Visão Judaica Abril de 2005 Editorial


O significado da liberdade em Pêssach e outros temas

Estamos próximos de uma das principais festividades do povo judeu. Pêssach comemorado todos os anos recorda que nossos antepassados foram escravos no Egito e que sofreram muito até serem libertos por Moisés com a ajuda de D-us, e conduzidos ao deserto, onde vagaram 40 anos até retornarem a Eretz Israel, não sem antes obterem as leis e os mandamentos divinos. Liberdade não tem preço e por isso todos os anos, em todas as gerações a epopéia do povo judeu é relembrada. Muitos pensam que são livres, quando na verdade são freqüentemente ‘escravos’ da vida moderna. Em Pêssach devemos sair dessa escravidão e adquirir a verdadeira Liberdade!
Pêssach nos leva a reviver a liberdade que nossos antepassados experimentaram, e que significa ‘passagem’, marcando a mudança do estado da escravidão para a liberdade, ou seja, a renovação. E estamos vivendo fatos impressionantes. Há poucos dias, em Roma, durante os serviços fúnebres do Papa João Paulo II, — cuja memória será sempre abençoada — o presidente de Israel, Moshé Katsav foi cumprimentado e apertou as mãos dos presidentes da Síria, do Irã e da Argélia, Bashar Assad, Mohammed Khatami e Abdelaziz Bouteflika, três países tecnicamente inimigos! Isso significaria mudanças essenciais no Oriente Médio? Pode ser. E tomara que seja!
A morte de João Paulo II nos fez ver a coragem e a visão do grande homem que se foi e que se preocupava com a paz no mundo. E quão importante foi para os judeus, com quem conviveu de perto em Wadowice e na Cracóvia, onde salvou pessoas da morte e das garras dos nazistas. Como Papa, pediu perdão pelo que a Inquisição e a Igreja fizeram aos judeus em dois milênios de perseguições, torturas e calúnias. Reconheceu o Estado de Israel, estabelecendo relações diplomáticas com o país e indo até lá, para orar no Muro das Lamentações, visitando Jerusalém e o Museu do Holocausto. Ali, num discurso tocante, recordou os que pereceram no Holocausto. Suas palavras ainda ecoam fundo na alma de muitos: “Homens, mulheres e crianças choram para nós do fundo dos horrores que só eles conheceram. Como podemos deixar de ouvir o seu grito?”. Ninguém fez tanto pela mudança nas relações entre a Igreja e os judeus como Karol Wojtyla.
Ao inaugurar o novo edifício do Museu do Holocausto, o Yad Vashem, o 1º ministro de Israel, Ariel Sharon, deu um recado claro àqueles que com a desculpa do anti-sionismo, se convertem na vanguarda judeufóbica, negam legitimidade à existência do país e desejam eliminá-lo do mapa: "Israel é a única garantia de que povo judeu não sofra outra Shoá". E acrescentou: “Lembraremos com dor e respeito os milhões de judeus exterminados ao longo da história pela mesma intolerância que hoje se intitula anti-sionista.
Em maio acontecerá a cúpula entre os países árabes e América Latina. Por trás dos acordos comerciais — bons para o Brasil — reside o risco dos países latinos serem enredados numa armadilha. Jornalistas que tiveram acesso ao rascunho do documento a ser assinado ao final do evento afirmam que dele constam parágrafos de condenação a Israel e a tentativa de diferenciar o terrorismo do direito legítimo dos povos em resistir à ocupação estrangeira. Como é sabido, não existe o terror bom ou mau. Ambos são iguais.
Ah, íamos esquecendo. Com esta edição especial de Pêssach, o jornal Visão Judaica completa seu terceiro aniversário e inicia seu quarto ano de circulação. Boa leitura a todos e um Pêssach Sameach.
A Redação