Riscos e oportunidades para a paz
Algo surpreendente está acontecendo no Oriente Médio.
Há décadas suas sociedades estão presas
num ciclo de pobreza, fragmentação e autoritarismo.
Ditadores são a regra, democracias a exceção.
A rejeição ao Ocidente é virulenta num
arco que vai de Rabat a Islamabad. Jovens sem perspectivas
radicalizam e abraçam ideologias extremistas. Desde
o 11 de Setembro sabemos que o problema deles é também
o nosso.
Os EUA se lançaram numa campanha para promover a democracia
nessa zona. O raciocínio: se exclusão política,
econômica e cultural gerasse terrorismo, emancipação
inspiraria esperança, crescimento e alternativas pacíficas.
A campanha, de legitimidade duvidosa e suspeita de esconder
uma sinistra agenda hegemônica, encontrou ampla hostilidade.
Contudo estamos hoje observando os primeiros resultados, e
nem todos são negativos. Eleições democráticas
ocorreram no Afeganistão, na Autoridade Palestina e
no Iraque. Ditaduras perenes no Egito e Arábia Saudita
dão alguns passos em direção a eleições
livres. Um movimento popular contra a ocupação
síria surgiu no Líbano. É o inicio de
uma transformação democrática abrangente?
Há três argumentos contra a democratização
do Oriente Médio muçulmano. Primeiro, é a
democracia compatível com e desejável pelo Islã?
Zarkawi, o lugar-tenente terrorista de Osama bin Laden no Iraque,
prometeu lavar com sangue as ruas de Bagdá, numa "amarga
guerra contra a democracia", pois, "baseada no direito
de escolher sua religião", ela é "contra
o reino dos Céus". A soberania pertence a D’us,
e não ao povo. Porém, centenas de milhões
de muçulmanos mais moderados rejeitam esse argumento.
Turquia, Indonésia e Bósnia são democracias.
Será então que o problema não é por
causa da religião, mas com os árabes como nação?
Sustentar que algo na cultura ou nos genes torna os árabes
inadequados para a democracia beira o racismo. De fato não
há nenhuma dúvida: dada a oportunidade, a grande
maioria dos árabes optaria pela democracia, como comprovam
inúmeras pesquisas e a participação popular
onde houve eleições. Descendentes de árabes
em países mais tolerantes (como o Brasil) não
têm a menor dificuldade em participar de políticas
democráticas.
O terceiro argumento é o dos tiranos e fascistas do
Oriente Médio e de uma parcela da esquerda no resto
do mundo: aceita o princípio da soberania popular, mas
rejeita sua expressão por Parlamentos e liberdades individuais,
pois isso seria uma "imposição ocidental" a
dividir a nação e careceria de autenticidade;
uma porta para influências norte-americanas, capitalismo,
estilo de vida "decadente" da globalização.
Poucos acreditam que a democracia poderia ser importada à força,
mas, em se tratando de uma imposição imperialista, "é mister
resistir". O problema com essa linha de pensamento é que
a maioria do povo parece discordar dela. Poucos são
os países que, vendo consolidado o governo da maioria,
a proteção às minorias, as liberdades
civis e a resolução não-violenta de conflitos,
anseiam por abandonar essas aquisições. Com qual
direito outsiders se arrogam determinar o que é o melhor
para a maioria?
Embora os argumentos em favor da democratização
do Oriente Médio sejam fortes e compartilhados pelas
populações, o êxito não é garantido.
As forças opostas continuam formidáveis e poderiam
trazer de volta a costumeira "normalidade" violenta
da região. Contudo, o movimento em prol da emancipação
popular parece avançar. Nós, aqui fora, devemos
encorajá-lo.
A democracia árabe não será necessariamente
ao gosto de todos. A mesma capacitação que abre
possibilidades de cooperação e cura libertará emoções
antimodernas e sectárias. Na verdade, não é raro
democratizações gerarem movimentos propensos
a destruir a democracia pelas urnas. Isto, porém, é um
risco inescapável. Os extremistas xiitas do Hizbollah
são numerosos o bastante para legitimamente reivindicarem
uma parte no governo do Líbano; o mesmo vale para os
sunitas no Iraque. A paz com Israel é mais impopular
no Egito e no Líbano do que entre palestinos. Aceitar
democratas antiocidentais constituirá a prova da sinceridade
dos EUA.
Contudo as vantagens superam os inconvenientes. Da Argélia à Palestina
e ao Iraque —incluindo, amanhã talvez, a Síria
e o Irã —, governos responsáveis perante
seus povos serão menos ávidos por discriminação,
guerra, genocídio e terrorismo. A vantagem das democracias
não é que elas cometem erros menos graves do
que ditaduras, mas que permitem às populações
aprender com seus erros. Aconteceu na Alemanha, no Japão
e em outros lugares; poderia acontecer também no Oriente
Médio.
Devemos torcer para que o mecanismo da autocorreção
embutido na democracia modifique, no longo prazo, o modo de
os muçulmanos médio-orientais se relacionarem
com a sua religião, as suas mulheres, as minorias não-muçulmanas
ou não-árabes e, finalmente, o próprio
Ocidente.
Peter Demant nasceu em Amsterdã, Holanda, em 1951. É historiador,
doutor pela Universidade de Amsterdã em 1988, com dissertação
sobre a colonização israelense dos territórios
palestinos entre 1967 e 1977. Morou em Jerusalém de
1990 a 1998, onde foi pesquisador sênior do The Harry
S. Truman Research Institute for the Advancement of Peace,
na Universidade Hebraica, e esteve ativamente envolvido nos
diálogos entre acadêmicos israelenses e palestinos.
Desde 1999 mora no Brasil, onde é professor-doutor no
departamento de História da USP, lecionando Relações
Internacionais e História da Ásia. É especialista
em questões do Oriente Médio e autor de, entre
outras obras, "O Mundo Muçulmano" (Contexto,
2004) – Publicado originalmente na Folha de S.Paulo,
em 12 de março de 2005.