Ciência perde César Lattes
Descobridor do méson pi tinha descendência judaica e era nascido em Curitiba

 

Um dos maiores cientistas brasileiros, o físico César Lattes, morreu dia 8/3, aos 80 anos, em Campinas, após uma parada cardíaca. O que poucos sabiam é que descendia de uma família judaica italiana que acabou se convertendo ao catolicismo. Ainda jovem, ele participou dos estudos que levaram ao descobrimento do méson pi, partícula que mantém o núcleo do átomo coeso. A descoberta é um dos pilares da Física Moderna e colocou o brasileiro entre os mais influentes pesquisadores no Brasil e do mundo. Por sua descoberta e sua contribuição ao conhecimento científico, Lattes foi incluído como verbete na Enciclopédia Britânica e em outros livros sobre a história da ciência.

César Lattes nasceu Cesare Mansueto Giulio Lattes, em Curitiba, no dia 11 de janeiro de 1924, e não em 11 de julho, conforme consta de suas biografias, inclusive na página eletrônica do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas) instituição que ajudou a fundar, e também nos obituários publicados nos grandes jornais brasileiros por ocasião de sua morte. A data correta, — 11 de janeiro — consta da certidão de nascimento, da qual Visão Judaica obteve uma cópia. Levantada a disparidade das datas, a funcionária responsável pelos registros do cartório observou que originalmente, constava a data de 11 de julho como o dia de seu nascimento, mas que existe uma retificação judicial, feita a posteriori, modificando a data para janeiro (ver fac-símile da certidão).

Graduou-se em Física e Matemática pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em 1943 e aos 23 anos foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio, instituição que também dirigiu. Realizou diversas pesquisas no Brasil, além de incentivar parcerias acadêmicas - a mais profícua delas com o Japão. Foi professor da USP e da Unicamp, onde se aposentou em 1986.

Méson pi
Até sua descoberta, a estrutura do átomo era conhecida apenas por meio de suas três partículas elementares: próton, nêutrons e elétrons. O méson pi é uma partícula subatômica que se forma a partir de reações nucleares quando duas partículas de grande energia colidem.

"É uma partícula de vida efêmera. Ela surge e é destruída logo em seguida, mas ainda assim é fundamental para entender a natureza das partículas elementares", explica astrofísico João Steiner, diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP. "Quando os raios cósmicos colidem com a alta atmosfera muitas partículas são formadas. Entre elas o méson pi."
A história de Lattes foi marcada por conquistas que obteve ainda na juventude. Apenas três anos depois de se formar na USP, Lattes partiu para os Andes bolivianos, onde instalou um laboratório a 5.600 metros de altitude, perto da capital, La Paz, com o apoio da Universidade de Bristol, da Grã-Bretanha. Um de seus orientadores foi o físico russo Gleb Wataghin.

A ele se uniram os físicos Giuseppe Occhialini e Cecil Frank Powell, que liderava a observação da ação de raios em chapas fotográficas com bórax, um composto do elemento químico boro. A experiência forneceu evidências dos mésons pi - partículas previstas pelo japonês Hideki Yukawa, em 1935, por meio de cálculos - e deu início oficialmente à era da física de partículas elementares.

César Lattes publicou um artigo histórico sobre a descoberta no periódico científico Nature, um dos mais prestigiosos do mundo, defendendo o méson pi. Prova da importância do trabalho é o fato de que seu orientador na descoberta do méson pi, Powell, recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1950. "E eles reconheceram, Powell e Occhialini, que foi o talento de Lattes que permitiu a descoberta de fato", diz Steiner.

Logo depois, já conhecido por seu trabalho nos Andes, ele deixou a Universidade de Bristol e cruzou o Oceano Atlântico para tentar produzir mésons pi artificialmente.

O brasileiro foi para a Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, em 1955, onde trabalhou com o físico americano Eugene Gardner - que na época utilizava o mesmo acelerador de partículas que fora usado para fazer a bomba atômica lançada sobre a cidade de Hiroshima. Mas recusou os convites mais honrosos, como o de substituir o falecido Enrico Fermi na chefia do seu Instituto na Universidade de Chicago, retorna ao Brasil dois anos depois para criar, na USP, um laboratório para estudos de interações a altas energias na radiação cósmica. Entre seus colegas, estava outro físico judeu brasileiro, Mário Schenberg.

Em 1962 participa do grupo pioneiro que organizava a Universidade Estadual de Campinas, transferindo-se para essa cidade no ano seguinte e dando início à formação de seu Instituto de Física. Em curto período essa universidade conquistou elevado conceito nos meios universitários brasileiros e, em particular, seu instituto de física é creditado como dos melhores no Brasil, cercado de grande prestígio e projeção internacional.

Outro feito do físico foi, em 1969, à frente de uma equipe de físicos brasileiros e japoneses, conseguindo determinar a massa das chamadas bolas de fogo, fenômeno induzido pelo choque intenso de partículas dotadas de grande energia e que se supunha constituírem nuvens de mésons. Steiner destaca que as descobertas de Lattes não apenas foram históricas para a Física internacional, mas foram feitas em uma época ainda prematura de desenvolvimento da ciência brasileira.

"É claro que já havia cientistas de destaque individual, mas a ciência ainda não estava institucionalizada no Brasil", lembra Steiner. "Não havia órgãos de fomento como Fapesp, CNPq, Capes ou Finep. Foi uma fase heróica da ciência brasileira e César Lattes teve um papel pioneiro e inspirador dentro desse processo para toda uma geração."

No ano passado, ele recebeu do reitor da Unicamp, Carlos Henrique de Brito Cruz, em sua casa, os títulos de professor emérito e de doutor honoris causa, que lhe haviam sido conferidos no ano de sua aposentadoria, em 1986. Segundo a universidade, os títulos só foram entregues em 2004 porque "Lattes, avesso a homenagens públicas, passou incólume por quatro reitores sem jamais conciliar uma data para a cerimônia".

Entre prêmios, medalhas e comendas, recebeu no Brasil o Prêmio Einstein de 1950, o Prêmio Fonseca Costa, do CNPq, em 1958, a Medalha Santos Dumont em 1989, a Medalha comemorativa dos 25 anos da SBPC e placa comemorativa dos 40 anos dessa sociedade, o símbolo do Município de Campinas, em 1992, e muitos outros. Orgulha-se, particularmente, da iniciativa de dezenas de municípios brasileiros que lhe deram o nome a escolas municipais, bibliotecas, praças, ruas.

Sua atuação no continente sul-americano foi reconhecida pelo governo boliviano, que lhe concedeu o título de cidadão honorário daquele país, em 1972, pelo governo da Venezuela, que lhe conferiu a comenda Andrés Bello em 1977, e pela Organização dos Estados Americanos, que lhe outorgou o prêmio Bernardo Houssay, em 1978; em 1987 recebeu o Prêmio de Física da Academia do Terceiro Mundo.

É o único físico brasileiro citado na Encyclopaedia Britannica é extremamente modesto. Quando fala sobre essa menção, Lattes não a atribui a um mérito seu, mas a um erro da publicação. Seu nome é um dos poucos brasileiros a figurar na Biographical Encyclopedia of Science and Technology, de Isaac Asimov.

Era casado com Martha Siqueira Neto Lattes, falecida anteriormente e com quem teve quatro filhas, que lhe deram nove netos.