Viagem da alma
Por: Antonio Carlos Coelho*
Tenho escrito sobre locais que merecem visita em Jerusalém.
Afinal, essa é uma coluna com o título “Turismo”.
Desta vez, me permitam os leitores, estou mais disposto a escrever
sobre um tipo de turismo diferente, o turismo da alma. Da alma,
porque Jerusalém permite que também as almas façam
turismo por suas ruas e locais, marcos da memória histórica
e espiritual da Cidade. E, como está se aproximando Pêssach,
falar sobre turismo da alma, não estaria tão fora
do assunto, já que Pêssach é uma viagem da
alma.
Os preparativos desta viagem começam alguns dias antes,
quando os excessos da casa são retirados até que,
por fim, se retire todo o chamêts. Assim se está livre
do peso das coisas que dificultam a viagem da alma. São
dados os primeiros passos para a longa jornada. E, na noite do
primeiro seder, na primeira brachá (benção),
o bilhete é picotado, dá-se início a uma
viagem que vem se fazendo há séculos, desde que
o primeiro judeu se afastou da Terra de Israel.
E pelos textos da Torá e dos comentários dos rabis
a alma viaja. O pensamento vai ao passado, retorna ao presente.
A hagadá é história do cotidiano da alma
judaica. É no dia a dia que se experimenta a limitação
de Mitzrayim (Egito). Os desejos frustrados, esperanças
que se apagam ao longo dos anos, o azedo que toma conta dos corações,
as agressões, a indiferença. Sentimentos nossos
em relação aos outros, ou dos outros em relação
a nós que causam mágoa. São sentimentos
que devem ser deixados. Porque, de qualquer forma, são
sempre limitadores da grandeza humana projetada por D-us, nosso
Criador. O pior de Mitzrayim deve ser o conformismo. Ele é enganador.
Conforta pela comodidade diante das situações mais
exigentes da vida. Faz da alma preguiçosa, indisposta
a deixar o Egito para uma nova situação.
Pêssach é uma convocação. Cada judeu,
de cada geração, é convocado a deixar o
Egito. A realidade da vida confirma a atualidade desta convocação. É certo
que não é fácil. É exigente. Cobra
decisões que, em muitas das vezes, não são
fáceis de serem tomadas. Fazem mudar de rumo, contradizer
aquilo que se tem como certo, como definido, como o mais correto.
A história judaica — mesmo a história individual
de cada judeu — já comprovou que foi pela contrariedade
que os valores foram preservados, que comunidades sobreviveram
o assédio das culturas goyim, que se criou o novo Estado
de Israel. Tenha-se certeza de que não foi pelo conformismo,
pelo comodismo que Israel se manteve viva por dois mil anos.
A união povo e terra se manteve, porque a alma judaica
nunca deixou de fazer a sua viagem, partindo na noite de Pêssach à velha
Jerusalém ou, porque, enquanto o judeu se volta para Jerusalém,
nos momentos de profunda oração, sua alma se encarrega
de ir até lá dar uma espiada, percorrer as ruas,
as casas, os parques, os locais sagrados e cada canto da cidade.
Lembro do poeta Judah Halevi (Toledo, 1086 - Egito, 1145), “Meu
coração está no Leste, e eu no remoto Oeste.
Como posso encontrar sabor na comida?”. Judah Halevi reclamava
a sua integridade judaica. Creio que cada judeu é também
como o poeta de Sefarad. Esteja onde for, sua alma sempre reclamará por
essa integridade.
Pêssach é uma festa que dura sete (oito) dias apenas,
mas tem uma força incrível. Ela permite que cada
judeu faça, de maneira mais intensa, através de
uma série de rituais, na unidade da família e dos
amigos, a experiência da integridade e da identidade judaica.
Permite que cada alma judaica manifeste seu desejo mais íntimo,
exclamando: Lê shaná abaah b’Yerushalaim (Ano
que vem em Jerusalém).
*Antonio Carlos Coelho é professor e diretor do Instituto
Ciência e Fé
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