Auschwitz e o Niskor1
Por: Antonio Sergio Ferreira Baptista*

Desde os momentos finais da 2ª Guerra Mundial as primeiras tentativas de negar as atrocidades cometidas pelos alemães se iniciaram com os próprios nazistas. Himmler, vendo que a guerra não ia bem, instruiu seus comandantes a destruírem registros e quaisquer outros sinais de extermínio em massa de seres humanos. Em abril de 1945, assinou ordem oficial (que existe até hoje, no original) para que nenhum prisioneiro caísse vivo nas mãos dos inimigos. Aparentemente, Himmler sabia que a "Solução Final" seria vista como uma barbárie pelo resto do mundo. Após a guerra, proeminentes membros das SS fugiram da Alemanha, muitos ajudados pelo Vaticano, e iniciaram o processo de negação do Holocausto.

Hoje, os chamados "revisionistas" se espalham por todo o mundo e, entre outras coisas, alegam que não era propósito de Hitler exterminar os judeus, ignorando até o famoso discurso feito em frente ao Reichstag em 1939. "Hoje serei mais uma vez profeta: se o judaísmo financeiro internacional, dentro e fora da Europa, conseguir mais uma vez atirar as nações em outra guerra mundial, as conseqüências não serão a bolchevização do planeta e, portanto, a vitória do judaísmo, mas a aniquilação da raça judaica na Europa."

Ignoram também o Protocolo Wansee, de 20 de junho de 1942, em que o oficial da SS Heydrich relata ao marechal do Reich Goering sua indicação para comissário, visando à preparação da "Solução final para o problema dos judeus europeus", entre os milhares de documentos arquivados na Alemanha, Rússia, EUA e Inglaterra.

Em resumo, baseiam-se na ignorância do público em geral no que diz respeito à história e à ciência.

O artigo "Números de Auschwitz e outros números" (A Notícia, 12/3/2005, p. A3) é uma demonstração de como a desinformação e trabalhos pseudocientíficos colaboram para a má interpretação da história, deliberadamente ou não.

O historiador alemão Guido Knopp, citado no artigo, afirma que as Brigadas Totenkopf, designadas para administrar os campos de concentração e campos da morte, estavam também envolvidas nos fuzilamentos em massa de civis na Rússia e Europa Oriental. "Os Waffen-SS não eram soldados comuns, mas máquinas brutais de matar..." (in "Die SS: eine Warnung der Geschichte").

O autor do artigo cita que o "historiador" (!!??) Siegfried Ellwanger (condenado por escrever livros anti-semitas) pediu a seu amigo americano Fred Leuchter Jr., "expert" na construção de câmaras de gás nos EUA", que visitasse Auschwitz, devidamente equipado e que fizesse análises que o caso requeria (sic). Nada mais longe da verdade. Leuchter foi contratado por Ernst Zündel (outro famoso anti-semita) pelo valor de 35 mil dólares para ir a Auschwitz, nada tendo a ver com o gaúcho Ellwanger. O "expert" Leuchter foi indiciado criminalmente, em 1990, no estado de Massachusetts, por se apresentar como engenheiro, sem ter licença. Além de nunca ter cursado engenharia, ele próprio admite não ter nenhum treino formal em toxicologia, biologia ou química, e foi desmascarado por mentir ao dizer que tinha experiência na construção de câmaras de gás.

O polonês dr. Franzizek Piper (o correto é Franciszek Piper), também citado no artigo do professor Reinehr, é claro quando diz que "se as pessoas na Polônia quiserem viver longe dos locais onde pessoas foram mortas, perseguidas, onde o solo está encharcado com o sangue daqueles assassinados pelos nazistas, então todos têm de sair da Polônia".

A afirmação do professor Reinehr de que a Cruz Vermelha Internacional sempre tivera acesso irrestrito a todos os KZ-Lager alemães e nunca mencionou "barbaridades holocáusticas" também atropela a verdade. A própria Cruz Vermelha, em seu site, informa que, durante a guerra, apesar de continuarem a insistir nos contactos com autoridades alemãs, a fim de visitarem os campos de concentração, sempre esbarraram em uma recusa categórica. Em 23 de junho de 1944, o dr. Rossel, delegado da Cruz Vermelha, foi a Theresienstadt, numa visita devidamente "preparada "pelos alemães", mas não pôde conversar com os judeus. E em 27 de setembro de 1944, foi a Auschwitz, mas não foi autorizado, pelo comandante, a entrar no campo.

Pesquisa feita pela "Newsweek" em 1993 mostra que quase 40% dos adultos americanos têm dúvidas sobre a magnitude do Holocausto. Este ceticismo em relação ao Holocausto se relaciona com o aumento das ideologias neofascistas e neonazistas no mundo, que se materializaram nas ditaduras militares implantadas principalmente na América do Sul e Central. Faz parte também da idéia lunática da existência de um complô judaico-maçônico para conquistar o mundo.
A existência do Holocausto não é uma questão de debate. Não há nada para debater — é um fato histórico. A discussão sobre o número de assassinados em Auschwitz não faz sentido, pois nenhum historiador sério (incluindo Raul Hillberg) afirma que morreram 4 milhões neste campo e, sim, que este é o numero de mortos em todos os campos de concentração, sendo mais 2 milhões de judeus assassinados de outras maneiras, em toda a Europa. Além disso, a morte, nessas condições, de apenas um ser humano deveria ser motivo de profunda vergonha para toda a humanidade.

1 - Não esqueceremos", em hebraico.

* Antonio Sergio Ferreira Baptista é médico em Joinville, Santa Catarina