frente política. Bush disse que admira a visão de Sharon e pensa que ele agiu valentemente deixando Gaza.
Olmert também disse que vai se encontrar com presidente egípcio Hosni Mubarak após formar o novo governo e disse que recebeu ligações telefônicas do primeiro-ministro britânico Tony Blair, da chanceler alemã Angela Merkel e do novo primeiro-ministro canadense Steven Harper, todos para congratular-se com ele. Olmert disse para Merkel que traria para a coalizão os que concordam com seu o caminho político.
A grande tarefa dos israelenses, disse, é preparar-se para retomar o difícil e custoso esforço necessário para convencer os palestinos e os países árabes que seu sonho de eliminar Israel se extinguiu.
Por outro lado Binyamin Netaniahu, deu declarações à imprensa mais ou menos esperadas, indicando aos eleitores que não votariam no Kadima ou na esquerda, dizendo que a única alternativa para deter o Kadima era o Likud e assim evitar que parte dos eleitores ‘seculares’ assíduos votantes do partido, votassem no Israel Beiteinu de Liberman, hoje em dia a maior ameaça para o Likud.
‘A razão da mudança nas pesquisas foi claramente a tentativa nas vésperas da eleição, por parte de Olmert, de armar um governo de coalizão formado pela esquerda com Peres, Peretz e Meretz. Este governo implementará um grande plano de rendição que só o Likud pode prevenir’, disse.
Amir Peretz do Avodá percorreu nas últimas horas antes das eleições vários pontos do país tentando mostrar confiança, ainda que soubesse que não conseguiria mais de 21 ou 22 cadeiras, segundo as pesquisas (conseguiu 20).
Os especialistas explicavam que Peretz perdeu as eleições por desfazer-se de Peres e de Barak. O número três da lista do Avodá, Ofir Pinnes, passou a insinuar que seu partido é um dos mais prováveis parceiros do Kadima nas próximas eleições.
Enquanto isso, os partidos ortodoxos passaram a convocar os rabinos para que instassem a votar ‘em qualquer das opções de partidos ortodoxos’, e se mostravam coesos ante a nova proposta de formar um bloco para impedir que o Kadima chegasse ao governo.
O líder da União Nacional, Beni Elon se apresentava junto com o líder do Shas, Eli Ishai, na rádio ortodoxa mais escutada.
Outras explicações para o baixo número de eleitores que compareceram às urnas:
1. As repetidas vezes que tiveram que votar nos últimos anos. Em maio de 1999 elegeram o 15º Knesset, que resultou na eleição de Ehud Barak. Em 2001 elegeram só o Primeiro-Ministro e nessas eleições venceu Ariel Sharon. E em janeiro de 2003 foi eleito o 16º Knesset ( o atual), eleições nas quais novamente foi eleito Ariel Sharon como Primeiro-Ministro. Ou seja em quase 7 anos, esta é a quarta vez que foram às urnas.
2. Para muitos e como resultado das pesquisas, a sensação que o resultado das mesmas é quase certo, o que elimina o fator de suspense ou de drama, tão importante para manter um estado de tensão majoritária à medida que se aproxima a eleição.
3. A sensação de pouca credibilidade que merecem os políticos faz-se cada vez mais ostensiva à medida que se chega à necessidade de se definir por algum dos partidos. A corrupção que teve um aporte grande entre os membros do último Knesset, faz com sejam cada vez mais os que não se interessem pelas diferentes propostas ou se mantenham à margem de tudo o que significa atividade política.
4. E, mais que tudo, pela interminável que parece ser cada campanha, do seu início até que "por fim" se aproxime a data das eleições.
Mas, apesar de tudo o dito anteriormente, sabemos que na realidade que se transforma, "a único coisa certa, é que não há nada certo"… E pensar que a última vez que se tinha escrito algo parecido, foi justo o dia em que nosso Primeiro-Ministro Ariel Sharon sofreu seu primeiro percalço de saúde que o obrigou a internar-se faz pouco mais de três meses.
O grande ausente
Esta campanha eleitoral devia ter sido o broche de ouro na vida política de Ariel Sharon. Depois de ter sido uma das figuras destacadas durante quase sessenta anos em questões militares primeiro e após no cenário político, com altos e baixos em sua popularidade, depois de ter seguidores incondicionais e detratores tanto no foro interno como no âmbito internacional, estas eleições o mostravam no cume de sua carreira política com uma percentagem nas pesquisas em seu nível de popularidade poucas vezes obtida por algum político.
Até que veio sua internação de urgência e que o mantém prostrado até o dia de hoje num estado critico, mas estável no Hospital Hadassa de Jerusalém. Indubitavelmente o grande ausente, que aparentemente não poderá desfrutar do reconhecimento majoritário por seu longo e árduo trabalho público.
Como nos últimos processos eleitorais os partidos políticos que se apresentam são muitos. Mais de 30 partidos políticos, mas perto de 20 deles não terão representação alguma no Knesset pois não alcançaram o mínimo necessário que determina a legislação, de 2% dos votos.
Há partidos de esquerda, de direita e de centro, partidos religiosos e ultra-religiosos, partidos árabes e partidos de imigrantes da Rússia.
O novo panorama
O novo panorama eleitoral de Israel se deu a partir de uma série de circunstâncias que implicam de certa forma, uma mudança na realidade política, um pouco diferente das campanhas eleitorais anteriores, pelas quais chegaram ao poder o Avodá ou o Likud, às vezes por diferenças mínimas.
A principal circunstância do novo panorama político foi o surgimento do partido Kadima após Sharon abandonar o Likud. Vários dos políticos destacados do Likud seguiram os passos de Sharon. Sharon sofreu um derrame cerebral e ficou á margem das eleições. Ehud Olmert irrompeu como o candidato com maiores possibilidades para Primeiro-Ministro. Amir Peretz derrotou Shimon Peres em eleições internas do Avoda. Amir Peretz conseguiu que entre os temas que se discutiram na campanha eleitoral, os temas sociais não fossem substituídos pelos de segurança. Olmert já anunciou que planeja lidar com assuntos sociais. Shimon Peres abandona o Avoda e se une ao Kadima junto a outras figuras de seu partido. Diversas e destacadas figuras apolíticas até o presente, se unem uns ao Kadima e outros ao Avodá. O Partido Shinui que nas últimas eleições se constituiu na terceira força política, sofreu uma convusão interna, o partido muito despencava nas pesquisas e ficou sem representação alguma no Knesset. Tommy Lapid, que estava a frente do Shinui, fica à margem das negociações políticas agora.
Há quem sustenta que Sharon não fez mais que converter em realidade toda uma série de expectativas que a opinião pública tinha e que nenhum dos governos anteriores tinha se atrevido a concretizar, como a intenção de obter uma separação concreta dos palestinos e chegar a fronteiras seguras, de acordo com as necessidades de Israel. E seu Plano de Desconexão não foi mais que o primeiro passo nesta direção.