Desde os momentos finais da 2ª Guerra Mundial as primeiras
tentativas de negar as atrocidades cometidas pelos alemães
se iniciaram com os próprios nazistas. Himmler, vendo
que a guerra não ia bem, instruiu seus comandantes a
destruírem registros e quaisquer outros sinais de extermínio
em massa de seres humanos. Em abril de 1945, assinou ordem
oficial (que existe até hoje, no original) para que
nenhum prisioneiro caísse vivo nas mãos dos inimigos.
Aparentemente, Himmler sabia que a "Solução
Final" seria vista como uma barbárie pelo resto
do mundo. Após a guerra, proeminentes membros das SS
fugiram da Alemanha, muitos ajudados pelo Vaticano, e iniciaram
o processo de negação do Holocausto.
Hoje, os chamados "revisionistas" se espalham por
todo o mundo e, entre outras coisas, alegam que não
era propósito de Hitler exterminar os judeus, ignorando
até o famoso discurso feito em frente ao Reichstag em
1939. "Hoje serei mais uma vez profeta: se o judaísmo
financeiro internacional, dentro e fora da Europa, conseguir
mais uma vez atirar as nações em outra guerra
mundial, as conseqüências não serão
a bolchevização do planeta e, portanto, a vitória
do judaísmo, mas a aniquilação da raça
judaica na Europa."
Ignoram também o Protocolo Wansee, de 20 de junho de
1942, em que o oficial da SS Heydrich relata ao marechal do
Reich Goering sua indicação para comissário,
visando à preparação da "Solução
final para o problema dos judeus europeus", entre os milhares
de documentos arquivados na Alemanha, Rússia, EUA e
Inglaterra.
Em resumo, baseiam-se na ignorância do público
em geral no que diz respeito à história e à ciência.
O artigo "Números de Auschwitz e outros números" (A
Notícia, 12/3/2005, p. A3) é uma demonstração
de como a desinformação e trabalhos pseudocientíficos
colaboram para a má interpretação da história,
deliberadamente ou não.
O historiador alemão Guido Knopp, citado no artigo,
afirma que as Brigadas Totenkopf, designadas para administrar
os campos de concentração e campos da morte,
estavam também envolvidas nos fuzilamentos em massa
de civis na Rússia e Europa Oriental. "Os Waffen-SS
não eram soldados comuns, mas máquinas brutais
de matar..." (in "Die SS: eine Warnung der Geschichte").
O autor do artigo cita que o "historiador" (!!??)
Siegfried Ellwanger (condenado por escrever livros anti-semitas)
pediu a seu amigo americano Fred Leuchter Jr., "expert" na
construção de câmaras de gás nos
EUA", que visitasse Auschwitz, devidamente equipado e
que fizesse análises que o caso requeria (sic). Nada
mais longe da verdade. Leuchter foi contratado por Ernst Zündel
(outro famoso anti-semita) pelo valor de 35 mil dólares
para ir a Auschwitz, nada tendo a ver com o gaúcho Ellwanger.
O "expert" Leuchter foi indiciado criminalmente,
em 1990, no estado de Massachusetts, por se apresentar como
engenheiro, sem ter licença. Além de nunca ter
cursado engenharia, ele próprio admite não ter
nenhum treino formal em toxicologia, biologia ou química,
e foi desmascarado por mentir ao dizer que tinha experiência
na construção de câmaras de gás.
O polonês dr. Franzizek Piper (o correto é Franciszek
Piper), também citado no artigo do professor Reinehr, é claro
quando diz que "se as pessoas na Polônia quiserem
viver longe dos locais onde pessoas foram mortas, perseguidas,
onde o solo está encharcado com o sangue daqueles assassinados
pelos nazistas, então todos têm de sair da Polônia".
A afirmação do professor Reinehr de que a Cruz
Vermelha Internacional sempre tivera acesso irrestrito a todos
os KZ-Lager alemães e nunca mencionou "barbaridades
holocáusticas" também atropela a verdade.
A própria Cruz Vermelha, em seu site, informa que, durante
a guerra, apesar de continuarem a insistir nos contactos com
autoridades alemãs, a fim de visitarem os campos de
concentração, sempre esbarraram em uma recusa
categórica. Em 23 de junho de 1944, o dr. Rossel, delegado
da Cruz Vermelha, foi a Theresienstadt, numa visita devidamente "preparada "pelos
alemães", mas não pôde conversar com
os judeus. E em 27 de setembro de 1944, foi a Auschwitz, mas
não foi autorizado, pelo comandante, a entrar no campo.
Pesquisa feita pela "Newsweek" em 1993 mostra que
quase 40% dos adultos americanos têm dúvidas sobre
a magnitude do Holocausto. Este ceticismo em relação
ao Holocausto se relaciona com o aumento das ideologias neofascistas
e neonazistas no mundo, que se materializaram nas ditaduras
militares implantadas principalmente na América do Sul
e Central. Faz parte também da idéia lunática
da existência de um complô judaico-maçônico
para conquistar o mundo.
A existência do Holocausto não é uma questão
de debate. Não há nada para debater — é um
fato histórico. A discussão sobre o número
de assassinados em Auschwitz não faz sentido, pois nenhum
historiador sério (incluindo Raul Hillberg) afirma que
morreram 4 milhões neste campo e, sim, que este é o
numero de mortos em todos os campos de concentração,
sendo mais 2 milhões de judeus assassinados de outras
maneiras, em toda a Europa. Além disso, a morte, nessas
condições, de apenas um ser humano deveria ser
motivo de profunda vergonha para toda a humanidade.
1 - Não esqueceremos", em hebraico.
* Antonio Sergio Ferreira Baptista é médico
em Joinville, Santa Catarina