O Oriente Médio caminha para a democracia?
Por: Peter Demant*


Riscos e oportunidades para a paz

Algo surpreendente está acontecendo no Oriente Médio. Há décadas suas sociedades estão presas num ciclo de pobreza, fragmentação e autoritarismo. Ditadores são a regra, democracias a exceção. A rejeição ao Ocidente é virulenta num arco que vai de Rabat a Islamabad. Jovens sem perspectivas radicalizam e abraçam ideologias extremistas. Desde o 11 de Setembro sabemos que o problema deles é também o nosso.

Os EUA se lançaram numa campanha para promover a democracia nessa zona. O raciocínio: se exclusão política, econômica e cultural gerasse terrorismo, emancipação inspiraria esperança, crescimento e alternativas pacíficas. A campanha, de legitimidade duvidosa e suspeita de esconder uma sinistra agenda hegemônica, encontrou ampla hostilidade. Contudo estamos hoje observando os primeiros resultados, e nem todos são negativos. Eleições democráticas ocorreram no Afeganistão, na Autoridade Palestina e no Iraque. Ditaduras perenes no Egito e Arábia Saudita dão alguns passos em direção a eleições livres. Um movimento popular contra a ocupação síria surgiu no Líbano. É o inicio de uma transformação democrática abrangente?

Há três argumentos contra a democratização do Oriente Médio muçulmano. Primeiro, é a democracia compatível com e desejável pelo Islã? Zarkawi, o lugar-tenente terrorista de Osama bin Laden no Iraque, prometeu lavar com sangue as ruas de Bagdá, numa "amarga guerra contra a democracia", pois, "baseada no direito de escolher sua religião", ela é "contra o reino dos Céus". A soberania pertence a D’us, e não ao povo. Porém, centenas de milhões de muçulmanos mais moderados rejeitam esse argumento. Turquia, Indonésia e Bósnia são democracias.

Será então que o problema não é por causa da religião, mas com os árabes como nação? Sustentar que algo na cultura ou nos genes torna os árabes inadequados para a democracia beira o racismo. De fato não há nenhuma dúvida: dada a oportunidade, a grande maioria dos árabes optaria pela democracia, como comprovam inúmeras pesquisas e a participação popular onde houve eleições. Descendentes de árabes em países mais tolerantes (como o Brasil) não têm a menor dificuldade em participar de políticas democráticas.

O terceiro argumento é o dos tiranos e fascistas do Oriente Médio e de uma parcela da esquerda no resto do mundo: aceita o princípio da soberania popular, mas rejeita sua expressão por Parlamentos e liberdades individuais, pois isso seria uma "imposição ocidental" a dividir a nação e careceria de autenticidade; uma porta para influências norte-americanas, capitalismo, estilo de vida "decadente" da globalização. Poucos acreditam que a democracia poderia ser importada à força, mas, em se tratando de uma imposição imperialista, "é mister resistir". O problema com essa linha de pensamento é que a maioria do povo parece discordar dela. Poucos são os países que, vendo consolidado o governo da maioria, a proteção às minorias, as liberdades civis e a resolução não-violenta de conflitos, anseiam por abandonar essas aquisições. Com qual direito outsiders se arrogam determinar o que é o melhor para a maioria?

Embora os argumentos em favor da democratização do Oriente Médio sejam fortes e compartilhados pelas populações, o êxito não é garantido. As forças opostas continuam formidáveis e poderiam trazer de volta a costumeira "normalidade" violenta da região. Contudo, o movimento em prol da emancipação popular parece avançar. Nós, aqui fora, devemos encorajá-lo.

A democracia árabe não será necessariamente ao gosto de todos. A mesma capacitação que abre possibilidades de cooperação e cura libertará emoções antimodernas e sectárias. Na verdade, não é raro democratizações gerarem movimentos propensos a destruir a democracia pelas urnas. Isto, porém, é um risco inescapável. Os extremistas xiitas do Hizbollah são numerosos o bastante para legitimamente reivindicarem uma parte no governo do Líbano; o mesmo vale para os sunitas no Iraque. A paz com Israel é mais impopular no Egito e no Líbano do que entre palestinos. Aceitar democratas antiocidentais constituirá a prova da sinceridade dos EUA.

Contudo as vantagens superam os inconvenientes. Da Argélia à Palestina e ao Iraque —incluindo, amanhã talvez, a Síria e o Irã —, governos responsáveis perante seus povos serão menos ávidos por discriminação, guerra, genocídio e terrorismo. A vantagem das democracias não é que elas cometem erros menos graves do que ditaduras, mas que permitem às populações aprender com seus erros. Aconteceu na Alemanha, no Japão e em outros lugares; poderia acontecer também no Oriente Médio.

Devemos torcer para que o mecanismo da autocorreção embutido na democracia modifique, no longo prazo, o modo de os muçulmanos médio-orientais se relacionarem com a sua religião, as suas mulheres, as minorias não-muçulmanas ou não-árabes e, finalmente, o próprio Ocidente.

Peter Demant nasceu em Amsterdã, Holanda, em 1951. É historiador, doutor pela Universidade de Amsterdã em 1988, com dissertação sobre a colonização israelense dos territórios palestinos entre 1967 e 1977. Morou em Jerusalém de 1990 a 1998, onde foi pesquisador sênior do The Harry S. Truman Research Institute for the Advancement of Peace, na Universidade Hebraica, e esteve ativamente envolvido nos diálogos entre acadêmicos israelenses e palestinos. Desde 1999 mora no Brasil, onde é professor-doutor no departamento de História da USP, lecionando Relações Internacionais e História da Ásia. É especialista em questões do Oriente Médio e autor de, entre outras obras, "O Mundo Muçulmano" (Contexto, 2004) – Publicado originalmente na Folha de S.Paulo, em 12 de março de 2005.